15 de junho de 2016

Relatos de secundaristas sobre gênero e empoderamento


A Vaidamina bateu um papo com estudantes secundaristas, que ocuparam suas escolas, sobre gênero e empoderamento das mulheres


Por Patricia Iglecio e Clara Lisboa
Fotos: Paula Sonnewend Serra

Estudantes secundaristas, que ocuparam suas escolas no final do ano passado, contam sobre o empoderamento feminino no movimento e relatam as opressões que acontecem dentro de suas escolas.

Lilith Cristina, 15 anos, Escola Estadual Maria José

lillith-4“O movimento dos secundaristas em si, quando ele tomou uma proporção muito maior do que só com a escola, fez a gente perceber que era possível criar um novo tipo de relação social, um novo tipo de sociedade.

Acabava que dentro das ocupações nas escolas, as pessoas que eram mais oprimidas tinham mais voz e tomavam frente. Criaram consciência de que eles sofriam uma opressão forte e não se calavam como de costume, todos os dias.

Isso aconteceu também com as meninas, porque mina que sofre machismo todos os dias na escola, já por ser estudante de escola pública, mulher, negra e LGBT, acabou que todas essas opressões se voltavam como empoderamento para nós. Sempre foi uma coisa espontânea, as meninas chegavam na frente das ocupações e nos atos dos estudantes.

Dentro do movimento das ocupações das escolas, as pessoas que são mais oprimidas tiveram mais voz e tomavam frente

As pessoas de fora tem uma percepção de muita organização do movimento secundarista, tanto que agora está rolando muitas ocupações no Brasil todo e a gente é exemplo de organização interna, a gente inspira. Isso é bem louco porque ninguém nunca ligou para os secundaristas.

Todo o tipo de opressão durante a ocupação se transformou em empoderamento, é muito lindo todo esse processo de transformação. Os meninos da minha escola e de outras escolas que continuam na luta, estão sempre tentando se desconstruir. Aí se o cara foi machista, ele pede desculpa, pergunta como ele pode melhorar.

No final do ano passado eu estava bem engajada na militância feminista, só que era mais a questão teórica, e na ocupação eu consegui exercitar a prática, através da convivência com o machismo, com a opressão. Você tenta, e nem sempre você vai conseguir combater, mas você tenta usar uma medida preventiva contra e tentar desconstruir, passar pela desconstrução de fato.

Foi uma coisa atrás da outra, um mecanismo muito louco. Em outubro de 2015, aconteceram várias manifestações das mulheres e depois das ocupações nós conseguimos colocar tudo isso em prática. Hoje eu me vejo totalmente diferente em questão de desconstrução.

Eu queria muito que tivesse teoria de gênero nas escolas, e de preferência para educação infantil, para as crianças. Porque daí você vai exercitando a cidadania desde cedo. Só que isso é muito difícil em todas as escolas públicas porque o teor machista ele é muito maior. Não diria apenas em relação a escolas particulares, mas diria em relação a sociedade como um todo. O ensino público tem se tornado um espaço bem péssimo.

O machismo é muito maior na escola, parece que por você ser feminista, você está cometendo um crime. De todos os lados, é totalmente ameaçador para o corpo docente o nosso movimento, porque eles não conseguem ter o controle e o que eles mais querem é ter o controle total de todos os alunos. Isso gera muito conflito porque a gente vira ameaça para eles e eles revidam com mais autoritarismo.”

Júlia Ferraz, 15 anos, Escola Estadual Fernão Dias Paes

chacaradojockeyALTA-6“Eu participei da ocupação do Fernão Dias ano passado, e não tinha muita ideia sobre a questão de gênero, de política, sobre nada. Em questão do machismo na ocupação a gente teve a sorte de não ter tanto isso. Mas teve o caso de uma menina do movimento que sofreu uma tentativa de estupro, foi durante uma noite que tinha faltado luz na escola.

Era um menino muito X, a gente nem conhecia, ele não tinha intimidade com a ocupação. Mas o movimento recebe todo mundo do mesmo jeito, porque a ajuda é sempre bem vinda. E minha amiga, que foi a vítima, comentou o que aconteceu comigo. Disse: ‘Eu estou com medo, ele falou que já sabe quem vai ser a próxima’.

Daí nós fizemos uma assembleia para falar sobre isso porque ficamos muito chocados, a maior que já fizemos. Colocamos velas pelo pátio do Fernão, a cara da pessoas foi a mais. Aí os meninos foram bater nele e o moleque acabou indo parar no hospital. Depois disso não teve mais nenhum caso de abuso e violência dentro do movimento. Todo mundo foi muito compreensivo em questão de gênero. A gente tomava sol de calcinha e sutiã durante a ocupação mesmo, no pátio, ninguém falava nada. Mas com a escola em si, pelo pessoal que não participa do movimento, nós somos bem oprimidas.

No começo da ocupação eram mais os meninos que tomavam frente, tanto que os milicos, que ficavam na segurança, eram só homens e as meninas ficavam na limpeza. Depois que batemos um papo com o pessoal, ficou misto.

