25 de maio de 2016

Sabotage: ‘Com o cinema, a periferia vai se conscientizar que a grande estrela é a denúncia’


A Vaidapé entrevistou o diretor Ivan 13P no lançamento do DVD do filme “Maestro do Canão”, que conta a história do rapper Sabotage. O diretor falou sobre o processo do filme, que demorou 13 anos para ser lançado


Por: Theo Chacon
Fotos: Acervo/Ivan Vale Ferreira

Nem os orixás Ogum e Oxóssi, do qual Sabota era devoto, e nem Dona Ana, benzedeira que aparece no clipe de Respeito é Pra Quem Tem, seriam capazes de projetar o lançamento de “Sabotage – Maestro do Canão” em formato de DVD. Até a estreia oficial, em janeiro de 2015, muitos desacreditavam da existência do documentário dirigido por Ivan 13P, produzido em parceria com Denis Feijão, e exibido para quase 6 mil pessoas em apenas dois dias de sessão.

Aliviado, com sua missão cumprida, Ivan Ferreira diz entender o produtor Daniel Ganjaman quanto a demora para o lançamento do segundo disco de Sabotage, com músicas gravadas semanas antes de sua morte e participações inéditas. Para o diretor, o trabalho que Ganja tem desenvolvido com Criolo, inclusive, assemelha-se muito ao que foi feito com Sabotage.

“É cobrança, nego achando que você não se dedica, e não é essa a real. O Sabota não tá aí pra ouvir e falar ‘quero mudar’. O cara tem que ter muita certeza do que tá soltando”, argumenta. “Também entendo o gap nesse meio tempo, demorou alguns anos para pegar o material depois que ele morreu. Era o cara que batia na porta da casa do Ganja de manhã para gravar”, pondera.

Na última sexta-feira (20), pouco mais de um ano após o lançamento, o Auditório Ibirapuera, em São Paulo (SP), recebeu cerca de 300 pessoas, entre amigos e fãs, para a divulgação, em primeira mão, do DVD e uma nova mostra do filme sobre a vida e a obra de Mauro Mateus dos Santos, filho de mãe solteira, morador de periferia e um dos maiores cronistas do início do século XXI. Morto a tiros há 13 anos.

Mesmo sem presenciar, em corpo, o lançamento de seu filme, assim como não conseguiu fazer com O Invasor (2004) e Carandiru (2003) – produções nas quais teve participação decisiva -, Sabota, de alguma forma, esteve por lá. Seja através de Larissa, filha mais nova; da atmosfera alto astral, característica inerente a sua personalidade; ou do próprio recado, ouvido por todos os presentes na sessão.

Foi numa entrevista ao músico Paulo Napoli, em 2001, que Sabotage definiu a importância do cinema na periferia: “Foi uma novidade, abriu as portas para mim. Foi muito bom. Com o cinema, a periferia vai poder se conscientizar que a grande estrela é a denúncia. A denúncia vai mais rápido, é via expressa.”, falou o rapper.

sabotage 1

O processo de produção da obra, porém, não foi nada ligeiro – durou, ao todo, 13 anos. Antes deste projeto, o diretor Ivan Ferreira – integrante da Treze Produções desde o fim da década de 1990 – foi contatado por produtores da Dinamarca e Suécia para a elaboração de um documentário sobre a música rap em São Paulo, o Favela no Ar, lançado também sob sua direção em 2007.

Entre nomes como KL Jay, Dexter, Afro-X, Helião e Sandrão (do RZO) como entrevistados, estava também o de Sabotage. Era uma tarde ensolarada de junho, em 2002, quando Ivan, munido de uma câmera e uma  equipe de apoio, fez uma visita ao artista em uma das comunidades espalhadas ao longo da Av. Jornalista Roberto Marinho (antiga Águas Espraiadas).

