05 de maio de 2016

‘Sabe aquele samba que você gosta? Veio da macumba do meu povo’


Programa de rádio Vaidapé na Rua debate intolerância religiosa com a Mãe Layla de Oxum


Por Patricia Iglecio
Foto: Agência Brasil

O programa de rádio Vaidapé na Rua recebeu Mãe Layla de Oxum, da Casa de Caridade Caboclos de Aruanda, e Isabela Palhares, estudante e filha de santo, para conversar sobre intolerância religiosa no Brasil. A história e tradição dos povos de terreiro, representatividade política e racismo estrutural foram alguns dos temas debatidos.

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A casa, assim como o público, é jovem. Localizada na zona norte de São Paulo, foi fundada em junho de 2014. “O nosso trabalho dentro da umbanda é voltado para a juventude e caridade”, explica Mãe Layla.

Todo dia 1º e 15 do mês, os umbandistas realizam a distribuição de alimentos, roupas e utensílios de higiene para pessoas em situação de rua que vivem em um cemitério nas proximidades da casa de umbanda. “Todo mundo tem medo do cemitério, mas dentro da umbanda é um campo sagrado. A gente distribui marmita para as pessoas em situação de rua. A maioria deles são usuários de droga, mas nós não temos o preconceito contra eles, pelo contrário”, explica.

Todas as noções que foram trazidas para cá adotaram também intervenções filosóficas e psicológicas dos índios, os verdadeiros donos do Brasil

Mãe Layla reforça que os maiores adeptos da umbanda são negros, jovens e LGBT. Para ela, é necessário lembrar o povo negro como um todo. Nesse contexto, a umbanda é um braço, o candomblé é outro. “Todos juntos somos um povo, uma tradição que veio quando os negros vieram para o Brasil escravizados, que trouxeram a raiz, a história, os orixás.”

A umbanda foi iniciada por Zélio Andino de Moraes há 107 anos. No Rio de Janeiro, quando Zélio reuniu seus seguidores para promulgar a religião, o Caboclo das Sete Encruzilhadas tomou seu corpo e iniciou o culto com a seguinte proclamação:

“Aqui se inicia um novo culto em que os espíritos de negros velhos africanos, que haviam sido escravos e que desencarnaram, não encontram campo de ação nos remanescentes das seitas negras, já deturpadas e dirigidas quase que exclusivamente para os trabalhos de feitiçaria. E os índios, nativos da nossa terra, poderão trabalhar em benefício dos seus irmãos encarnados, qualquer que seja a cor; raça; credo ou posição social. A prática da caridade no sentido do amor fraterno, será característica principal deste culto, que tem base no evangelho de Jesus e como mestre supremo Cristo.”

Mãe Layla explica que depois disso a religião foi se espalhando pelo país e, desde então, vem sendo sistematicamente criminalizada. Ela lamenta que muitos detalhes históricos tenham sido perdidos.

“Todas as noções que foram trazidas para cá adotaram também intervenções filosóficas e psicológicas dos índios, os verdadeiros donos do Brasil. Nessa união de forças surgiu a umbanda, que mescla costumes, crenças e conhecimentos sobre a natureza. É uma tradição brasileira que une saberes africanos, indígenas e europeus.”


RACISMO ESTRUTURAL E REPRESENTATIVDADE

Isabela Palhares explica que sempre se interessou pelos cultos de matrizes africanas. Como filha de santo, ela diz perceber a intolerância religiosa ligada ao racismo e ao preconceito, o que culmina em casos apedrejamento de casas de umbanda e candomblé e agressões físicas contra os praticantes desses cultos.

“Por exemplo, na televisão são inúmeros os canais dados à religião evangélica e às religiões católicas, e para a nossa umbanda você não vê esse espaço”, questiona. Neste sentido, Isabela considera necessária a atuação da juventude para transformação desse cenário.

A estudante pontua que, em 2015, durante as conferências municipais e estaduais de juventude de São Paulo, o povo de terreiro esteve presente. “Levamos as nossas pautas, reivindicamos a criação de centros de cultura para povos tradicionais, sejam indígenas ou africanos.”

Sabe aquele samba que você gosta? O seu samba nasceu do meu samba, que veio da macumba do meu povo, da minha ancestralidade

A educação é fundamental para o combate ao racismo. “Aprender sobre a Europa, todas a guerras que tiveram lá, a história da igreja católica, é natural no ensino médio. Isso tudo está na grade e a optativa é sempre a história africana. Assim como tornar a cultura africana parte do currículo, a formação dos professores também tem que mudar para a transformação social”, argumenta Isabela.

Mãe Layla acrescenta que a Casa Caboclo de Aruanda faz um trabalho direcionado à atuação da juventude de terreiro nas políticas públicas. “O Brasil não é europeu, nós temos que derrubar esse tabu. O Brasil é negro e indígena, isso tem que ser ensinado para as crianças.”

O Projeto de Lei nº 361, de autoria da deputada estadual Leci Brandão (PCdoB), que institui no estado de São Paulo o “Dia da Umbanda”, incluindo-o no calendário oficial do estado, foi aprovado em outubro de 2015. “A deputada Leci é uma das poucas representantes na Assembleia que está lembrando do povo de terreiro”, diz Isabela.


CHUTA QUE É MACUMBA?

No final do bate papo, Mãe Layla refletiu sobre o sentido pejorativo que ganhou a palavra “macumba”:

“Ouvem nossos tambores e pensam que é macumba. Hoje ser chamada de macumbeira não me afeta porque eu sei a raiz da palavra, e é isso que a gente divulga e ensina muito. Sou mesmo, tenho muito orgulho de ser. Sabe aquele samba que você gosta? O seu samba nasceu do meu samba, que veio da macumba do meu povo, da minha ancestralidade. Toda aquele toque conhecido como percussão veio com o povo negro. As pessoas curtem, adoram, se divertem, mas não sabem a historia.”

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