08 de novembro de 2016

Palmeirense é quem paga? Torcida vai ocupar Turiassú contra bloqueio da PM


Nos dois últimos jogos, a Polícia Militar implementou um cerco no entorno do estádio do Palmeiras. O objetivo é evitar a aglomeração cada vez maior daqueles que não conseguem pagar os caros ingressos da nova arena


Por Paulo Motoryn
Fotos: Fernando Sciarra, Raphael Sanz, Reprodução/Twitter e Facebook

A construção do novo estádio do Palmeiras acompanhou uma retomada da boa fase do clube, que após ganhar a Copa do Brasil de 2015, está na liderança do Brasileirão de 2016, faltando apenas quatro rodadas para o fim.

No entanto, o novo Palestra Itália, que teve seu nome negociado com uma empresa de seguros e agora chama Allianz Parque, causou uma série de consequências na forma do palmeirense acompanhar seu time.

O jornalista Raphael Sanz, torcedor e frequentador dos jogos do Palmeiras desde a década de 90, afirma que “com a nova arena, muita gente que antes entrava no estádio hoje não tem condições financeiras”. O novo Palestra ficou pronto no final de 2014.

Por isso, segundo ele, cada vez mais torcedores passaram a se concentrar do lado de fora do estádio para acompanhar o jogo pertinho do campo de jogo:

“[As pessoas] ficam nos bares do lado assistindo às partidas. O que não é nada demais. Na verdade, é uma coisa normal em qualquer clube de futebol em qualquer país do mundo”.

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Carne na grelha, cerveja gelada e Palmeiras no telão: é assim na Rua Turiassú

“É um clima agradável, ameno. São crianças, jovens, idosos, homens, mulheres, todo mundo lá, de boa, tomando uma gelada, vendo o jogo, sofrendo nas más fases e comemorando nas boas”, lembra.

O BLOQUEIO

No entanto, nos dois últimos jogos, a Polícia Militar cercou os arredores do estádio. Para se aproximar, era preciso mostrar ingresso ou carteirinha do Avanti, o programa de sócio-torcedor.

A medida é chancelada pelo Ministério Público de São Paulo e tem como objetivo, segundo as autoridades, combater o comércio ilegal e reduzir o tumulto nas imediações da arena.

O presidente do Palmeiras, Paulo Nobre, apoiou a medida:

“Há tempos pedíamos à Polícia e ao Ministério Público que se organizasse a Rua Palestra Itália [novo nome da Rua Turiassú]”.

“Havia muitos furtos de celulares e carteiras, cambistas. Tivemos a experiência no jogo passado, soubemos que reduziu em 90% o número de fraudes com ingressos”, completou Nobre.

Em enquete com milhares de votantes no site GloboEsporte.com, a torcida palmeirense foi amplamente (95%) contra a decisão de limitar o acesso de pessoas nas ruas próximas ao estádio.

“Dizem que tem roubo de celular, violência, etc. Eu que frequento lá quase todo jogo, nunca vi, ou nunca aconteceu comigo ou com meus amigos”, argumenta Raphael.

A decisão do 2º Batalhão de Choque da PM em cercar o estádio também é motivada pela pressão de moradores da região. “Tem um grupo que não entende que o clube tá lá há 100 anos, muito antes de qualquer um deles”, continua.

ANTES DO CERCO
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DEPOIS DO CERCO
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É por isso que um evento nas redes sociais convoca os torcedores a ocuparem a Rua Turiassú com a Rua Caraíba. “Já não basta o palmeirense pobre estar privado de frequentar estádio, agora também estão nos privando de ocupar o espaço público e nos tirando o direito de ir e vir”.

OCUPA TURIASSÚ

“No dia 20 de novembro, contra o Botafogo, vamos lotar a Turiassú e mostrar que não nos curvaremos para essa arbitrariedade”, diz a descrição do ato no Facebook. Já são quase 3 mil pessoas confirmadas e outras 3 mil interessadas.

“Para o senhor Paulo de Almeida Nobre, palmeirense é quem paga. Os outros que se virem assinando uma TV a cabo. Ou seja: pra ele, o Palmeiras é uma puta. Amor e paixão não se compra, se nasce e se vive”, finaliza Raphael.

Mais do que a emoção da disputa do título, as próximas rodadas reservam à torcida do Palmeiras uma disputa importante pela reconquista do espaço público, pelo direito de ir, vir e amar seu clube do coração.

OS MORADORES

A presidente da Associação Amigos de Vila Pompéia, Maria Antonieta de Lima e Silva, deu uma entrevista no final do ano passado para o site UOL Esporte reclamando bastante da aglomeração.

“Está bem pior. São mais torcedores agora. Não tem onde colocá-los. As pessoas ficam para fora. O bairro todo está arrebentado por causa do Palmeiras. Antes eram 20 mil, na final foram 60 mil”, disse.

“Os foguetes deixaram todo mundo louco. Os vidros tremeram. Nossas casas perderam valor. Ninguém mais consegue viver aqui, nossa vida virou um inferno”, lamenta Maria Antonieta.

A POLÍCIA

De acordo com comunicado oficial da PM, “a medida é resultado da coordenação de esforços da Polícia Militar, da Sub-Prefeitura da Lapa [responsável pela fiscalização de venda irregular de produtos por meio de vendedores ambulantes], da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), da SP Trans e da Guarda Civil Metropolitana”.

A RUA GRITA

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