E, a partir daquele momento, o destino de Ivan passou a ser, em certa medida, regido pelos movimentos do maestro do Canão.

sabotage producao
Gravações com Sabota aconteceram em uma única tarde, na favela do Canão, na época da Copa do Mundo de 2002. Em janeiro de 2003, o rapper foi assassinado (Foto:Acervo/Ivan Vale Ferreira)

Cinco meses após o encontro no lugar em que Sabotage viveu a maior parte de seu tempo, a notícia de seu assassinato, no Jardim da Saúde – bairro que fica cerca de 20 minutos do Canão – fez com que o diretor buscasse um novo contato com os gringos para tentar reaver as gravações daquela tarde. Ivan era jurado do Festival Hutúz, principal premiação de hip-hop da época, e que, na edição de 2004, faria uma ação em protesto à morte do artista.

“Não tinha capital. Tinha um cara com uma câmera e a gente na disposição de ajudar”, lembra o diretor, ao comentar as circunstâncias da produção. “Até que em 2003 o Sabota foi assassinado e eu lembrei do registro na quebrada dele, com ele falando coisas muito significativas, muito profundas. Tinha certeza que era um material muito rico”, conta à Vaidapé após a exibição de uma das sessões.

O sonho de se tornar músico hoje virou piada, mas Ivan procurou, de alguma forma, estar presente nos bastidores por admirar aquela vida de rimas e batidas. E depois de uma primeira edição das imagens, exibida durante 29 minutos no Hutúz de 2004, sentiu ter criado o embrião de algo maior. O seu compromisso com o rap, como avisava Sabotage.

“Neste filme há a história verdadeira de uma pessoa que, tendo nascido em uma favela, em uma condição extremamente difícil, com a mãe cuidando dos filhos, sem o pai ao lado […] que se tornou um artista estimado e querido por seus companheiros”

– Eduardo Suplicy

“Depois dessa exibição foi que pensei em ir atrás dos caras que viveram com ele. Não sei porque, não sei o que me fez, mas algo ali plantou essa semente na minha cabeça. Eu era moleque, tinha 21 anos quando comecei a fazer esse filme, e eu encanei que tinha que fazer a parada”, relata. “Era muito mais uma missão do que uma vontade e eu resolvi arriscar. Não tinha noção que 15 anos depois esse cara ia ser uma figura tão adorada”, completa.

O passar do tempo na produção de “Sabotage – Maestro do Canão” fica perceptível através das próprias lentes: de Super 8 a VHS, passando por gravações em mini dv e hd, até full hd e 4k. A diferença na qualidade da imagem, porém, não chega a incomodar. A evolução das mídias, segundo o diretor, reflete os diferentes pesos históricos dos registros. “Quem teve a chance de ver um show desse cara ao vivo, ou uma música que nem chegou a ser lançada?”, pondera.

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A tentativa de produção independente, a partir de 2006, encontrou obstáculos. O orçamento não fechava, os patrocínios não apareciam e as contas não paravam de chegar. Nos 13 anos em que produziu o documentário sobre Sabotage, Ivan atuou na organização de outros oito filmes, envolvendo desde carros antigos, até bandas de punk e futebol de várzea.

Do cenário de incerteza para o atual, no qual o longa-metragem já foi exibido por volta de 350 vezes nos cinemas, além das adesões no Net Now e Canal Brasil; alcançou as ruas da cracolândia em uma exibição gratuita organizada com apoio de Eduardo Suplicy (então Secretário dos Direitos Humanos); e foi premiado no Festival de Brasília, muita coisa mudou.

Em 2011, o diretor conseguiu inscrever o projeto do filme no Catarse e participou da primeira leva de iniciativas financiadas coletivamente. O saldo foi insuficiente e, do próprio bolso, o diretor tirou o restante para elaborar um projeto piloto. Daí, nova pausa. E um encontro especial com o produtor Denis Feijão, que participou do filme sobre a vida de Raul Seixas – O início, o fim e o meio.

