15 de julho de 2016

Bumba-meu-boi: ancestralidade e mídia livre na cultura popular do Maranhão


A cultura popular do Maranhão provoca uma reflexão sobre ancestralidade e comunicação: como essas manifestações são deslocadas de seus significados originários para atrair turistas e atender a interesses dominantes.


Por: Marina Milhomem
Fotos: Miguel Salvatore (3especie)

Humberto de Macaranã, saudoso cantador do bumba-meu-boi do Maranhão, compôs em uma de suas toadas: “Esta herança foi deixada por nossos avós, hoje cultivada por nós pra compôr tua história, Maranhão”. O trecho traduz muito bem a ancestralidade que permeia essa manifestação que contempla discussões que vão muito além do campo artístico e folclórico.

O enredo do bumba-meu-boi gira em torno de Catirina e pai Francisco, negros escravizados de uma fazenda. Catirina, grávida, sente o desejo de comer a língua do boi mais bonito do patrão. Pai Francisco atende o desejo. O senhor fica enfurecido com os negros que mataram seu boi. O jeito é ressuscitá-lo com a ajuda dos pajés e curandeiros que invocam os espíritos da floresta. O bumba-meu-boi é afro-indígena. É o sincretismo da religião cristã, da cultura negra e indígena. Essa composição faz parte de sua identidade.

Mas para a surpresa (ou falta dela) de quem chegava ao aeroporto de São Luís durante o mês de junho deste ano, época em que a festa do boi é comemorada, uma Catirina e um pai Francisco brancos, vestidos com perucas afro, encenavam para receber os turistas. O valor turístico tirou a cor de Catirina e pai Francisco. Descaracterizou uma manifestação em que o povo escravizado podia derrotar seus opressores. E para assentar a ideia, repita: cultura popular não é atração turística.

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A cultura popular não existe somente para ser vista. Existe porque é a linguagem de um povo, seu pensar e seu sentir. Um patrimônio mental e sentimental. A sua história sendo contada e sua ancestralidade sendo mantida. Para entender a sociedade brasileira, é fundamental compreender essas manifestações. Em um país tão miscigenado, profano e religioso, não há teórico erudito que possa nos esclarecer por inteiro.

O primeiro impasse ao falar de cultura popular incorre no próprio termo. Na palavra. Ela é repleta de definições e ambiguidades. Se pensarmos em popular como algo do povo, então, primeiramente, devemos pensar sobre o que é o povo.

Nas palavras do pesquisador de manifestações políticas e culturais Tato Sanches, “não há consenso cultural/étnico/social e, sobretudo, político, sobre povo para tal classificação”. Em dicionários de língua portuguesa, a palavra povo tem diferentes acepções. Aparece primeiro como indivíduos de uma nação, um território. Apenas depois de algumas definições é que povo aparece por oposição, como o “conjunto dos cidadãos de um país, excluindo-se os dirigentes e a elite econômica”. O conceito é do Dicionário Eletrônico Houaiss de Língua Portuguesa.

No Brasil, a ideia a respeito de cultura popular esteve sempre acompanhada da ideia de identidade nacional. Essa noção, no entanto, encara mudanças de perspectiva ao longo do tempo e de acordo com diversos fatores, boi_sl_2016-7sendo um deles a institucionalização das políticas culturais do país. O poder de fala na disputa de narrativas sempre foi do Estado. Portanto, o interesse pelo popular está sempre navegando nas águas da construção ideológica e das relações de poder, o que deságua na complexidade em utilizar o termo cultura popular.

Em processo paralelo, a mídia no Brasil sempre foi detentora do poder de deliberar quais os conhecimentos culturais que serão amplificados para o público de massas. Majoritariamente, as manifestações culturais populares conseguem espaço na mídia a partir de uma lógica empresarial. As produções da cultura popular transformam-se em produtos, em atração turística. Há o esquecimento de sua real significação. A perspectiva é a de colonizador. A cultura é tratada como um espetáculo. O caráter lúdico e artístico é o que geralmente capta a atenção do turista, e não a ancestralidade e simbologia da manifestação que está sendo vista.

A cultura popular é um campo de grande importância para a luta social. Se pensarmos que mídia é todo suporte de difusão de informação, a cultura popular é mídia livre. Possui seus agentes comunicadores. Os seus catimbós também são veículos jornalísticos. O comunicólogo Luiz Beltrão já chamava a atenção para essa forma de enxergar a cultura quando publicou o livro Comunicação e Folclore em 1971.

Os líderes de opinião não estão apenas nas classes mais cultas e de maior poder aquisitivo. Eles estão presentes em todas as classes, inclusive na periferia e na zona rural. A expressão popular do bumba-meu-boi, como um todo, é o veículo de comunicação de muitos moradores da zona rural de São Luís e de outras regiões do estado.boi_sl_2016-13 Os cantadores do bumba-meu-boi são os jornalistas populares de suas comunidades. Fazem de suas toadas uma forma de protesto. Assim como os pajés são agentes de comunicação de suas tribos.

Banalizar a cultura popular e torná-la um conto de fadas é banalizar o pensamento de uma parcela da população que está na base social e da história do país. É desmerecer a manifestação de suas opiniões.

A força criadora e de resistência do povo é que mantém o bumba-meu-boi, não o turismo. O tempo não vence o ânimo. O ânimo alarga o tempo. É possível ver os bois nos arraiais do centro de São Luís, mas há décadas eles resistem em suas próprias comunidades. Hoje eles podem ser vistos em palcos, mas por muito tempo foram perseguidos e marginalizados. A elite não queria a algazarra dos negros nas ruas de suas casas. No entanto, como a memória da sociedade é curta, pouca gente se espanta com uma Catirina branca de peruca afro.

Para além dos arraiais apáticos da área central da cidade, a manifestação mais crua e autêntica do bumba-meu-boi, aquela que é mais próxima do que é real, estará nas zonas periféricas. É lá que o povo é artista, ator, agente. É lá que se entendem no mesmo patuá. Levam nos jeitos do corpo as suas mensagens. A cultura popular é elemento de aproximação, é onde o povo se faz ouvir. Quando o espectador quebra as janelas simbólicas através das quais assiste, ele também se torna agente. A conexão é real. O entendimento também.

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