08 de agosto de 2016

Secundaristas e uma nova visão sobre gênero


A Vaidamina  realizou uma roda de conversa com os secundaristas da ETEC BG, na zona oeste de SP, sobre gênero, a mobilização dos estudantes e o dia a dia na escola


Por Clara Lisboa e Patricia Iglecio
Fotos: Heloisa Andrade

Estudantes secundaristas que ocuparam a ETEC Prof. Basilides de Godoy, no início deste ano, relataram para a Vaidamina algumas das opressões vividas dentro e fora da escola. Eles contam sobre o processo de empoderamento adquirido no decorrer do movimento.

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Fernanda, 17 anos, contou algumas situações de opressão recorrentes que acontecem dentro da escola. “No BG, sobre gênero, sempre foi uma bosta, pra LGBT também. É aquele preconceito bem sutil, bem camuflado, quem é preconceituoso não vai falar na cara”, diz. Ela denuncia que presidiárias que trabalham na escola já sofreram assédio por parte de alunos. Fernanda presenciou uma dessas situações, ficou incomodada com a abordagem preconceituosa que sofreram as funcionárias e procurou a Adriana, psicóloga e coordenadora do colégio, para reportar essa situação. A ocorrência foi registrada, no entanto, os alunos não foram punidos.

“A foto tinha um monte de macho, caras que estavam sim no movimento, lembro do rosto de todos. A legenda era ‘o bonde dos estupradores em potencial’. Eu fico decepcionada porém não surpresa”

Relata também o caso de uma foto postada nas redes sociais, com mais de 200 comentários. “A foto tinha um monte de macho, caras que estavam sim no movimento, lembro do rosto de todos. A legenda era ‘o bonde dos estupradores em potencial’. Eu fico decepcionada porém não surpresa”, ressalta.

Henrique também tem 17 anos e procura sempre abordar as minorias oprimidas em seus trabalhos, mesmo os de exatas. Ele afirma que um aluno de sua sala, não participante da ocupação, que dizia ter vontade de bater nele por conta disso.

Os estudantes relatam que parte dos alunos se posicionaram contra o movimento de ocupação. Inclusive o grêmio estudantil que, segundo Henrique, “é um grêmio que era pra ser dos alunos, mas é da coordenação, eles que escolheram.”

O coordenador fez com que apenas uma chapa pudesse concorrer e cortou as demais, que pretendiam discutir opressões e a participação dos secundaristas dentro da escola. A escolhida para concorrer não abordava essas questões.

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Giovanna, 16 anos, conta que, durante a ocupação, os estudantes ocupantes foram acusados de racismo inverso pelo vice presidente do grêmio. Segundo Giovanna, o aluno alegou que foi acusado de ser privilegiado por ser loiro, branco e de olhos azuis, e que isso configura racismo inverso.

O vice presidente do grêmio ameaçou abrir um processo contra as estudantes que o peitaram, além de criar duas páginas no facebook para difamar a luta do movimento secundarista. “O Bem Educado” e “O Privilegiado” fazem oposição a página “O Mal Educado”, que divulga as ocupações nas escolas e as pautas que defendem os estudantes mobilizados.

“O que eu acho engraçado dessas páginas é que o privilegiado serve exatamente pra descrever quem é contra a ocupação. Se a gente for separar hoje quem é contra e quem é a favor do movimento, sobra quem é contra. Infelizmente, essas são justamente as pessoas do ensino médio, que nunca precisam almoçar na escola e ficar ate tarde. Eles são privilegiados mesmo”, reflete Henrique.

“É tipo, ou você passa fome no horário da manhã, ou no horário do almoço”

Com relação a merenda, os secundaristas contam que a diretoria da escola distribuiu papeis para os alunos votarem se preferiam lanchar no período da manhã ou almoçar de tarde. Os estudantes mobilizados decidiram boicotar a votação. Henrique ironiza: “É tipo, ou você passa fome no horário da manhã, ou no horário do almoço”. Fernanda enfatiza: “O Alckmin disse que a merenda só vai vir em agosto. Então, se em agosto não acontecer nada a gente vai causar”.

Ela explica que com relação a gênero os professores não abordam nada. “No ensino técnico isso é ainda pior. Mecatrônica eu sei que é foda, eu faço logística que é um pouco melhor.”

“Uma vez  professor da meca perguntou pra uma amiga minha se ela é feminista, ela respondeu que sim. Ele retrucou: ‘você queima sutiã na praça?’. ‘Não, sutiã é caro’, disse minha amiga”, relata.

Para Fernanda, se os professores começassem a abordar as questões de gênero já seria um avanço. “A gente tinha um coletivo das minas, fizemos o projeto todo bonitinho, escrito muito lindo, todo mundo assinou. Mas a diretoria não aprovou, eles não aprovam nada, tem que fazer meio por baixo dos panos.”

27713695152_9c3521b101_kSegundo Paulo, 19 anos, o coordenador, Thiago, usa a burocracia como desculpa para não aprovar os projetos, aceitando apenas os de sua preferência, além de sempre adiar as conversas sobre o tema.

“Ocorrem diversos projetos de outras pessoas na escola só com relação a esporte, tudo que é esporte eles deixam. E essas pessoas geralmente são aqueles ligadas à coordenação. Para as nossas propostas de grupo de estudo, abordar questões LGBT, eles não liberam as salas, dizem que a gente não pode se reunir nas salas depois do almoço”, comenta. Até mesmo para cultos religiosos já foram permitidas salas.

Giovana relata que sua orientação sexual e o fato dela utilizar o banheiro masculino são tratados de maneira repressiva pela coordenação. A coordenadora, Adriana, já advertiu que a aluna não beijasse sua namorada na escola. Além disso, disse que alunos reclamavam que ela usasse o banheiro masculino.

“Depois de tudo que ela falou, eu respondi ‘uso mesmo, qual é o problema? Se ele tem vergonha eu não posso fazer nada’”, questiona. Para a estudante, a coordenação trata ela como “um caso especial, que tem “carteirinha VIP” para utilizar o banheiro masculino.

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