10 de janeiro de 2017

5 pixações históricas do centro de SP por Cripta Djan

Demos um peão com o pixador Cripta Djan pelo caótico centro de São Paulo pra sacar algumas das pixações mais importantes da região


Por Iuri Salles
Fotos: Rafael Prado

Djan é um dos principais nomes do pixo em São Paulo. No início dos anos 2000, brilhou na modalidade de escalada, quando o pixador escala os prédios pelo lado de fora. Depois de ter atingido seus objetivos no rolê como pixador, passou a registrar a cena. Ele participou do premiado documentário “Pixo”, apresentou seu trampo em galerias de arte na Europa e é uma das lideranças do grupo de pixadores “Os Mais Fortes”. Se liga como foi o relato dele durante o rolê da Vaidapé pelo centro de SP.


1. O prédio que era da Polícia Federal

Predio PF

Esse prédio aí era da Polícia Federal. Ele tá desocupado há quase uma década e representa bem a nossa ocupação aqui. Já tem quase 10 anos que abrimos um point dos pixadores aqui na Galeria Olido. E esse prédio aí, por ter sido da Polícia Federal, tem toda uma simbologia. Eu não cheguei a pixar ele, mas a galera do meu grupo pixou.Tá ali: “Os Mais Fortes”. Os primeiros a pegar o prédio foram o Gomes e o Jets [o finado Alex, assassinado pela PM de São Paulo enquanto pixava um edifício].

É como se o prédio fosse nosso cartão postal. Quando você chega no point, já dá pra ver ele. No dia que os moleques pegaram o prédio foi muito louco, porque tava todo mundo assistindo lá no point e a gente tava quietinho vendo os caras. Esse era um rolê pra se fazer de madrugada, mas eles fizeram no horário do point [21h], que é um pouco cedo. Olha como ele ficou. É um barato que todo mundo quer pixar, é o prédio da polícia federal.


2. O topo do Edifício Itália

edifício Italia

Esse edifício, pros caras da modalidade de pegar prédios, é a cereja do bolo. Os primeiros a pegar o topo do Itália foram os pixadores dos anos 90, o Tchentcho, Xuim, Batalhão, Apache. Mas foram poucos caras que fizeram esse prédio. Ali no topo foi o Jé, do “Mais Imundos”, e o “Dominius”, que não conseguiu terminar. Quando não termina de pixar conta também, velho. Só do cara ter subido lá e tentado fazer. Se ele tivesse deixado uma letra ali, a galera já ia saber que alguém tentou.

É muito louca essa ocupação, poucos tiveram o prazer de fazer esse edifício. Na modalidade de prédios, tem poucos picos que sejam equivalentes ao Edifício Itália. Tem o Banestado e tem o Conjunto Nacional, que só o DI e outro mano da zona sul pegaram. Antigamente tinha o lance que os caras não queriam pixar um prédio que já tinha sido feito por outro pixador. Os caras só queriam barato inédito. O DI mesmo nunca quis fazer o Itália, porque o Xuim já tinha feito e outros caras também.


3. A esquina da Xavier de Toledo com a 7 de Abril

Prédio de esquina

Aqui era o famoso point do Anhagabaú. Começou nos anos 90, com os office boys que paravam pra almoçar. Quando eu passei aqui a primeira vez só tinha pixação até o primeiro andar. Aí, a partir de 99, comecinho dos anos 2000, eu comecei a fazer bastante segunda [fazer a segunda é pixar o segundo andar do prédio].

E é tudo escalada, escalada de janela. A gente escala subindo por essas grades, pelo ar condicionado ou com o pé nas costas. Quando eu tava fazendo esse quarto andar juntou um monte de gente, até os seguranças ficaram admirando. Eles ficaram curiosos pra saber como a gente fazia aquilo e elogiaram quando a gente desceu. É uma das esquinas mais importantes de São Paulo, porque tem pixações de 1997, até mais antigas talvez. Por exemplo, esse RGS do Telo, no primeiro andar.


4. Um prédio na República

Prédio acidente

“Quando você sai com uma latinha de tinta na mão você está exposto a tudo, tanto ao risco de acidente durante uma escalada, quanto ao risco da repressão policial e da sociedade. Tem vários casos de amigos que foram assassinados, só que a gente não consegue provar. Por isso muita gente para”

Esse prédio tem uma janela de escalada, que é bem difícil de se fazer. O parapeito é descaído, não tem marquise, ou seja, não tem descanso. É realmente uma escalada bem difícil.

Infelizmente foi aqui que um integrante do meu grupo, o Laelson, que assinava LCT, caiu do quinto andar. Foi muito triste, porque o moleque tava no auge do rolê dele, tinha feito várias escaladas naquele ano e estava se consagrando, tanto no Cripta, quanto na história do pixo paulista. Foi uma noite de point e é uma noite que não teve fim pra gente. O outro pixador que tava com ele ficou no quinto andar e teve que chamar os bombeiros, saiu na TV e tudo.


5. Prédio próximo ao Terminal Bandeira no Centro de SP

Prédio DI

Aqui a gente tem um pixação do DI, um cara considerado referência máxima no movimento da pixação. Era um cara completo: tinha rolê de chão, quebrada, pico, prédio, ele era muito foda. Não tinha pra ninguém. Era uma espécie de Pelé da pixação, é o principal nome da década de 90, é um nome que jamais será esquecido. Ele morreu de uma forma trágica em 97, e se tivesse vivo estaria arregaçando, igual o KOP, igual o Zé, tenho certeza disso.

E esse prédio dele, num lugar simbólico como o Terminal Bandeira, é especial porque a gente sempre pixa as vias que levam da periferia ao Centro. E o terminal aqui leva as pessoas da Zona Sul para o Centro, então pixar aqui sempre foi importante. E eu acho muito louco ter um pixo do DI aqui, em volta de toda essa paisagem urbana, é como se fosse um patrimônio nosso da rua, eu torço para que nunca apaguem. E é daora que você vê esse prédio de muitos lugares, da Nove de Julho é visível, lá da Sé dá pra ver também.

 

 


Este texto foi publicado originalmente na 6ª edição impressa da Revista Vaidapé. Confira mais matérias e leia a revista completa aqui.
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