08 de setembro de 2016

#DI#: O homem que arranhou o céu

Porque pichar é humano


Por: Caio Luiz
Fotos: Murilo Salazar

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27 de junho de 1997. Edmilson de Oliveira comia um cachorro quente com a mulher, grávida, em frente à escola Professor Francisco Casabona, Vila São José, Osasco. Aos 22 anos, ele queria voltar a estudar para terminar o ensino médio e tinha acabado de conversar com o diretor. Um cara surgiu, rendeu o casal e o amigo Dino. A esposa tomou um tiro no pé. Dois tiros estavam reservados para Edmilson, conhecido como Di. Um perfurou seu pulmão e ele não resistiu. Morria o rei do beiral, dono dos topos de prédios mais foda de alcançar. Morria uma das maiores lendas da pichação do país.

Agora daremos um salto de quase 20 anos no tempo. Sábado, 3 de setembro de 2016. Um professor de sociologia de Pirituba levanta a mão no salão escuro da unidade Jaçanã da Fábrica de Cultura logo após a exibição do documentário “#DI# Pichar é Humano”, realizado pelo selo independente Pixo Ação, com direção de Bruno Rodrigues e co-direção de Dino, amigo pessoal de #DI#.

Tornar o pixo algo didático dentro das escolas mataria o propósito de ferramenta de contestação. Ilegalidade e desobediência não se ensina dentro da sala de aula”

— Dino, co-diretor do documentário

“Eu queria saber como poderia levar o pixo pra dentro da sala de aula?”, indaga o professor.

Dino segura a respiração por um segundo e reflete:

“Imagine o seguinte: se caísse uma bomba atômica em São Paulo e a radioatividade deixasse o estado em ruínas, a sociedade do futuro iria nos estudar através do quê? Pelo que sobraria, certo? Ou seja, uma das características que restaria seria o pixo, portanto, é patrimônio e tem valor.

Não existe Picasso e Monet nas ruas, muito menos na sua sala porque eles não representam a população comum. Já o pixo está presente na vida da cidade e formou uma geração que passou muito veneno na rua, vivendo o risco, criando letreiro reto e fazendo questionamento político… Isso é pichação paulista. O que o faz ser arte não são as caligrafias apenas e sim a história de mais de 30 anos de uma cultura que se desenvolveu ao redor de uma expressão.

Respondendo a sua pergunta: Tornar o pixo algo didático dentro das escolas mataria o propósito de ferramenta de contestação. Ilegalidade e desobediência não se ensina dentro da sala de aula.”

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O trecho acima é recorte do bate papo que aconteceu depois da mostra do filme, que costura entrevistas de amigos pessoais com mitos da pichação, o que catapulta o doc ao status de registro panorâmico da velha guarda do pixo. Hoje, quarentões que influenciam milhares a se aventurarem pelas ruas. Nomes como Zé do LIXOMANIA e até MUNDANO dão as caras na produção

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Da direita para a esquerda, os três primeiros: Sérgio Miguel Franco, curador da mostra; Bruno Rodrigues, diretor do filme e Dino, que era amigo pessoal de #DI

A ocasião reuniu um panteão noventista de veteranos da pichação, do naipe de SÓ MINA Diná, Pinguim do 8º BATALHÃO e KOP. Marcaram presença também amigos pessoais que fizeram diversos rolês pela madrugada – e na caruda do dia também – ao lado de #DI#, como RZ e TOBÉ.

Sim, #DI# era destemido. Arquitetava planos e fixava metas que o transformaram num escalador versado em driblar esquemas de segurança e guardas para então cravar o próprio nome no pico de uma fachada. Se você acha que isso é mera marcação de território, remova a viseira de cavalo e entenda a metáfora por trás de quem dominou cumes de concreto em regiões nobres de uma das cidades mais opressivas do terceiro mundo.

#DI#, moleque da periferia, alcançou patamares elevados da sociedade aos quais bilhões de pessoas jamais atingirão. E lá deixou sua marca pra escancarar que uma pessoa simples pode se sobrepor ao mar de cinza. Não adianta segregar. É possível se apropriar de qualquer obra faraônica, palco para as divisões de classe se acentuarem, e usá-la como outdoor de uma voz da periferia dizendo: “Eu estou aqui e sou dono disso”.

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“Como você vai acessar um restaurante ou uma balada em Moema se você não tem condição?”, exemplifica Dino. Se não pela porta da frente, pela dos fundos. No entanto, o letreiro oficial do estabelecimento terá que conviver com os nomes dos excluídos, dos penetras que manjam de design, espaçamento, tipografia e usam a arquitetura como moldura para um berro cru do gueto. Assim era nos anos 80 e 90.

“A semana de 22 é menos importante do que o pixo para o Brasil. Olhando para o renascimento, o impressionismo, sei que o #DI# era gigante”

— Sérgio Miguel Franco, curador da galeria A7MA

Pichação arte efêmera da desobediência civil que não cabe em rótulo ou no frasco de vidro. Anomalia do sistema nas mãos de exploradores de rincões e bairros. Pichação. Visceral, popular e cifrada para a burguesia, protegida pelas obras no vestibular requisitadas. Do marginalismo do rolo e da lata de spray nos muros, nos idos da década de 1990, trazendo uma estética agressiva, urrando contra a noção construída do belo. Para os museus e galerias a partir de meados dos anos 2000.

Pichação: a subcultura de grifes e grupos, tretas e travessuras, que dichava a cidade, pois a enxerga como tela.

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Sobre a morte de #DI#, que frequentemente apresenta versões contraditórias, Dino, presente no momentos dos disparos e no dia anterior ao assassinato, falou durante o evento. O motivo, segundo o amigo, foi uma discussão com um dono de bar, cuja mulher cruzou com #DI# na porta de um banheiro unissex e o acusou de desrespeito. A situação ganhou uma proporção descabida, com direito a bate boca, e terminou com o dono do bar afirmando que estava tudo resolvido. No dia seguinte, no entanto, o sobrinho dele encontrou com #DI# em frente a escola e atirou na lenda da pichação.