01 de setembro de 2016

Ensaio | Caos, câmeras e cães: A resistência tá só começando

Acabou o mês do cachorro louco. Começa a Era


Relato: Caio Luiz
Fotos: André Zuccolo

Relato sobre o protesto de quarta-feira (31/08/2016). Saindo do metrô havia um boneco inflável gigante da Dilma com nem 100 pessoas ovacionando o impeachment próximo ao Masp. Clima de partida de futebol decisiva com hostilidade hidrófoba. Terra do futebol. O lado A, de verde e amarelo, estava separado do B, de vermelho e preto, por dois cordões de robôcop empunhando dozes. Era preciso.

O B concentrado embaixo do museu do Chateaubriand teria engolido o A porque também tinha C, D e E aos milhares no meio. Grande parte jovem, estudante e muito mal organizada. A única munição eram palavras de ordem e cartazes. Puta cheiro de vinagre, erva e ditadura.

Só aquele recorte, aquela fatia de realidade, traduzia em minúcias muito da Terra em Transe. Uma minoria classe A satisfeita com a regência do colar branco, que é quem de fato engole a B e sua descida piramidal, completamente sem lente que enxergue o chão, o fundo do enrosco, e sem bússola para o futuro.

Consumado o impeachment, restam as convulsões sanadas com o pau de dá em doido que é a PM. Os milhares de indignados que, sim, temem o Temer se coordenam por eventos dentro do quintal digital do Zuckerberg. Os milhares são quórum inexpressivo. Netflix parafusou geral no sofá. Cildo Meireles acende um Molotov dentro de uma coca KS com o fogo do inferno. “A gente tá fudido…”

A massa desce. Caminha rumo ao fim da Paulista sentido Consolação. O consolo é emborrachado e voa e vai todo mundo tomar no cu. Os gritos são simultâneos, pipocam de vários grupos e sinalizam ausência de sincronicidade. Na Consolação, um braço do protesto se divide e faz o que os políticos fizeram com o Brasil. Embostearam as ruas com lixo, espalharam sacos e atearam fogo para impedir o avanço, o fluxo, o ir e vir.

Helicópteros com lanternas. Do alto dos prédios, não bastasse o que estava por vir, os manifestantes desviam de sacolas de mijo e lixo atirados por moradores temerosos em seus camarotes do ensaio para o Apocalipse.

Os tatuadores de parede deixam tweets em frente ao Corpo de Bombeiros. O Choque só observa. É quase masoquista. Eles estão de preto, bondage da repressão. Ao lado da Roosevelt o primeiro Cabum. Temperaram Mackenzie com perfume de pimenta. No velório da Democracia todo mundo chora.

Caos, câmeras, cães. Um grupo fica na república apedrejando os home. Outro segue para a Folha de São Paulo. O gás dispersa e a PM cerca. Na frente do jornal o complexo de demônio da Tasmânia aflora e quando o conjunto separado da República vem para somar, uma BMW atropela uma médica. Ela gira no ar, mas não está de jaleco, mas a BMW, sim, porque é branca. Che era médico também. Não tem cura na República.

Aí a folha da história é preenchida com um balé de toco, soco, basalto, assalto, pimenta, não tem quem guenta! Bomba, gente que tomba, punk, junk, lixo, pixo e revolta. A garganta fecha com um garrote invisível, engasga gato aéreo e etéreo, quando recobra-se a visão lá está, de escudo a la Esparta, a escolta.

Uma bota prensando a cara da humanidade contra o asfalto. Não tem como deixar de ser poético em ficções. Brazil, o filme…

Orwell e Gilliam, 1964, quer dizer, 1984 é aqui.



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