16 de novembro de 2016

Lívia Cruz: “Não existe inserção das mulheres no hip hop”


Em mais um episódio da série O que é o Rap?, a Vaidapé conversou com Lívia Cruz sobre sua carreira, as dificuldades em ser mulher no hip hop e a colaboração necessária para evidenciar cada vez mais as minas na cena


Por: Thiago Gabriel
Fotos: João Miranda

“Não existe inserção das mulheres no hip hop. A gente tá até hoje lutando bravamente pra estar simplesmente, pra fazer.” A frase de Lívia Cruz, uma das rappers que mais está em evidência atualmente, dá o tom do que ela tem pra dizer sobre o espaço das mulheres dentro da trilha sonora do movimento hip hop.

Na entrevista para a Vaidapé, a primeira representante feminina da série O que é o Rap? mandou um papo reto sobre as experiências, muitas vezes de silenciamento, que as mulheres encontram. Da desconfiança à falta de colaboração, dos MC’s machistas aos discursos esvaziados, Lívia Cruz mostrou porque é uma dos maiores nomes do rap nacional atualmente e uma das vozes de grande influência para os fãs do gênero, inclusive com vídeos em seu canal do YouTube em que comenta novos lançamentos e temas do rap e da vivência como mulher na sociedade.

Há 15 anos na estrada com seu trabalho, Lívia nasceu em Recife, onde teve a primeira aproximação com a cultura hip hop. “A primeira vez que eu entendi ‘isso aqui é um rap’, foi através das letras do Gabriel Pensador. Na época o rap ainda era muito didático. Aí eu descobri ‘isso é rap, eu já ouvia mas não sabia o que era’”.

A cidade natal vivia naquele momento a explosão de um outro movimento musical que, para Lívia, guarda suas semelhanças com a cultura hip hop. “Eu vivenciei pouco o hip hop propriamente de Recife. Na época tava muito forte o movimento manguebeat, mas eu sinto que era a mesma coisa ali, pelo menos para aquela cidade. Tinha aquela coisa da identidade, de ser gente nesse mar de cabeças.”

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Na busca por se estabelecer no rap, Lívia morou em algumas cidades até chegar em São Paulo, onde vive atualmente. Depois de participar de alguns grupos em Recife, a cantora tentou emplacar a carreira na capital federal, onde teve dificuldades com a cena do rap local.

“Em Brasília era muito mais machista, tinha uma dificuldade muito maior do que em qualquer outro lugar. Foi um lugar onde cortavam meu microfone. Aí eu decidi que não ia mais me apresentar lá se eu não fosse propriamente convidada, o que só aconteceu depois que eu vim pra São Paulo.”

Do centro-oeste, a rapper seguiu para o Rio de Janeiro, onde encontrou um cenário “muito mais liberal, pelo menos no bairro da Lapa, onde eu tava”. Por lá, Lívia conta que passou a receber o incentivo de quem estava à sua volta para seguir cantando. “Era uma galera de cabeça aberta que incentivava, não só eu como qualquer mina que tivesse no rolê, a cantar e gravar. Tanto que minhas primeiras gravações eu fiz lá.”.

Depois da passagem pelo Rio, a rapper chegou em São Paulo, onde enxerga que existe a maior concorrência entre artistas para levar seu trabalho para o público. “Nós somos um país que não valoriza a cultura, então as pessoas estão se digladiando por muito pouco. E isso é muito difícil pra estabelecer qualquer cena alternativa, não só no hip hop. Todo mundo que quer fazer alguma coisa diferente, fora do mainstream, fica numa briga louca, uma dificuldade de colaborar, e isso atrapalha. Isso que eu vejo em SP de um modo geral. Mas eu amo aqui.”

A trajetória percorrida por Lívia no rap ficou ainda mais conhecida do público depois que ela lançou a música “Eu Tava Lá”, em setembro deste ano. Classificada pela própria rapper como um direito de resposta ao som “Quem Tava Lá?”, do grupo Costa Gold, a diss, como são chamadas as músicas direcionadas para outros artistas da cena, causou uma grande repercussão e jogou luz sobre as letras misóginas, a convivência machista e o silenciamento das mulheres dentro do rap.

“Quando eu fiz o som eu pensei nisso: ‘eu estou fazendo uma música que vai marcar’. Precisava ser dito, e é a voz de muitas pessoas. Porque a gente é invisibilizada sistematicamente, não só por esses caras, mas por uma estrutura inteira que tá aí pra isso. Então meu direito de resposta é a tudo isso, a toda essa violência.”

