03 de agosto de 2016

Jogos da Exclusão: movimentos denunciam farsa das Olimpíadas no Rio


 A Vaidapé colou num ato que faz parte dos Jogos da Exclusão, programação que prevê uma série de ações no Rio de Janeiro chamando atenção para a remoção de famílias de suas casas


Por Henrique Santana
Fotos: Mídia NINJA

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Remoções no RJ – Secretaria Municipal de Habitação (2016)

Às vésperas da abertura dos Jogos Olímpicos, na última segunda-feira (2), um ato organizado pela sociedade civil em uma articulação que uniu movimentos sociais, coletivos e entidades não governamentais e religiosas, denunciou as remoções e violações aos direitos humanos que vieram a reboque das Olimpíadas.  O ato terá atividades durante toda a semana, até a próxima sexta-feira (5), dia que se iniciam os jogos.

A manifestação, que recebeu o nome de Vigília pela Dignidade, aconteceu na Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro, e também pautou questões como os abusos policiais nas periferias, intolerância religiosa e a violência contra mulheres, povos indígenas e comunidades tradicionais. O ato também pediu a saída do presidente interino Michel Temer (PMDB), que já completa quase três meses na presidência do país.

Militante da Articulação de Mulheres Brasileiras, um dos movimentos que compunham o ato, a carioca Daniele Brás avalia que os megaeventos no Rio de Janeiro vêm impactando negativamente a cidade há alguns anos. “Esses eventos esportivos, da Copa das Confederações, passando pela Copa do Mundo e, agora, com as Olimpíadas, fizeram com que grandes recursos federais e do estado viessem pra cá. No entanto, mesmo com esses bilhões de reais gastos, o SUS (Sistema Único de Saúde) está falido, a educação está falida”, critica, apontando as gestões Pezão – hoje sucedida por Francisco Dornelles – e do prefeito Eduardo Paes, ambas do PMDB, como principais culpadas.

Para Daniele, os megaeventos também atingem outros setores da sociedade, como as comunidades que foram removidas para a execução de obras, à exemplo do caso da Vila Autódromo, que simbolizou o legado de desapropriações deixado pelas Olimpíadas.

A comunidade, localizada nos arredores do Parque Olímpico, sofreu com o maior número absoluto de remoções da história do estado, ultrapassando os principais eventos históricos que marcaram esse tipo de política. Na Vila Autódromo, somente segundo os dados oficiais da Secretaria Municipal de Habitação, entre 2009 e 2013, cerca de 67 mil pessoas foram removidas. A quantia ultrapassa, por exemplo, os número da reforma urbanística da gestão Pereira Passos, um dos principais catalisadores das ocupações dos morros no Rio de Janeiro, ainda no início do século XX.

1-uwfDP6-AB3pVC__qJxyi1AO maior número de remoções em comunidades da história do Rio aconteceu na Vila Autódromo – Foto: Mídia NINJA

Daniele aponta que, para além das remoções, esse tipo de política impacta “diretamente as mulheres”. Ela cita como exemplo o caso das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) que, segundo ela, vieram no pacote dos megaeventos promovidos no Rio. “Com os grandes eventos esportivos vieram as UPPs e nas comunidades com UPPs morrem diversos jovens por dia em um processo de genocídio da juventude negra. São as mães desses jovens que estão sofrendo com essa violência”, lamenta.

Rafael Soares de Oliveira, diretor executivo do Koinonia, entidade ecumênica composta por pessoas de diferentes tradições religiosas, acrescenta que o verdadeiro sentido do espírito olímpico deixou de residir no evento em si e encontra-se, hoje, na sociedade civil. “Para nós, as Olimpíadas como acontecem hoje são uma confraternização de governos e empresas. São negócios, um jogo de marketing em que muitas pessoas são excluídas”, considera.

“Agora nós estamos reafirmando os direitos humanos, o direito de todas e de todos em uma cidade que é muito desigual e com muita diversidade. Fazendo os jogos Olímpicos aqui, conforme eles foram desenhados e conforme foram feitos os investimentos, o legado que fica é o legado da exclusão”, completa.

Presença Indígena

A manifestação dessa segunda-feira também contou com a presença de lideranças indígenas e comunidades tradicionais. Davi Martim, ou Karaí Popyguá, Guarani da Terra Indígena do Jaraguá, no extremo norte de São Paulo, compareceu ao ato representando a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). Ele defende a importância da se apropriar da visibilidade internacional em eventos como as Olimpíadas para denunciar as violações cometidas pelo Estado brasileiro contra os povos originários.

“Independente do governo, o Brasil não reconhece o direito indígena. É um Estado conservador que sempre tende a não respeitar e violar os direitos dos povos. Por isso que nessa semana, aqui no Rio, virão lideranças de varias regiões do país, denunciando essa situação para organizações e entidades defensoras dos direitos humanos.”

Guarani estende faixa pedindo demarcação das Terras Indígenas na abertura da Copa do Mundo de 2014 - Foto: Reprodução
Guarani estende faixa pedindo demarcação das Terras Indígenas na abertura da Copa do Mundo de 2014 – Foto: Reprodução

Davi relembra o exemplo da abertura da Copa do Mundo de 2014, quando o jovem Guarani Jeguaká Mirim ergueu uma faixa pedindo a demarcação das terras indígenas. “Depois disso, vários países foram na aldeia perguntar o porquê do ‘Demarcação já!’. Então é uma forma da gente se apropriar desses eventos e denunciar a violência contra os povos indígenas.”

“De um lado o governo fala que os povos indígenas tão sendo bem cuidados, que está tudo bem, que é festa, que o povo brasileiro está pronto para receber os Jogos Olímpicos. Mas aí, quando você olha para a sociedade, você vê a exclusão da periferia, a morte das lideranças indígenas, o massacre em curso e o não reconhecimento do direito ao território quilombola.”

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