Antes de participar do movimento eu era massinha de manobra, garota padrão. Para mim, agora, entendo muito melhor as questões de gênero e acho que eu consegui mudar muita gente só de chegar e conversar.

Para transformar a questão do gênero na escola, os alunos tem que ter voz, porque o que é uma escola sem aluno? Então porque os alunos não tem voz?”

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Marcela Jesus, 16 anos, Escola Estadual João Kopke 

“É difícil ver mulheres á frente de movimentos que não seja o feminista. Nesse sentido o movimento dos secundarista foi maravilhoso, até um susto para os machistas verem mulheres na frente de tudo, batendo de frente com os policiais. Mulheres na segurança da ocupação.

Foi uma experiência maravilhosa e natural. A gente sempre coloca que devemos quebrar aquilo que a sociedade impõe: mulheres estarem na cozinha e homens na segurança.

chacaradojockeyALTA-7E não foi só uma frente de mulheres, foi uma frente LGBT também. A maioria das meninas na frente do movimento é bissexual. O Guilherme também, um menino muito empoderado, gosto muito dele, em todos os atos ele vai de saia e fica na frente do cordão com as minas, puxando músicas maravilhosas.

Foi uma experiência maravilhosa e natural. A gente sempre coloca que devemos quebrar aquilo que a sociedade impõe: mulheres estarem na cozinha e homens na segurança.

Fizemos questão de dar  mais voz para aquilo que a sociedade cala, as mulheres sempre foram caladas. A população LGBT também e a gente dá mais voz, pros negros também.

Eu tento fazer a desconstrução no dia a dia, mas na minha escola acho que eu desisti, por que as pessoas olham pra mim e falam ‘nossa tudo pra você é machismo’, ‘ah, lá vem a feminista’. É difícil desconstruir essas pessoas, elas são ignorantes, entra por um ouvido e sai pelo outro, não prestam atenção em nada do que você fala.

Os meninos do movimento ouvem mais porque colocamos isso, desde o começo. A ocupação sempre foi muito aberta para tratar desses assuntos. Se eles têm alguma atitude machista, a gente chega neles o mais rápido possível pra falar: ‘Cara, isso que você fez foi machista’.

Em questão de machismo e feminismo, é algo que tem que ser ensinado desde o fundamental, porque as nossas crianças estão acostumadas a ver filmes e desenhos animados com o príncipe beijando a princesa dormindo, como algo romântico. Não e algo romântico, é abusivo e forçado.

Seria muito bom falar sobre esses temas desde o ensino fundamental. A escola evita dar voz aos estudantes e é autoritária. Teve um dia que eu fiz vários cartazes sobre a direção, não deu nem meia hora, tiraram todos e jogaram fora. Eu fiz um cartaz escrito ‘O Estado é laico’ e coloquei do lado do crucifixo que tem na escola e arracaram, tiraram também vários outros que tinham frases feministas.”

Raphaela Lima, 15 anos, Escola Estadual Fidelino de Figueiredo

chacaradojockeyALTA-5“O que me marcou mais nas ocupações foi o empoderamento das garotas, vi que elas também tinham voz, não só os garotos. Daí eu fui aprendendo pouco a pouco, fui pesquisar mais sobre feminismo, sobre gênero.

Teve uma parte de repressão dos meninos, tinham muitos garotos que eram muito machistas e sexistas. Quando nós íamos falar, eles diziam que não podíamos ficar na segurança porque éramos mais fracas. Um dia recebemos uma ameaça de molotov de alunos que eram contra o movimento dos secundaristas,  daí os caras falaram ‘as garotas vão para trás’. E eu respondi que eu tinha a mesma idade e força igual. Não e só porque ele é homem que ele é mais forte do que eu. Na verdade tem várias garotas que lutam boxe e são mil vezes melhor que vários homens por aí.

Eu só me assumiu bissexual na ocupação, porque fui tendo menos vergonha e apoio dos alunos LGBT. O movimento dos secundaristas tem questionado muito a heteronormatividade, rolaram vários debates sobre isso. Os alunos tem que ter voz, as mulheres principalmente, porque quando eu vou para a escola de meia calça eles reclamam, falam que está muito curto e que eu estou  me mostrando demais para os garotos.

A diretoria vai contra o empoderamento, e quem não aceita isso é perseguido. Eles perseguem através de notas, procuram os pais, punem. Querem que a gente desista do movimento colocando a escola contra nós.

Tem vários professores na nossa escola que tocam nas garotas, e a diretoria encobre. Quando a gente questiona uma coisa que está errada, eles mandam calar a boca, ficar na nossa, tipo ‘tchau’. Levam a gente para a diretoria e nós somos punidos por causa disso. A diretoria vai contra o empoderamento, e quem não aceita isso é perseguido. Eles perseguem através de notas, procuram os pais, punem. Querem que a gente desista do movimento colocando a escola contra nós.”

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