A repercussão na internet foi imediata, e entre os muitos comentários característicos de nossa era digital, alguns direcionavam ofensas e ataques à rapper, muitas vezes com conteúdos misóginos e violentos. Aos ataques virtuais, Lívia respondeu em um vídeo bem humorado, gravado em sua casa, em que respondia alguns comentários e explicava a letra do som. “Muita gente comentou que era coitadismo, que eu tava me fazendo de vítima. Mas não é, o hip hop é luta. É batalha, é pra isso, num é porque eu sou a coitadinha, senão num tava fazendo rap caralho.”

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Gravidez, cooperação e tombamento

Nessa batalha, Lívia teve que enfrentar mais um preconceito e os olhares desconfiados quando ficou grávida, logo após o lançamento de seu primeiro demo. Aos 20 anos, a cantora não planejava se tornar mãe,. “Muita gente diz para as mulheres, todas não só do rap: ‘agora que ela teve filho, a vida dela acabou’. A gente escuta esse tipo de coisa, e às vezes fica numa situação tão difícil de cuidar da filha sozinha, que a gente acredita. E até girar a roda do mundo e voltar, já quebrou um pedaço bem grande da gente. Pra se reconstruir é bem foda.”

A reconstrução de Lívia se deu em grande parte pelo seu trabalho. As gravações da mixtape “Rotação 33”, com KL Jay, e o remix de uma das músicas pelo grupo de rap cearense Costa a Costa, foram lançados logo após a sua gestação, e incentivaram a cantora a seguir a carreira.

Com uma caminhada extensa nas costas, Lívia acredita na força de tantas outras mulheres que fizeram e se fazem ouvir dentro do rap. Para ela, a batalha pelo espaço é “como se fosse uma guerra”, e depende necessariamente da colaboração entre as rappers e da consciência de pertencimento dentro do gênero musical. “Eu acho que pra se estabelecer, e aí independe de gênero, o essencial é a colaboração. O que é muito difícil entre as mulheres é colaborar umas com as outras e colaborar com os homens sem que existam jogos de poder.”

Para se afirmar dentro da cultura machista do rap, uma das alternativas tem sido a segmentação do rap feminino quase como um gênero a parte, na busca por fortalecer uma cena que é constantemente silenciada no mundo do rap. Sobre esse movimento, Lívia afirma que é uma forma encontrada pelas mulheres para não se sentirem violentadas dentro da cena, mas atenta para a necessidade de encarar o rap como um espaço que pertence às mulheres.

“Eu tenho a sensação de que as mulheres estão 10 anos pra trás de todo mundo no rap. Aí a gente segmenta pra se fortalecer, mas ao mesmo tempo a gente tem que pensar que esse espaço é nosso, não que a gente tem que criar um nicho. Porque senão a gente vai ficar sempre esses 10 anos pra trás.”

O papo com Lívia vem sempre reto. A cantora não deixou de falar sobre a nova geração tombamento. Ela reconhece que não é seu lugar de fala, mas acredita que é preciso cuidado para não esvaziar o movimento e cair na lógica de mercado. “A gente tá testando os nossos limites, então as pessoas também tão indo em um radicalismo pra esse lado de dizer ‘o corpo é meu’, e aí mercantiliza esse corpo. Eu ainda tô preocupada com questões muito básicas, como feminicídio, aborto, creche para as crianças, eu ainda acho que esse é um trabalho de base que precisa ser feito. Tem umas minas que tão indo na rua completamente nua e elas acham que é isso aí. Eu não acho, não critico elas, que tem um outro lugar de fala, mas não é o meu. Empoderamento virou gíria, e eu acho que isso tá esvaziando o discurso. Eu vejo sim a mídia se apropriando desses movimento para mercantilizar produtos x para homens, mulheres, gays, etc.”

Com os dois pés na porta, Lívia Cruz mostra que as mulheres sempre estiveram lá na cena do rap, e seguem na batalha para assumir cada vez mais esse espaço.

Desde que começamos a fazer a série O que é o Rap? há três anos, entrevistamos várias figuras que são destaque no rap nacional para somar com os registros sobre o movimento e oferecer diferentes visões sobre o gênero para o público. Nessa trajetória, todas as entrevistas até agora haviam sido realizadas com MC’s homens. Reconhecemos a falha e a contribuição que tivemos para o silenciamento de todas as mulheres que compõem a cena. Lívia Cruz é a primeira de muitas expoentes femininas do rap que a Vaidapé irá conversar para a continuidade destes registros.

A RUA GRITA

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Crônica por: Luis Cosme* Fotos: André Zuccolo, Julia Mente e Gil Silva João Doria não anda … Continuar lendo Um Passinho à Frente, por favor.