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Ivan Ferreira (E) se uniu com Denis Feijão (D) há alguns anos para a finalização do documentário. Processo de produção durou, ao todo, 13 anos (Foto: Divulgação)

“Nessa época o filho do Sabota, que acompanhava meus trabalhos, viu que eu estava precisando de ajuda. O Sabotinha [também conhecido como Wanderson] me apresentou ele e falou que talvez pudesse me ajudar. O Denis tinha uma ideia de fazer um filme de ficção sobre o Sabota e ele colou em mim pra trocar ideia. O Feijão comprou a briga de um jeito que me ajudou muito. Ele participou da pesquisa de acervo junto com o Remier [Lion, pesquisador de cinema]”, lembra.

A parceria com Denis fez Ivan notar que a produção independente não daria conta de atingir o resultado esperado. Depois de inscrevem o piloto na Lei de Audiovisual, os diretores foram contemplados com o patrocínio de duas grandes empresas (Itaú e Sabesp). Hoje, a renda do filme é produto de uma divisão entre a Elixir Entretenimentos, a 13 Produções e o Canal Brasil – que detém cerca de 50% dos ganhos -; e a família de Sabotage, a mulher Dalva e os filhos Wanderson, Tamires e Larissa, que partilham da outra metade.

“Amigo é o irmão que a gente escolhe. Ele era o meu irmão […] Faço tranças há 25 anos, e todos na época usavam… O Helião, o Brown, e ele quis seguir a onda. E deu certo né. Foi o universo. Ele era muito vaidoso, sempre queria estar com a roupa impecável, um baseado bem apertado”

– Dorothy, amiga de Sabotage e integrante do Lady Rap

SABOTA NOS CINEMAS

A última fase da produção do filme, após a compilação da maior parte das entrevistas e da concessão dos patrocínios, designou uma mudança significativa em termos narrativos. Afinal, Sabotage não se resumia ao rap. Sabotage era samba, era bamba, era música brasileira. Era também cinema. Mais do que a expressão, fazia a própria experiência ser artística.

“Eu cheguei a editar o filme com a grana do Catarse e assisti. Era um filme de rap. Só tinha gente do rap falando: Sandrão, Brown, todos. E aí eu pensei: ‘porra, não posso me limitar a fazer um filme de rap sobre o cara’. Foi aí que eu resolvi abordar a parte do cinema. Aí eu vi que a história estava incompleta”, explicou Ivan, contando que a troca de ideia com cineastas e atores aconteceu no trecho final da montagem do filme.

As falas dos cineastas Beto Brant, de “O Invasor”, e Hector Babenco, de “Carandiru”, e do preparador de elenco Sérgio Penna só evidenciam a importância que Sabotage exerceu em termos de roteiro. O documentário mostra gravações de making-off de Carandiru em que o rapper aconselha Caio Blat durante algumas ações em cena.

Segundo o diretor, a tarefa de reunir referências do rap e do cinema nacional em um mesmo documentário só não foi mais complicada por se tratar de Sabotage: “O Sabota tinha um carisma incrível. Quando falei que tinha colocado o Babenco na minha lista, todo mundo falou que ele era marrento, que não ia me atender. E foi o primeiro a responder. Todo mundo que fala do Sabota, fala de boca cheia”, comenta.

As quase duas horas de documentário não demoram a passar. A trilha sonora de primeira qualidade, com sons como Um bom lugar, O Invasor, Cabeça de Nego e Rap é Compromisso; os registros em vídeo, com imagens de Sabotage no palco e de rolê na quebrada; as entrevistas emocionadas como de Rappin Hood e Wanderson, e cômicas como as de Mano Brown e João Gordo, acabam por moldar um universo capaz de refletir parte de seu cotidiano de artista.

Assassinado em 24 de janeiro de 2003, Mauro Mateus dos Santos morreu com quatro tiros na cabeça, deixando mulher e três filhos. Mas Sabotage vive! E tem mais som vindo por aí…

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