03 de novembro de 2016

No dia das bruxas, quem ocupa a Cohab Raposo Tavares é a Festa do Sacy


Além de pinturas, sarau e shows, a festa também premiou iniciativas comunitárias e periféricas de São Paulo, sendo uma delas a Vaidapé


Por Gil Reis
Fotos: Paula Serra e Alicia Esteves

No último sábado (29) foi realizada a 7ª edição da Festa do Sacy, comemoração organizada pela Associação de Professores da USP e uma rede de coletivos que atuam na zona oeste da cidade. Das 10h às 18h, o encontro promoveu oficinas de pintura para as crianças, sarau,festa-do-saci---cohab-raposo-tavares_30082799343_o momentos de leitura, shows e premiou iniciativas comunitárias que valorizam a diversidade cultural periférica da cidade de São Paulo. A Vaidapé foi um dos coletivos premiados.

A festa busca um resgate das referências tradicionais da cultura brasileira a partir da lembrança dessa figura folclórica. Celebrada na mesma época do Halloween, a Festa do Sacy faz um contraponto à cultura norte-americana, valorizando os mitos e o imaginário tradicional brasileiro. Morador do bairro há 24 anos e um dos organizadores do encontro desde sua primeira edição, Felipe Valentim conta: “não sou contra o Halloween, acho que pode ter, assim como a festa da caveira mexicana, a celebração dos indígenas. Só não podemos empobrecer nosso repertório cultural. Temos que olhar primeiramente para cultura brasileira para enriquecer esse repertório”.

Desde sua quarta edição, a festa é comemorada no Parque Juliana de Carvalho Torres, na Cohab Raposo Tavares, afim de estreitar laços com a comunidade e fazer da celebração um momento de resgate da cultura do bairro.

Na primeira edição realizada na Cohab, em 2013, o Centro de Memória, criado por alunos e professores da EMEF Profa. Maria Alice Borges Ghion foi uma das iniciativas premiadas. A partir dessa aproximação, professores do colégio e muitos alunos começaram a participar permanentemente da organização do evento e a incorporar o estudo das lendas brasileiras dentro da sala de aula. Felipe falou sobre a integração com a escola: “Foi a parceria perfeita. Temos o ideal de um bairro que integra o ensino e os saberes tradicionais e populares, o que chamamos de bairro educador. Esse é o nosso projeto para Cohab, aproximar a comunidade e fazer ela reconhecer que também tem saberes. Esse é o nosso ideal”.

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O parque onde a festa acontece também é uma conquista dos moradores da Cohab. A organização dos moradores do bairro foi responsável por uma luta pelo uso público do terreno, que culminou na criação de um parque com 10 mil m², composto por mais de 50 espécies de árvores nativas da Mata Atlântica. A luta continua pela implantação de mais 42 mil m² ao parque, algo que estava previsto nas ações da atual gestão de Fernando Haddad, e que não foi cumprido. “Continuamos na luta”, afirma Felipe.

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Felipe Valentim, morador da Cohab Raposo Tavares e um dos organizadores da Festa do Sacy

A importância do parque passa também pelo seu local de instalação, em uma das áreas mais pobres da Cohab Raposo, como nos conta Felipe: “Esse parque não está aqui a toa. Se a gente for abrir o mapa da assistência social, esse lado é o que concentra o maior numero de pessoas pobres e desempregadas. Essas pessoas precisam ter sua auto estima elevada”.

A festa do Sacy é uma das ferramentas que ajuda nesse processo de pertencimento ao bairro e à cidade, estendendo o limite das moradias pra o que está além da sua porta. “Sua casa é o local que você gostaria de habitar”, concluiu Felipe.

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Centro de Memória

Realizado por professoras e alunos da EMEF Maria Alice, o Centro de Memória foi uma iniciativa criada pela ativista cultural e professora de História, Andrea Leão. O projeto nasceu a partir da percepção de que o bairro tinha muita história, a começar pelo nome das ruas. “Que comunidade dá nome para sua própria rua, para sua praça, para o seu parque e para sua escola? A partir disso eu descobri que tem um coletivo muito forte aqui que luta por tudo. Eles conquistaram o parque, as oito instituições de ensino do bairro, incluindo a ETEC e as duas creches. Podia chamar o centro de Povo de Luta, pois eles são muito guerreiros”, afirma Andrea. Depois do projeto ser premiado pela festa do Sacy em 2014, passou a integrar permanentemente a programação do encontro.

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A professora Andrea Leão, professora de História da EMEF Profª. Maria Alice Borges Ghion, que criou junto com os alunos o Centro de Memória da Cohab Raposo

Ao recolher as memórias individuais dos integrantes da Cohab, a professora passou a fazer um trabalho de recuperação e registro da história do bairro. “A idéia é que a memória não fique guardada, não é só o passado. É a memória em ação, revitalizando e valorizando a comunidade”, disse Andrea. Em consonância com a proposta da festa, o Centro de Memória traz, principalmente para as crianças da EMEF, a sensação de pertencimento ao local, e de entendimento que, a partir do momento em que se faz parte dele, é necessário ajudar no crescimento e nas lutas específicas da Cohab Raposo. Esse esforço contribui para a construção do que se entende como “bairro educador”.

Imprensa Jovem alternativa

Além de cultivar a memória do bairro, os alunos da EMEF Maria Alice também fazem jornalismo independente. O projeto Imprensa Jovem conta com o apoio de duas professoras e um aluno monitor, além dos estudantes interessados.

Com 13 anos, a presidente do grêmio e aluna Kerolym Aparecida é uma das comunicadoras mais atuantes. “O projeto é feito de terça e quinta na escola, de tarde. A gente se organiza na sala de informática, mexe no blog, promove festas e agora estamos fazendo um jornal falando da importância do bairro, entrevistando os moradores junto com o Centro de Memória”, explicou a aluna. As pautas sempre remetem às demandas do bairro e à valorização da cultura promovida por moradores e coletivos da Cohab.

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Kerolym Aparecida, de 13 anos, é presidente do grêmio da EMEF Profa. Maria Alice Borges Ghion e uma das comunicadoras do projeto Imprensa Jovem, promovido pela escola

A imprensa da EMEF Maria Alice também tem programação radiofônica. A Rádio Alternativa Jovem, também composta por alunos, fez parte da Festa do Sacy inserindo a programação musical do evento durante boa parte da manhã. Estimulados a pesquisar diferentes tipos de gênero musical, os alunos estão envolvidos em projetos de resgate de músicos da MPB. Orgulhoso, o professor Hugo valorizou a atuação dos alunos: “Eles mesmo fizeram projetos da Elis Regina, Tim Maia e Raúl Seixas. São estimulados de diversas maneiras a valorizar a cultura brasileira e do bairro”.

Nosso salve à mais uma das mídias alternativas de São Paulo, a Imprensa Jovem da EMEF Maria Alice.

Premiação

O evento também ficou marcado pela premiação do Troféu Sacy que, em todas edições da festa, lembra os coletivos e iniciativas que promovem a articulação e a valorização comunitária, além de abordar questões periféricas específicas. A Vaidapé foi um dos coletivos premiados. Deixamos aqui nosso agradecimento à todas e todos que realizaram o encontro e que promovem a cidadania no bairro da Cohab Raposo Tavares.

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