11 de agosto de 2016

‘Pode colocar meu nome, já posso falar sobre o meu aborto’


Embora não seja legalizado, cerca de um milhão de abortos são realizados por ano no Brasil. Confira o relato de duas mulheres que passaram pelo procedimento


Por Patricia Iglecio
Fotos: Milena Pedallino
Ilustração: Rafaela Nakad


Relato de Maíra Guedes

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Maíra Guedes em performance artística

Sou de Itabuna, interior da Bahia. Tenho 29 anos. Vim para Salvador em 2005 para cursar faculdade de artes cênicas, nesse período morava na residência universitária da UFBA. Engravidei aos 20 e estava terminando a graduação.

Tomei a decisão de que não queria ser mãe, não só porque eu não tinha dinheiro. Mesmo que tivesse, eu não queria ter filhos. Quando abortei eu era jovem, mas decidida, com clareza do que queria e quero para os meus próximos anos. Tive um companheiro que foi uma exceção na regra do comportamento dos homens. Ele não tem nada de especial por isso, fez o correto e esteve comigo durante o processo.

Compramos o Cytotec, um remédio que custava cerca de R$ 500. Ele trabalhava no telemarketing e eu era estudante de teatro, residente do interior na capital. Nem aventuramos a possibilidade de uma clínica. Depois eu fui descobrir que elas existiam. Clínicas caras, que cobram até R$ 4 mil. Enfim, mergulhei nos sites feministas para saber como usar o remédio. Meu sentimento com a gravidez não foi em momento nenhum o de alguém que carregava um bebê, não humanizei.

1 milhão de abortos

são realizados por ano no Brasil

250 mil

resultam em internações por complicações

Eu não sabia que existe uma dosagem correta que a mulher deve tomar do remédio para abortar, uma conta com o corpo, peso e tempo de gravidez. Quem domina isso são os médicos, o poder deles sobre os nossos corpos é muito grande. Tomei dois comprimidos de Cytotec e coloquei dois no colo do útero. Foi o momento em que me perguntei: ‘Permanecerei viva? Não sei se vou morrer’. Contei apenas com a boa vontade dos meus amigos que estavam com o carro, preparados caso acontecesse alguma coisa.

Fiquei bem, com uma cólica normal, muito mais abalada psicologicamente do que qualquer outra coisa. Porém, 15 dias depois, tive uma hemorragia transvaginal de muitas horas e tive de enfrentar o que eu não queria: o tratamento do Estado com as mulheres que abortam. Peguei ônibus e me desloquei de hospital para hospital para que me atendessem. Fiquei com hemorragia por oito horas e passei 24 horas de agonia.

Nos hospitais públicos, se parece que você abortou, já não importa. A mulher é maltratada e humilhada. Eu sangrava muito e não me davam nem um absorvente noturno. E por minhas pernas descia sangue, descia sangue e mais sangue. Um banho que fosse, não me davam. Afinal, não precisa dar banho em uma mulher que abortou, ela merece estar sangrando, morrendo. Ouvi aquilo que muitas mulheres ouvem: ‘Aqui é lugar de nascer, não é lugar de morrer’. A médica que enfim me atendeu ficou espantada que eu ainda estava viva depois de sangrar tanto. Eu nem precisava mais de curetagem.

“Nos hospitais públicos, se pareceu que você abortou, te maltratam e te humilham. Por minhas pernas descia sangue e não me davam nem um absorvente noturno”

O percurso foi esse. Fiquei muitos meses sem nem sonhar com um ginecologista colocando a mão em mim. Na verdade, olho para a cara deles e penso que esta classe de fato precisa ser popularizada. Quando enfim fui a uma consulta senti muito medo. Não sabia como estava meu corpo e pensava: Será que meu útero está bem? Será que eu ainda posso ter filhos? Se eu tivesse sido mãe, como estaria a criança?

Minha mãe, na época, tentava conseguir um plano de saúde, eu dizia que estava com dor de estômago, e ela nem imaginava que eu havia sofrido uma hemorragia. Logo depois acompanhei um processo de abortamento dentro da família. Foi quando contei para minha mãe e para os meus familiares o que tinha acontecido. Fui me dando conta de quantas mulheres de quantas famílias já abortaram, entendendo que nós somos milhões.

Da onde é que vem essa ideia de controlar o corpo feminino? Porque estão fazendo isso nos hospitais com as jovens grávidas ou em processo de abortamento? Controlar a função reprodutiva das mulheres ainda é mais importante do que salvar as suas vidas.

Na Europa
90% dos abortos são seguros
Na América Latina
95% dos abortos são inseguros

Fiquei alguns meses guardada, sem falar. Mas no mesmo ano em que abortei, comecei a puxar esse debate nos movimentos em que eu militava. Me lembro que na primeira vez em que falei sobre o meu aborto, em uma roda de diversas mulheres trabalhadoras, chorei muito. Uma senhorinha havia dito que ‘não conseguia entender como uma mulher é capaz de abortar, se ter filho é uma benção’. Eu achava que, em um movimento de mulheres, todo mundo deveria ser a favor da legalização do aborto. Então, foi quando relatei a minha experiência.

Depois desse episódio desandei a falar. Todo o espaço que tinha como falar, eu falava. O interessante é que outras mulheres também se abriam. Fui encontrando grupos de pesquisa e a própria Marcha Mundial das Mulheres, que tem anos de organização em torno da militância feminista.

