16 de novembro de 2016

Estudantes ficaram quatro dias presos na ocupação da Câmara de Guarulhos

Um vídeo em que dois jovens supostamente praticavam sexo no plenário motivou uma escalada da repressão contra a ocupação da Câmara de Guarulhos. Estudantes acusam GCM de praticar cárcere privado

Por Fernando Martins
Fotos: Fernando Martins e Paula Serra

Em protesto contra a Proposta de Emenda Constitucional 241 (nomeada PEC 55 no Senado), que pretende congelar gastos públicos por 20 anos, e também contra a Medida Provisória 746, que tem como objetivo reformular o ensino médio, diversas pessoas ocuparam a Câmara dos Vereadores de Guarulhos (SP) no último dia 20 de outubro.

Estudantes, artistas, professores e trabalhadores em geral lá permaneceram acampados durante onze dias, realizando uma série de atividades culturais, como shows e saraus, além de diversos debates sobre as atuais políticas do governo federal.

A situação mudou na última quinta-feira (27). Após a divulgação de um vídeo onde dois jovens supostamente praticavam relações sexuais, a pressão em torno da ocupação aumentou e o presidente da Câmara, o professor Jesus Roque Freitas (DEM), pediu reintegração de posse do local.

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“Quando eu cheguei na Casa, na quinta, me avisaram que havia ocorrido isso (divulgação do vídeo). Eu estava entendendo a ocupação como um ato democrático. Mas a votação foi na terça e eles continuaram lá. Na quarta não saíram e então, na quinta, entramos com um pedido de reintegração de posse”, disse o presidente da Câmara, professor Jesus, em entrevista ao site G1.

Na sexta-feira (28), após alegação de que um ato, promovido pelo MBL (Movimento Brasil Livre), poderia ameaçar a segurança dos jovens, a Guarda Civil Metropolitana trancou as portas da casa legislativa. Tudo não passou de uma farsa, segundo a visão dos estudantes.

A secundarista, Gabriela Batista*, de 17 anos, conta como foi o processo de trancamento da Câmara: “Com a ameaça desse ato, a gente se deixou levar pela pressão psicológica, que foi justamente a estratégia deles. Quando percebemos que não havia nenhum ato significativo, os policiais alegaram que era uma ordem do presidente da Câmara, que, pelo vídeo divulgado, nós havíamos ferido a moralidade da casa. Pedimos que mostrassem o vídeo e o papel que determinava essa ação, mas nenhuma solicitação foi atendida, mesmo com advogados presentes”.

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A partir de então, instalou-se um clima tenso, com viaturas e policiais em grande número, ocupando o estacionamento do prédio e, portanto, com acesso livre à ocupação.

“Ficamos trancados, com o ar condicionado ligado todo o dia, em uma temperatura de 13ºC e, além disso, os representantes dos vereadores eram sempre agressivos, os policiais sempre com cassetetes em mãos”.

A estudante continua: “Ninguém podia entrar e sair, só se fosse para não voltar mais, exceto duas pessoas tinham entrada permitida após saírem, para buscar comida. A gente vê a clara estratégia de, sob condições desumanas, forçar o esvaziamento da ocupação e derrubar a gente. Eu lembro que ninguém conseguiu dormir naquela noite, ficamos esgotados psicológica e fisicamente, como uma companheira que saiu chorando, carregada, com crise de rinite. A nossa alimentação também não era adequada, pois comíamos apenas pães, bolos e outras coisas de fácil acesso, pois uma refeição completa era difícil de ser feita no local ou mesmo levada até lá. Na sexta-feira, à noite, também tivemos a água cortada durante cerca de três horas, o que entendemos como um aviso”.

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Sob pressão, os jovens resolvem dar fim à ocupação por concluírem que o objetivo do grupo já havia sido concluído, inclusive com um aumento significativo de participantes ativos no movimento, alcançando mais de cem pessoas envolvidas, dentro e fora da ocupação.

A estudante de pedagogia da UNIFESP, Mariane Souza*, que também esteve presente na ocupação estudantil, faz uma avaliação sobre o fim do movimento dentro da Câmara: “Foi vitoriosa, apesar da repressão, da pressão e desgaste físico e psicológico, nos mantivemos firmes e fortes na pauta e cumprimos todos os objetivos”. A secundarista Gabriela complementa: “Mesmo sem apoio da mídia, Guarulhos inteira sabia de nossa ocupação. Conversamos com a população, fizemos saraus, aulas públicas, onde alcançamos quase 30 mil pessoas ao todo através de nossa página.

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Mariane destacou também o aprendizado adquirido durante toda a vivência com a ocupação, superior aos ensinamentos oriundos da sala de aula tradicional: “Com certeza, aprendemos mais na ocupação, porque ela uniu a teoria à prática, o que a escola e a universidade, infelizmente, não fazem. As aulas e os debates fortaleceram nossa base intelectual sobre a pauta e outras questões tão difíceis de serem debatidas nesse atual momento conservador da política, nos dando ainda mais gás para lutarmos contra os retrocessos. E a nossa forma de organização horizontal, em que tudo foi discutido em assembleias e roda de conversa, as tarefas distribuídas em comissões rotativas nos trouxeram senso de responsabilidade e aprendendo a cuidar dos outros e de nós mesmos”.

Sobre o fim, da ocupação, Gabriela destacou a necessidade de fazer um ato com muito barulho mesmo, pois a cidade precisa entender a gravidade da situação: “Na saída, nós gritamos alto, resistindo e mostrando a nossa força com a manifestação, bem no horário de pico”. O ato percorreu as principais avenidas do centro de Guarulhos, entre às 18h e 20h, e foi encerrado em uma assembleia, na praça Getúlio Vargas, onde foram encaminhados os próximos passos para dar sequência à luta contra a PEC 241 (renomeada no senado como PEC 55), e também contra a MP 746.

Pelo Brasil, são mais de mil ocupações, segundo a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), sendo a grande maioria de escolas e institutos federais, principalmente no estado do Paraná. Guarulhos foi a primeira e, até então, única localidade a ocupar a Câmara dos Vereadores.

*Foram usados nomes fictícios por solicitação das entrevistadas

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