25 de outubro de 2016

“Sobre o olhar de fora: a violência policial.”

Certa vez, eu estava no Jd. Vista Alegre, na Zona Norte de São Paulo, fazendo um trabalho de campo sobre desigualdade social e juventude periférica. Fui até uma praça que tem no pé de um morro e ali comecei a conversar com dois meninos e uma assistente social. Um dos meninos começou a contar que tinha quinze anos, era aluno de uma escola pública da região, estudioso, não usava drogas e via muita violência policial acontecendo na frente de sua escola. Comecei a perguntar sobre que tipo de violência eles viam acontecendo. Contou que um amigo havia sido morto, sem motivos aparentes, pela PM, e o corpo jogado em um terreno baldio. A mãe do amigo morto ficou sabendo do acontecido através das pessoas da comunidade, e em estado de choque, teve que ir atrás de como resolver a situação do velório. Ele me conta tudo isso pra dizer que joga bola, não se envolve com pessoas ruins e que sonha em ser jogador de futebol. Eu olhei em volta, perguntei onde ele costumava jogar bola. Ele disse que tinha um campinho de chão de terra batida perto da casa dele. Para ele só faltava uma boa oportunidade de poder entrar num time e treinar de verdade. Ele falou que joga bem, é atacante, e o amigo confirmava, elogiando o amigo que faz vários gols.

Olhei em volta de novo, vi a precariedade do espaço físico; um morro alto ocupado com barracos de madeira, na frente do morro uma praça grande com duas quadras esportivas médias, mal cuidadas, ocupadas por uma molecadinha de crianças muito pequenas até adolescentes e jovens. Num geral as crianças brincavam e os jovens, sentados nos bancos e muretas, conversavam e fumavam.

Me perguntei quais são as chances desse menino ser um jogador de futebol famoso e ganhar dinheiro com esporte se ele apenas joga bola com os amigos no campinho de terra batida? Continuamos a conversa. O outro menino, de quatorze anos, se apresentou, ele era o oposto do amigo, gostava de fumar maconha e cabular aula para ir numa cachoeira perto na Serra da Cantareira dar uns beijos numas meninas. Não tinha jeito pra ser jogador de futebol. Gostava de fumar maconha e ficar brisando, nas palavras dele. Enquanto esse falava o outro ficava olhando pra baixo com um sorriso entre aberto, como se tivesse rindo do amigo que contava que fumava dez baseados por dia para ficar tranquilão e não se preocupar com os problemas. Perguntei se não era perigoso ir sozinho com as meninas pra um lugar afastado, no meio do mato. Ele respondeu que uma vez, os dois foram até a cachoeira com mais duas meninas. Ele estava se divertindo, e resolveu “fumar um”, e na hora que começou a bolar chegaram dois PM’s pedindo para eles colocarem as mãos na cabeça, revistaram os dois, ameaçaram de joga-los pelo morro a baixo e falaram que se quisessem fariam isso. Os meninos tomaram uns tapas na cabeça e depois disso os PM’s foram embora. Não aconteceu nada com as meninas. Mas, relataram que elas, assim como eles, ficaram com muito medo. A assistente social interviu, disse pra ele tomar cuidado, porque ele tinha as características todinhas, a pinta certinha que a polícia militar gosta de pegar e “dar um jeito”. O menino não se chocou com a afirmação feita pela assistente social, já eu, sim. Fiquei chocada com o jeito que ela falou com ele sobre isso. Foi papo reto, era a linguagem que ele falava. Ele respondeu pra ela: – “tenho nada, tia. Os caras são folgados, pegam qualquer um.

Outro dia a CGM pegou um primo meu também. O menino foi pego a noite e no outro dia nem apareceu na escola. Quando fomos ver, o menino estava morto”.

Era um pouco assustadora a naturalidade da fala do menino. Era clara a falta de esperança nas palavras que ele usava. Falta de esperança que não se resumia apenas a sua vivência exclusivamente, mas ao eco de toda uma comunidade que vive a violência cotidianamente. Ele me falava assim: – É assim mesmo, tia. A vida é essa aí… Perguntei o que ele achava que tinha acontecido quando o primo dele foi pego. Ele disse que não sabia, mas que até onde sabia, não tinha acontecido nada fora do comum. Soube por causa dos boatos na comunidade que a CGM chegou e abordou. No dia seguinte o menino tinha sumido. Ele não soube contar mais sobre isso. Fomos encerrando o assunto. Contei pra ele que existem formas de se defender. Que ele precisava sempre olhar a identificação do carro da polícia, que na lateral há um número que ele pode guardar e identificar os policiais depois numa possível denúncia. Falei isso para ele já sentindo um peso enorme. Ele me disse que não sabia disso. Que a partir de agora ficaria mais esperto. Mas, ambos, eu e ele, nos olhamos e, provavelmente pensamos a mesma coisa: nós sabíamos que ele nunca poderá fazer uma denúncia, porque no dia seguinte, a mãe dele poderia ser a próxima a receber da comunidade a notícia de que o filho tinha desaparecido. Embora a possibilidade da morte esteja constantemente no discurso deles. É nesse mesmo bairro em que um adolescente é morto pela polícia que o outro garoto joga futebol no campinho de terra batida e que alimenta o sonho de um dia ser jogador de futebol.

 

por Thamy Radomile

 

por: Quinho Fonseca
por: Quinho Fonseca
A RUA GRITA

Lista de expositores da #PrimeiraFeira será divulgada na semana que vem

Selecionada(os)s seriam divulgados nesta quinta-feira. No entanto, grande número de inscritos fará a lista final … Continuar lendo Lista de expositores da #PrimeiraFeira será divulgada na semana que vem

A RUA GRITA

Mato Seco é o campeão do primeiro Jah é Gol

Evento no Parque Chácara do Jockey uniu a cultura rastafari e o esporte na articulação … Continuar lendo Mato Seco é o campeão do primeiro Jah é Gol