Nas últimas décadas a luta pela descriminalização do aborto ganhou um corpo popular, mas está debaixo do guarda-chuva da luta pelo fim da violência contra as mulheres. Na grande imprensa vemos revistas como a Veja, a IstoÉ e a Época estampando em suas capas jovens brancas como a representação hegemônica do feminismo no Brasil. Mas isso não é real, nunca foi. A burguesia brasileira sempre tenta se apropriar da luta das mulheres.

“Toda mulher em processo de abortamento, inseguro ou espontâneo, terá direito a acolhimento e tratamento com dignidade no Sistema Único de Saúde (SUS)”

— Norma Técnica de Atenção Humanizada ao Abortamento, criada pelo Ministério da Saúde em 2004

A bandeira política da legalização do aborto está diretamente relacionada à defesa da vida da mulher negra e à luta contra o genocídio do povo negro. Quem morre abortando? Essa pergunta é fundamental. Porque no Brasil ainda não foi legalizado o aborto? O corpo negro feminino se não for apropriado é exterminado, isso é parte da formação social e econômica brasileira.

Não temos como avançar no debate da legalização do aborto sem pensar nas estruturas de poder que controlam os corpos femininos. Quem é o Eduardo Cunha se não a expressão máxima da correlação de forças e de uma ausência de projeto político de país? O debate sobre o aborto é um ponto dentro de uma discussão maior de liberdade e defesa da vida das mulheres. Por que isso não é importante para as nossas elites, para a burguesia interna brasileira? Do que eles têm tanto medo? Daí Plinio, O velho, diria que o aborto inferioriza os homens e que é assustador uma mulher que pode controlar o seu próprio corpo.

Pode colocar meu nome, já posso falar do meu aborto.


*Petra 21 anos estudante da PUC

Captura de Tela 2016-07-04 às 22.20.35

Minha experiência com o aborto foi no dia 17 de dezembro de 2014. Em novembro a gente transou sem camisinha e meu namorado ejaculou dentro de mim. Descobri que estava grávida no aniversário do meu pai, dia 5 de dezembro. Fomos jantar para comemorar e eu não consegui terminar o prato, estava meio enjoada. Mas nem pensei que pudesse ser isso. No dia seguinte meu namorado apareceu em casa com um teste de gravidez. O resultado foi positivo, achei que estava errado. Não sabia que não existe falso positivo. Compramos outro teste e deu positivo de novo. Puta, e agora?

Embora a gente tivesse discutido um pouco sobre a possibilidade de ter um filho, eu não queria. Estava no primeiro ano da faculdade e ele no segundo. Começamos a procurar clínicas e fui no ginecologista. O médico disse que eu estava com seis semanas, passou o contato de uma clínica que cobrava R$ 4 mil e me deu também a opção de usar o Cytotec, que é mais barato. Eu e meu namorado tínhamos juntado dinheiro para viajar e decidimos pagar uma clínica, porque ia ser melhor para mim.

Aos 40 anos
1 em cada 5 brasileiras já fez ao menos um aborto
 Ainda assim, em 2014
70% dos brasileiros disseram que são contra a legalização do aborto

Onde era a clínica? Um hospital na zona sul, chique, no último andar, na última portinha, lá no fundo. Quando entrei lá dentro, provavelmente todo o hospital já estava sabendo daquilo, até a polícia. Fui super bem atendida, tive toda a indicação de como aconteceria, explicaram que meu namorado não poderia entrar na sala comigo. Ele esteve ao meu lado durante o processo e foi um bom companheiro. Eu queria que ele entrasse comigo. Por mais que eu soubesse que estava fazendo um aborto seguro ainda batia uma insegurança.

Enfim, eu fui sozinha, deitei na sala. O médico avisou que iria aplicar anestesia na minha veia e depois disso tudo, a única coisa que eu me lembro foi eu acordando em outra sala. Acordei sentindo muita dor, chorando de cólica e não tinha sacado que o procedimento já havia acabado.

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Não contei para a minha mãe na época, não queria desesperá-la com isso. Ela continua sem saber que abortei. Para minha irmã contei depois de um tempo e ela me disse que também já tinha abortado. Falei para poucas pessoas. Agora estou tentando abrir mais isso.

É importante lembrar o fato de que a gente tinha R$ 4 mil. Tive a sorte de nascer em uma família de classe média, lógico, e conseguir pagar esse dinheiro para fazer um aborto seguro. Não foi um trauma, não penso nisso até hoje, fiquei apenas duas semanas grávida. Às vezes as pessoas falam em instinto materno, eu não tive. Nunca achei que isso iria acontecer comigo, mas depois que abortei pensei: bom, acontece. Você sente que não vai ter ninguém do seu lado e ao mesmo tempo você quer esconder isso das pessoas.

Tenho muitas amigas feministas e eu sou uma das que ajudou a criar nosso coletivo. Nunca me abri, nunca pedi ajuda para elas. Esse tema ainda é muito estigmatizado, um tabu. Comecei a pautar o aborto nas reuniões, ainda não falamos muito, mas eu bato nessa tecla. Teve um ato há um mês pela legalização do aborto em São Paulo, no Largo da Batata, com apenas 80 mulheres. Fui a única que apareceu do meu coletivo. Para que a esquerda está lutando? E as feministas? Eu realmente não sei. Mas nos atos Fora Cunha aparece bastante gente, sendo que ele é um dos principais que falam contra o aborto.

*Petra é um nome fictício



Dados: Pesquisa Nacional do Aborto (PNA), Organização Mundial de Saúde (OMS), Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope)

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