17 de maio de 2016

Vaidamina


Porque as mulheres querem ocupar um espaço na mídia independente? Ocupamos. #Vaidamina


Por #Vaidamina

Nunca me considerei mulher. Sempre achei muito estranho olhar pra dentro de mim e procurar aquilo que chamavam de “mulher”. Também nunca me considerei homem, apesar de já ter me chamado menino e performado como tal durante alguns anos da minha infância (antes dos peitinhos me denunciarem, rs).

Ao longo do tempo, fui percebendo algumas coisas em relação a isso tudo. 1) Como pessoa negra, minhas referências em relação ao universo feminino sempre foram completamente distantes daquilo que eu via no espelho, na propaganda de absorvente e no rebolado na tela da globo. 2) Gênero é uma grande zueira. Uma vez que você entende que tudo isso não passa de uma grande peça de teatro. 3) Gosto de ser desse jeito, comecei a gostar mais ainda quando percebi que me identificar como mulher não significa falar, sentar e gesticular de uma forma específica. Eu posso ser a porra da mulher que eu quiser. E a porra do homem que eu quiser também. E você também pode. 4) Posso criar, e diariamente crio minha própria performance, porque jamais vou me sentir confortável sendo uma “mina” e nem um “cara”.

Jamais vou conseguir me fechar em nenhum desses conceitos porque eles carregam uma bagagem tão grande de ideologia e construção histórica/social/cultural que deusmelivreeguarde. 5) A minha falta de identificação com o binarismo dos gêneros é mais do que só uma explicação do porque eu me sentia meio estranho na adolescência: é uma posição política. E a cor da minha pele não é um fardo, é um chamado ao front.

E é por isso que eu faço comunicação, é por isso que eu tou aqui. Mesmo não me considerando “mulher”, sinto que tenho lugar numa iniciativa dessas porque o resto do mundo tá pouco se fudendo pra o que eu digo que eu sou. O resto do mundo não tá nem ai se eu tenho graduação em sei lá o que, projetos em isso e aquilo, emprego em área x ou y. Porque quando você é preto, tanto faz. Não temos o benefício da individualidade: pro resto do mundo, foda-se. Eu sou só mais um neguinho. Uma neguinha. E é melhor me seguir no mercado mesmo, porque eu vim pra causar, pra questionar, pra confundir e pra muito mais do que isso – eu vim pra calar a boca e escutar. Pra ouvir os outros, as outras, e ajudar as suas vozes a penetrarem nos ouvidos que não querem ouvir.

Quero ver a poeira subir, e muita fumaça no ar.

CUIDADO: PERIGO. Medo. Medo das ruas. Medo de um beco escuro. Medo. Medo de ir a um banheiro afastado sozinha. Medo de vestir uma roupa. Medo. Medo de falar, às vezes. Medo de calar; de chorar; de gritar. Medo. Medo de apanhar. Medo. Medo de arrotar. Medo de espirrar muito alto. Medo. Medo de engordar. Medo de viajar sozinha. Medo de rir demais. Medo de ser muito simpática com um cara. Medo. Medo de um amigo, de um irmão, de um namorado. Medo. Medo da menstruação não descer.Medo de dois desconhecidos conversando em uma esquina deserta. Medo de opinar. Medo no trabalho. Medo na faculdade. Medo dentro de casa. Medo.

Chega de medo! É tempo de falar. Compartilhar esse medo que sentimos; dizer que ele existe, mostrar de que formas ele existe. Nos vemos cercadas de perigos diariamente e, no entanto, avançamos. Sobrevivemos a cada de dia. A cada medo.

Temos força.

fridaComo é viver neste mundo desenhado para homens? Cria-se um espaço para que possamos, mulheres, refletir. Se perguntar. Se entender. Falar. Gritar. Contar histórias. Ser. Sermos o que quisermos, quando quisermos, aonde quisermos, com quem quisermos.Entender esse medo, essa angústia, esse mundo, para que possamos começar a combatê-lo; para tentar exterminar este medo e, pouco a pouco, tudo o que leva a ele.

Ser mulher é ser forte. Aqui, não vai ter medo, vai ter mina!

O mundo do trabalho foi feito pelo homem, para o homem, e seus produtos têm como destinatário final também o homem, mesmo quando o público alvo de determinado produto seja a mulher: se produz lingerie para um imaginário de mulher perfeita – perfeita para o homem.

Este espaço aqui é novo, incipiente, está se fazendo sozinho, não está estruturado e não tem formas nem limites definidos, eternos. Nasceu de um forte desejo de ser algo muito distinto do que temos, do que está dado e do que nunca será diferente. Aqui ainda pode dar pé. Vaidamina.

Com o tempo, a gente vai entendendo um pouco melhor o medo que está sentindo na rua, nas festas, no trabalho, e de repente a gente percebe que o machismo está em todas as partes da nossa vida. Resolvi fazer jornalismo porque tive o privilégio de escolher uma faculdade e acreditava que essa prática poderia ser utilizada como uma ferramenta de denúncia social. Por isso entrei em um coletivo de mídia independente. Ao longo dessa caminhada, tive contato com mulheres que se encontravam em situações de extrema vulnerabilidade. Mulheres presas, mulheres trabalhadoras que sustentam filhos, mulheres que militam pelo feminismo em outros países, mulheres que recebem ameaças de morte. Isso me fez perceber que o feminismo se faz imediatamente necessário para as mulheres que não tem o mesmo privilégio social que o meu.

Mesmo nos espaços de projetos alternativos, as estruturas sociais se mantém intactas. A mídia independente como um todo não foge disso. Ainda há muito protagonismo de homens brancos em veículos independentes. Mas também há um jornalismo que busca a sua auto representação: blogs de mulheres negras, portais das periferias, LGBT e assim vai. Aqui estamos.

