02 de setembro de 2016

Os verdadeiros fascistas à solta: a PM vandalizou ato Fora Temer em SP

Com o policiamento mais ostensivo dos últimos atos, manifestação na Paulista termina em mais uma noite de brutalidade da PM. Editoriais dos grandes jornais da cidade de SP acusam manifestantes de fascistas. Será?


Por Henrique Santana e Thiago Gabriel
Fotos: André Zuccolo e Murilo Salazar

Foi mais um ato recheado de bombas disparadas pela Tropa de Choque da Polícia Militar. Nessa quinta-feira, 1˚ de setembro, o segundo ato convocado em São Paulo contra Michel Temer (PMDB), desde a oficialização do peemedebista na presidência, acabou novamente reprimido pela PM. É a quarta manifestação consecutiva com confrontos na capital paulista.

A concentração começou às 18h na Avenida Paulista. O perfil dos manifestantes, no entanto, mudou em relação à grande maioria dos atos que vinham sendo convocados contra o impeachment de Dilma Rousseff. Desde segunda-feira (29), ainda nas vésperas da votação pela cassação do mandato de Dilma no Senado, as manifestações passaram a ganhar um engajamento mais jovem e de grupos mais radicalizados, como os adeptos da tática black bloc. Foi também a partir de segunda que a repressão policial se intensificou.

Os atos, até o dia 29, vinham sendo organizados pela Frente Povo sem Medo, “composta por mais de 30 movimentos nacionais, focada em mobilizações contra o ajuste fiscal e o conservadorismo”, como descreve a página do grupo. Entre eles estão movimentos tradicionais de moradia, como MST (Movimento Sem Teto) e MTST (Movimento dos Trabalhadores sem Teto), e centrais sindicais, como a CUT (Central Única dos Trabalhadores).

Nos atos de terça, quarta e no desta quinta-feira, a organização da manifestação se deu de forma mais espontânea, convocada por usuários do Facebook e sem vinculação direta com algum movimento.

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A atitude truculenta da polícia durante a semana lembrou a repressão das manifestações que desencadearam a explosão dos protestos pela tarifa em junho de 2013 e a sistemática repressão ao movimento dos secundaristas em São Paulo. Nos atos contra o impeachment, isso não vinha acontecendo até a onda de brutalidade da PM que tomou conta da cidade esta semana.

A vítima mais grave da repressão policial foi a estudante Deborah Fabri, que perdeu a visão do olho esquerdo após ser atingida por uma bala de borracha no protesto de quarta-feira. Além dela, dezenas de pessoas ficaram feridas, fotógrafos foram agredidos, detidos e tiveram seus equipamentos quebrados pela PM. Manifestantes também relataram ofensas morais vindas dos policiais, com xingamentos constantes direcionados a quem participava dos atos.

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Nessa quinta-feira, o contingente policial estava ainda maior do que nos últimos atos. O número de manifestantes, no entanto, era inferior ao de quarta-feira. As bombas começaram a voar na região central de São Paulo depois que alguns manifestantes atearem fogo em uma caçamba na avenida Nove de Julho. A Vaidapé, que fazia a cobertura em tempo real do protesto, registrou o momento, dos disparos que podem ser observados a partir do minuto 13 do vídeo abaixo.

A concentração do protesto aconteceu no MASP, onde manifestantes se reuniam e entoavam gritos de ordem, com a presença de poucas bandeiras e grupos políticos organizados. Após decisão do trajeto a partir de jogral coletivo, o ato (que ainda não contava com grande número de participantes) seguiu até a Praça do Ciclista.

Durante o trajeto, o número de manifestantes foi crescendo e, após a chegada ao cruzamento da Paulista com a Consolação, um novo jogral decidiu que o ato seguiria até a sede do PMDB, na região dos Jardins. Neste momento, o Tenente-Coronel Cangerana, PM responsável pela operação, avisou que os manifestantes estavam proibidos de seguir o trajeto decidido pelos presentes por “motivos de segurança”. O PM afirmou que o ato poderia seguir pela Consolação até a Praça da República ou a Roosevelt, no centro da cidade.

