17 de maio de 2016

O que é o rap para Kaskão, do Trilha Sonora do Gueto


Sempre incisivo em suas críticas, Kaskão falou com a Vaidapé em mais um episódio da série “O que é o rap?”, dando sua opinião sobre a nova geração de músicos, o movimento na mídia, legalização das drogas e seu posicionamento político


Por: Thiago Gabriel e Iuri Sales
Vídeo: João Miranda

De um lado para o outro, Djalma Oliveira Rios, o Kaskão do Trilha Sonora do Gueto, passa perguntando e dando ordens para acertar os últimos ajustes do show. Da luz, às caixas de som até a comida dos artistas no camarim, ele participa de toda a produção dos eventos em que toca, muitos inclusive convocados pelo próprio rapper. Observador e crítico com tudo que se passa ao seu redor, Kaskão para por alguns minutos para conversar com a Vaidapé para mais um episódio da série “O que é o rap?”, momentos antes de mais um Encontro dos Vida Loka.

Ao folhear a revista Vaidapé impressa, já surgem os convites: “Vamos fazer uma revista e um aplicativo dos Vida Loka?”. Depois de alguns minutos, o vocalista de um dos grupos de rap mais tradicionais de São Paulo começa a passar suas ideias, proferidas com uma certeza e lucidez enfáticas que mais parecem a didática de um pastor ou líder de algum movimento.

O Trilha Sonora do Gueto surgiu em 1999, comandado por Kaskão que, após oito anos na prisão por assalto a banco, reuniu Bokão e Véio, parceiros do bairro do Capão Redondo, na zona sul de São Paulo. Impulsionado pelo primeiro álbum “Us Fracu num tem Veiz”, de 2003, o “T$G” – como é conhecido o grupo – se tornou uma das referências do rap nacional, emplacando um dos hinos do gênero, “Um Pião de Vida Loka”. Hoje em dia, sobem aos palcos Zequinha (filho do vocalista), DJ Soneka e o próprio Kaskão.

Para o cantor, o T$G sempre carregou o “rap gangueiro”, um estilo dentro do gênero que mantém fielmente a estética das ruas e dos vida loka: “O rap gangueiro é você ser assumido, você falar: ‘eu não sou o crime, não faço nada de errado pro governo me prender, só que é o seguinte: não tenho medo de polícia, não tenho medo de político, empresário, não tenho medo de ninguém’. Rap gangueiro é isso aqui ó”, explica Kaskão, apontando sua face para dizer que dá a cara pra bater.

Nos últimos anos, Kaskão tem se manifestado de forma dura com outros cantores de rap, afirmando que muitos se distanciaram da raiz do movimento, passando a se apresentar na televisão e compondo músicas que deixam de protestar sobre a realidade das periferias brasileiras: “Rap é protesto. Rap não é movimento ecológico”, afirma. As fortes críticas encontraram eco em milhões de seguidores que acompanham o rapper nas redes sociais e nos shows, e compartilham sua visão sobre o momento atual do gênero.

Na visão do líder do T$G, o grande problema é que muitos rappers precisam assumir que mudaram de objetivo: “O cara num tá errado por mudar, o cara tá errado por não assumir a mudança, ficar disfarçando, dizendo que evoluiu. Evoluiu não. Dá a cara para bater e diz: ‘eu mudei, e se meu público não quiser gostar mais de mim não gosta’”.

Perguntado se o rap se desviou, no entanto, Kaskão afirma que “o rap continua o mesmo. Eu acho que pessoas que se tachavam revolucionárias mudaram”. Sobre a própria carreira, porém, afirma que não mudou em nada, e que sua integridade está acima do dinheiro. “Se vier uma proposta de eu arrumar R$ 1 milhão, eu vou aceitar se a proposta respeitar a bandeira que eu defendo. Vou sentar em cima do R$ 1 milhão e vou continuar eu. Então eu não sou contra eu e nem ninguém fazer negócio.”

A opinião de Kaskão sobre a nova geração de rappers é categórica: “Eu não vejo nenhum deles pegando na haste da bandeira para carregar. Desses caras novos nenhum protesta nada. O que eu vejo é um monte de moleque novo protestando, mas  esses ainda não tem visibilidade”.

Já sobre as influências do passado, o rapper cita alguns dos percursores do gênero, como Pepeu e Thaíde, e diz não gostar de rap norte-americano: “Não gosto de americano. Eu até gosto de Tupac, Notorious BIG. Mas se estivessem na minha frente o Tupac e o Genival Lacerda, eu ia falar com o Genival Lacerda, porque ele viveu a minha realidade. O que o americano tem para passar não serve pra mim, então eu não uso como referência”.

O rap para o Kaskão, como ele mesmo define é “o único movimento que independe de mídia e de sistema. Nóis é a nossa própria mídia”.

Durante a entrevista, o papo permeou outros assuntos. Da Polícia Militar ao PCC (Primeiro Comando da Capital), Kaskão se posicionou sobre diferentes assuntos. Entre eles, a legalização das drogas, mais especificamente da maconha. Confira abaixo a opinião do rapper sobre o assunto:

O posicionamento político de Kaskão é um assunto que comumente é compartilhado por grande parte dos fãs de rap. Sua visão de que a política é composta “por um bando de safados” é replicada por muitos de seus admiradores e por boa parte da população das periferias de São Paulo. Acompanhe no vídeo abaixo um pouco do que o líder do T$G pensa sobre o assunto:

A RUA GRITA

‘É quando som de preto toca que incendeia o baile’

Cantada pelo músico capixaba Fabriccio, a frase acima integra o single “Teu Pretim”, do disco … Continuar lendo ‘É quando som de preto toca que incendeia o baile’