Desde crianças, a mídia tradicional é muito responsável pela nossa identificação enquanto mulheres. Cada teste de personalidade respondido, a sessão de beleza, as dicas de relacionamento e de comportamento – cada edição delimitava sutilmente “o que era pra ser” a nossa subjetividade, estética e lugar na sociedade.

Crescemos vivendo inúmeras situações de opressão – as cantadas que recebemos na rua desde muito novas, até os relacionamentos abusivos que vivemos, percebemos o quão desenformadas estamos. E, se dependesse das instituições e veículos tradicionais, jamais romperíamos com a nossa condição de sujeitas oprimidas na sociedade, porque elas não veiculam qualquer tipo de informação sobre as nossas saúdes, não repercutem relatos da condição feminina de exploração e assedio no mercado de trabalho, ou em nossos próprios lares. Não se comenta sobre a historia da luta das mulheres e nossas conquistas, figuras históricas e políticas, e, em função disso, não sabemos lidar com nossos corpos, aceitar nossa sexualidade, trabalhar nossas dores. Não aprendemos a nos cuidar ou respeitar.

Ainda não há muitos espaços seguros em que podemos nos apoiar. Ou, pelo menos, não são todas as mulheres que tem acesso a esse tipo de informação e consegue frequentar esses espaços de resistência e empoderamento. Nesse sentido, entendemos a necessidade de lutar para resistir a essas imposições sociais e sermos mais autônomas em relação a nossa auto identificação e organização. As tradições já não nos contemplam, porque entendemos que o capitalismo se estruturou por e para homens brancos, cisgêneros, heterossexuais. Viemos aqui, ocupar este espaço na mídia independente, para trabalhar com a perspectiva de romper com esse o monopólio que nos atinge diretamente. Se crescemos com tantas duvidas, hoje temos mais força para nos defender e afirmar que, queiram ou não, vaidamina.

Já há muito tempo, as mulheres possuem suas vozes silenciadas. Falamos e gritamos, disso nós sabemos. Sempre fizemos isso. Mas somos historicamente e sistematicamente excluídas dos espaços de fala, da política, da academia e dos meios de comunicação. Por exemplo, a situação do legislativo brasileiro: somos mais da metade da população, no entanto, há apenas 9% de representação feminina na Câmera e 13% no Senado. É vergonhoso. E esse é um problema da sociedade como um todo, pois ela é estruturalmente machista. Ela é também estruturalmente racista, classista, transfóbica e intolerante a outras formas de afetividade que não a heterossexual.

Há muita resistência que foi e vem sendo feita, ainda bem, mas ainda é preciso muito. Alterar o poder é foda.

Para mim, se tornar agente ativo, conquistar voz, é imprescindível para resistir. É uma via de mão dupla: na medida em que conquistamos voz, se abrem espaços para alterar o poder; e quando o poder se altera a nosso favor, conquistamos voz. Por isso, bora falar! A partir de agora, vamos tá é falando aqui na Vaidapé. Vaidamina.

mulher2Sabemos que o patriarcado é um sistema muito bem arquitetado e que, apesar da resistência que cresce a cada dia, ainda é base estrutural da sociedade. O sistema enfraquece a mulher que, pela própria natureza é um ser forte. Talvez seja justamente pelo medo da força feminina que as coisas se dão da maneira que são (assim como o medo da força da classe operária e dos grupos historicamente oprimidos) qualquer coisa que ameace o privilégio dos privilegiados deve ser banida ou vulnerabilizada.

Além de todas as questões do corpo vida e direitos que são muito bem abordadas por mulheres do todo o mundo, tem a alma criativa da mulher. Segundo Clarissa Pinkola (mulheres que correm com os lobos) a alma criativa faz parte do interior mais profundo, é a intuição feminina, o extinto da mulher selvagem.

Muito valiosa, mas igualmente desvalorizada, essa intuição nata que produz coisas lindas e nos leva rumo a liberdade, é ridicularizada e renegada desde cedo na vida das mulheres, que sem incentivo para desenvolver seu lado lúdico e criativo, que as levarias para trilhar os próprios caminhos, ficam inseguras e imóveis e passam a calar-se e moldar-se para serem aceitas.

Vamos valorizar o trabalho das mulheres, vamos ocupar as mídias, não precisamos de moldes e amarras. Deixem-nos ser e florescer. Vaidamina.

No brasil a mídia é, se não o maior, um do maiores poderes e é protagonizada pelos setores privilegiados da sociedade. O papel da mídia independente é, portanto, ir na contramão, retratando aquilo que fica de fora da grande imprensa e inserindo a voz das minorias nesse processo. Ironicamente, a maior parte delas é composta majoritariamente por homens brancos cis e héteros, contrariando exatamente o que propõe. Está ai então a importância de mulheres ocuparem esse espaço em que vocês, homens, sempre estiveram.

Apesar de não acreditar que exista um só motivo, sinto, como mulher, que é meu dever levar o feminismo o mais longe possível e, principalmente, propagar nossa voz. Somos silenciadas em todos os âmbitos e lugares, seja dentro de casa, na rua, no trabalho, na escola e, inclusive, dentre nossos amigos. E, pior, muitas vezes nem nós mesmas percebemos. O que dificulta ainda mais essa desconstrução. A mídia independente é, por mim, considerada um veículo de comunicação que abre o diálogo a respeito e, sobretudo, junto às minorias. O espaço da mulher nesse meio é claramente necessário, afinal, ainda fazemos parte dessa minoria. Estamos aqui para cessar a prevalência masculina. Vaidamina, sim!

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