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“Se vocês querem respeito, eu também quero o respeito. Só faz o seguinte: pega a bandeirinha de vocês e põe o pano branco que eu venho conversar com vocês. Estou aqui para negociar, negociar. Então, onde vocês vão? A questão é que não dá para sair sem a divulgação de um itinerário”

Tenente-coronel Cangerana, responsável pelo policiamento

A partir daí, uma tensão teve início, com manifestantes que desejavam buscar o cordão policial e seguir até o diretório estadual do PMDB, e outros que buscavam seguir o trajeto com o trânsito já interrompido pela PM, temerosos com a repressão iminente e o pequeno número de manifestantes em comparação com o efetivo policial. A manifestação então seguiu unida no trajeto para o centro, pela rua da Consolação, onde no dia anterior a PM reprimiu de forma brutal o ato.

“Nos não temos forca para enfrentar a PM. Não temos essa estrutura, capacidade, nem é de nosso interesse enfrentar o policial. A instituição Polícia Militar, ok, temos as nossas criticas, mas jamais seremos suicidas de partir para cima de um policial. Mas na maior parte das vezes isso não acontece e a gente é reprimido do mesmo jeito”

Caio Villalba, manifestante

Apesar da garantia do comando da PM de que não haveria repressão policial durante este trajeto, a corporação atirou algumas dezenas de bombas em direção aos manifestantes quando o ato chegou na avenida Nove de Julho. Os policiais encurralaram manifestantes e jornalistas, bloqueando todas as saídas pelas ruas adjacentes ao confronto. Neste momento, diversas barricadas foram montadas pelos manifestantes, que atiraram também pedras e rojões em direção aos policiais, e destruíram vidraças de bancos enquanto se dispersavam na correria.

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Na Praça Roosevelt, onde o comandante da tropa havia afirmado que a manifestação poderia se encerrar tranquilamente, a PM passou a atirar bombas indiscriminadamente em direção aos bares e pessoas que passavam pelo local, sem ter sofrido qualquer provocação ou tentativa de reunião dos manifestantes.

As várias tentativas de reagrupar o ato foram duramente reprimidas, e manifestantes eram abordados enquanto fugiam, muitas vezes sozinhos, das bombas de gás atiradas pelos PMs. A Vaidapé registrou uma destas abordagens em sua transmissão ao vivo, a partir do minuto 18:46 (confira no vídeo acima). 

Editoriais

Em suas edições impressas na manhã desta sexta-feira (2), os dois maiores jornais paulistanos assinaram editoriais salivando por mais repressão da PM aos atos, que classificam como “o prenúncio de uma grave disruptura política e social cuja simples possibilidade é preciso exorcizar.”, segundo o Estado de S. Paulo. Já o texto da Folha de S. Paulo, classifica os manifestantes como “milicianos” e “fascistas”

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Em ambos os casos, o texto clama explicitamente por mais repressão, como visto em: “Está mais do que na hora de as autoridades agirem de modo sistemático a fim de desbaratá-las e submeter os responsáveis ao rigor da lei.”, na Folha de SP, e no trecho: “Se as autoridades responsáveis – de modo especial o governador paulista, sempre hesitante nesse assunto – não tiverem a coragem de adotar medidas duras, mas necessárias para impedi-la, essa escalada da violência alimentada pelo ressentimento e pelo revanchismo colocará em risco, real e imediato, as liberdades fundamentais dos cidadãos.”, no editorial do Estadão.

Tocha, Projeto de Lei e exército

No próximo domingo (4) outro ato contra Temer está marcado para acontecer na avenida Paulista. A Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, no entanto, emitiu nota nesta quinta-feira afirmando que não permitirá a realização do protesto por conta da passagem da tocha paralímpica na região.

Não bastando a atuação linha dura da polícia paulista, o presidente Michel Temer autorizou o emprego das Forças Armadas durante a passagem da tocha, em decisão publicada no Diário Oficial também nesta quinta.

Para fechar o cerco militar, alguns dias antes, na mesma data da deposição de Dilma, foi publicado no Diário Oficial de São Paulo a decisão do governador do estado, Geraldo Alckmin (PSDB), autorizando a abertura de 5.400 vagas na Polícia Militar. O concurso pede formação específica em “Polícia Ostensiva e Preservação da Ordem Pública”.

O direito de manifestação encontra-se ameaçado também pelo projeto de lei 325/2016 que tramita no Senado Federal. O PL prevê a aplicação de multas de R$ 3.830,80 para qualquer cidadão que bloquear o trânsito de vias, estradas e avenidas sem autorização. Para os organizadores de protestos, a pena prevê uma multa com valor três vezes maior. O projeto é de autoria do senador Pedro Chaves (PSC-MS).

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