07 de junho de 2016

Crianças em situação de rua quebram silêncio sobre mortes no centro de SP


Natasha, Naná, Marquinhos, Bóio, Raio de Luar, eram alguns dos nomes pelos quais crianças, numa tarde chuvosa no Vale do Anhangabaú, vivenciaram o luto e, talvez pela primeira vez, a luta. Uma luta contra o silêncio e a invisibilidade


Por Paulo Motoryn
Foto: Danilo Mekari / Portal Aprendiz

Em menos de um ano, os trabalhadores da rede dos serviços que atendem crianças e adolescentes em situação de rua no centro de São Paulo se depararam com pelo menos sete mortes de crianças, adolescentes e jovens. Organizados em um coletivo, eles organizaram, na última sexta-feira (3), um cortejo simbólico para denunciar a violência do Estado.

No front da manifestação, cantando as palavras de ordem, segurando as faixas e tocando o ato, eram justamente elas: as crianças, adolescentes e jovens em situação de rua que perderam amigos e amigas. Natasha, Naná, Marquinhos, Bóio, Raio de Luar, eram alguns dos nomes pelos quais as pessoas, numa tarde chuvosa no Vale do Anhangabaú vivenciaram o luto. E a luta.

“Achei incrível estar aqui. É importante homenagear nossos colegas que vão ficando, a ideia é que isso ajude todo mundo e não apenas uma pessoa que se foi. Acho errado demais essa violência, muita gente não respeita nossos direitos”, declarou Emerson, de 17 anos.

“Choremos por essas mortes, lutemos por essas vidas”. Era o lema do ato que virou música na voz de pessoas que passam à margem das manifestações de rua que tomam o país com intensidade desde junho de 2013. Ali, lutando por vidas, viviam talvez pela primeira vez uma experiência de ativismo político, ainda que seus próprios corpos seja expressão máxima de resistência social.

De acordo com os voluntários e funcionários dos programas de atendimento às crianças e jovens, as sete mortes em 2016 envolveram situações de violência física e ou abuso de drogas, em especial solventes, como “lança-perfume” e “thinner”. “Entendemos, assim, que a situação de vulnerabilidade em que os jovens se encontravam foi determinante para o desencadeamento da morte”, afirmam.

O trajeto do cortejo da última sexta-feira rasgou o centro de São Paulo com vidas que escancaram as contradições, a invisibilidade, a indiferença. A luta não vai parar: uma Audiência Pública sobre os casos vai ser realizada no dia 21 de junho, às 17h, no auditório da Defensoria Pública do Estado de SP, onde, novamente com os jovens no front, e será oportunidade para denunciar a invisibilidade.

A Rede Pelo Não Silenciamento de Vidas e Mortes, que organizou o ato e pressiona pela realização da audiência pública, é composta por mais de 20 organizações, como o Cedeca, a Fundação Projeto Travessia e o Projeto Quixote.

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