24 de novembro de 2016

Marãiwatsédé: a história de luta do povo Xavante no Mato Grosso não terminou

Por mais que os Xavante tenham retomado a terra e lançado um Plano de Gestão, a luta está longe de acabar na terra indígena de Marãiwatsédé

Por Paulo Motoryn
Fotos: Murilo Salazar

Na manhã desta quinta-feira (24), no Museu do Índio, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro (RJ), aconteceu a abertura do Lançamento do Plano de Gestão da Terra Indígena Marãiwatsédé, retomada definitivamente pelo povo Xavante quase 50 anos depois da expulsão da população de seu território original.

O Plano de Gestão é um documento que serve para melhorar a articulação e o diálogo dos Xavante com as instituições responsáveis pelo mapeamento, fiscalização e vigilância das terras. Além disso, publicação organiza e sistematiza um modelo produção e de vida que garanta a sustentabilidade e a diversidade ainda existente na região.

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No período de quase 50 anos sem que os Xavante recuperassem a terra por completo, Marãiwatsédé tornou-se uma das terras indígenas mais desmatadas da Amazônia Legal. Por isso, o Plano pretende reflorestar a área. “Com a agroecologia, nós podemos recuperar nosso território”, afirmou a Cacica Carolina Rewaptu, uma das integrantes da comitiva Xavante que veio ao Rio de Janeiro (RJ).

O Museu do Índio recebeu mais de 30 representantes do povo Xavante – que enfrentaram dois dias na estrada -, além de pesquisadores e representantes de entidades indigenistas e do poder público. Dentre elas, o Cacique Geral de Marãiwatsédé, Damião Paridzané. Ele fez questão de agradecer a todos os envolvidos na construção do Plano e comemorou o documento, mas não deixou de protestar.

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“Precisamos de muita luta ainda. Temos uma preocupação com esses políticos na Câmara dos Deputados, fazendo política contra nós. A política suja está acontecendo no Brasil. Os ruralistas estão pressionando os povos brasielros. Nossa luta não vai ser acabar, vamos brigar pelos nossos direitos, os direitos dos povos indígenas”, disse Damião.

A cerimônia no Museu do Índio ainda contou com a presença de Vânia, moradora de São Félix do Araguaia (MT) e que representou a Associação Nacional de Educação e Assistência Social Nossa Senhora da Assunção (ANSA). Ela é uma das herdeiras do histórico de resistência e militância de Dom Pedro Casaldáliga na região. O bispo sempre foi ferrenho defensor da retomada de Marãiwatsédé pelos Xavante.

MARÃIWATSÉDÉ_02-17A Operação Amazônia Nativa (OPAN), entidade indigenista parceira dos Xavante na construção do Plano e na retomada da terra, foi representada nos debates pelo coordenador geral Ivar Busatto, pela coordenadora técnica Lola Campos e pela coordenadora do Programa Mato Grosso da OPAN, Artema Lima. Os três cumpriram papel de mediar e apresentar os convidados de cada uma das mesas de debate.

A iniciativa da Rede de Sementes do Xingu foi apresentada por Claudinha Araújo, moradora de Santa Terezinha (MT), e Rodrigo Junqueira, do Instituto Socio-Ambiental (ISA). A Rede é uma alternativa para combater o desmatamento na região. A troca de sementes entre populações indígenas, ribeirinhas e assentamentos acelera a reconstrução da biodiversidade.

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Rodrigo Junqueira refletiu: “Marãiwatsédé talvez seja a maior diversidade socioambiental do Brasil e fica no encontro de duas bacias, a do Araguaia e a do Xingu. Só que nos últimos 10 anos, foi a região do Brasil que mais converteu pasto em soja. Precisamos resistir à cultura da monocultura. Querem nos condenar à realidade que a terra só pode ter boi e soja. É possível fazer diferente”.

O poder público se fez presente pelas representantes do Ministério Público do Mato Grosso e da FUNAI (Fundação Nacional do Índio), órgão indigenista ligado ao Ministério da Justiça. Além delas, Paulo Maldos, ex-secretário nacional de Articulação Social da Secretaria-Geral da Presidência da República no governo Dilma, esteve presente na celebração e falou da atual conjuntura política no país.

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Além dos debates, o lançamento do Plano contou com apresentações de dança do povo Xavante e com o lançamento de uma exposição fotográfica de Adriano Gamberini, que visitou Marãiwatsédé para fazer seus registros. Nesta sexta-feira (25), os Xavante seguem no Rio de Janeiro (RJ) e prometem fazer um ato de protesto em um dos lugares simbólicos da capital carioca.

A equipe da Vaidapé está no Rio de Janeiro (RJ) acompanhando o Lançamento do Plano de Gestão da Terra Indígena de Marãiwatsédé, a convite da OPAN (Operação Amazônia Nativa), uma das realizadoras do evento.

 

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