10 de outubro de 2016

Do Massacre do Carandiru às chacinas na periferia: não foi legítima defesa

Movimento Mães de Maio lança o livro “Mães em Luta – dez anos dos crimes de maio de 2006” e marcha com movimentos sociais em memória aos 24 anos do Massacre do Carandiru

Por: Lauana Aparecida
Fotos: Lauana Aparecida

“Enquanto eu puder e tiver forças eu vou em busca de justiça”. Maria de Fátima dos Santos Silva, de 57 anos, se emociona ao lembrar do filho Hugo Leonardo dos Santos Silva, de 18, morto após uma abordagem policial na Favela da Rocinha (RJ), em abril de 2012.

Na última quinta-feira (06), ela se juntou ao movimento Mães de Maio e a outros coletivos sociais no ato em memória aos 24 anos do massacre do Carandiru. O protesto teve início por volta das 19h na Praça Coronel Fernando Prestes, ao lado da estação Tiradentes do Metrô.

Antes do ato, uma coletiva de imprensa na Casa do Povo, Bom Retiro, realizou o pré-lançamento do livro “Mães em Luta – dez anos dos crimes de maio de 2006”, organizado pelo jornalista André Caramante. Com dados sobre a violência policial no estado de São Paulo e relatos de mães que perderam os filhos para a barbárie institucionalizada, a publicação reflete a luta por justiça de mulheres que clamam pelo fim do genocídio jovem, principalmente de negros e periféricos.

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“Não podemos ter medo da bala e do alcance do judiciário. Os nossos mortos têm voz e têm mãe”,DSC_0486 assegurou Débora Maria da Silva, fundadora do movimento e mãe de Edson Rogério Silva, 29 anos, um entre os mais de 500 mortos na chacina que ficou conhecida como Crimes de Maio de 2006. A série de assassinatos promovida por grupos paramilitares foi uma resposta aos ataques do Primeiro Comando da Capital, o PCC.

Railda Alves, fundadora e presidente da associação Amparar, que apoia familiares e amigos de pessoas presas, ressaltou a seletividade do sistema prisional. “A polícia está preparada sim, para matar pobre, negro e da periferia. A bala tem seta, eles sabem as pessoas que matam”, afirmou.

Zilda Maria de Paula perdeu o único filho, Fernando Luis de Paula, na chacina ocorrida em Osasco e Barueri, que completou um ano em agosto. “Meu filho estava pintando minha casa, desceu para tomar um tiro na cabeça. Nem o diabo faz isso.” Lembrando de um verso da música “Capítulo 4 Versículo 3”, dos Racionais MC’s, Zilda afirma que basta andar na rua de “bombeta e moletom”, uma bermuda e chinelo para ser marcado pela polícia.

Os manifestantes criticaram a anulação do julgamento que condenou 73 policiais militares pela morte de 111 presos do pavilhão nove da Casa de Detenção de São Paulo, o Carandiru, em dois de outubro de 1992. O presidente da 4ª Câmara do Tribunal de Justiça de São Paulo, desembargador Ivan Sartori, chegou a pedir a absolvição dos réus no último dia 27. Outros dois desembargadores ainda precisam votar para que haja decisão definitiva sobre o caso.

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Também organizaram a mobilização o Movimento Passe Livre (MPL), Coletivo Desentorpecendo a Razão (DAR), Coletivo Herzer, Coletivo Autônomo de Trabalhadores Sociais (Catso), Pastoral Carcerária, Fanfarra do Mal, Bloco Feminista da Marcha da Maconha e Centro de Mídia Independente (CMI).

Movimento Secundarista

No encontro estiveram presentes mães de estudantes secundaristas e integrantes de um comitê formado para organização de familiares dos estudantes. Elas contaram como vivenciaram o período de ocupações das escolas públicas e falaram sobre as ameaças que têm sofrido desde que os filhos encabeçaram a luta por educação e merenda de qualidade nas escolas.

Rosana Cunha foi uma das mães que denunciou a ação truculenta da polícia para com os alunos, e informou que a perseguição a eles continua. “Eu tenho muito orgulho desses secundaristas, porque eles brigam pelo que o Estado deveria dar, e são reprimidos porque estão defendendo seus direitos.”

Caminhada pelo Centro

O grupo deixou a Praça Coronel Fernando Prestes e seguiu pelas ruas do Centro até a Praça da Sé, em frente ao Tribunal de Justiça. Durante o ato, os manifestantes repetiam gritos como “chega de chacina” e “eu quero o fim da Polícia Militar”. Alguns integrantes abordavam pedestres e motoristas de ônibus a fim de entregar material informativo sobre a manifestação.

Ao final do trajeto, velas foram acesas em homenagem às vítimas, e os participantes pintaram na calçada da praça a seguinte frase: “TJ SP não esquecemos 2.10.1992”. Em forma de jogral, Débora pedia: “Me ajude a barrar a rajada de metralhadora, a caneta assassina do judiciário. Nós demos a vida, nós demos à luz, e não vamos esquecer”.

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