24 de janeiro de 2017

Alma Preta no Vaidapé na Rua: “É importante ter o domínio de quem conta a história”


“A gente faz parte desse processo da mídia negra, que sempre existiu no país como uma forma de resistência no debate público.”


Por: Thiago Gabriel

O Vaidapé na Rua do dia 16 de janeiro recebeu Andreza Delgado e Pedro Borges, do coletivo de mídia Alma Preta, nos estúdios da Rádio Cidadã FM, a comunitária do Butantã. Durante o programa, falamos sobre a representatividade negra na mídia, a crise do sistema penitenciário e as alternativas para a mídia independente.

Ouça o programa completo no player:

O Alma Preta surgiu em maio de 2015 para combater a falta de representatividade nos meios de comunicação e buscar outras narrativas para a população negra na mídia. O coletivo recorda, em seu site, que a presença de negros e pardos na mídia brasileia representa apenas 22% do total de profissionais, enquanto na população, 52,7% são afrodescendentes.

Com o objetivo de expor os conflitos étnico-raciais, combater o racismo institucionalizado e as opressões diárias sofridas por pretas e pretos no Brasil, o 16295228_1074751559318889_830009541_n
Alma Preta reúne jovens jornalistas. Recém-formado na Unesp de Bauru, Pedro conta que a mídia surgiu a partir de dois processos: “Um mais longínquo, que é o processo histórico da mídia negra no Brasil, que surge em 1824 no Rio de Janeiro com o jornal ‘O homem de cor’. O outro processo é um pouco mais recente, com a entrada de jovens negros nas universidades, então o portal Alma Preta é um reflexo direto da formação do coletivo negro dentro da Unesp”.

Para sobreviver com a construção da mídia negra no Brasil, o Alma Preta lançou uma campanha de financiamento colaborativo através de planos de assinaturas para contribuir com a produção de conteúdo do site. Além do apelo aos leitores, o coletivo também possui uma loja de produtos para, como explica Pedro, buscar uma possibilidade de financiamento para os jornalistas e colaboradores do portal: “Muitas vezes, dentro do movimento e da militância, a gente cai na precarização do trabalho das pessoas que tão correndo com a gente. A gente fica muito grato com quem colabora, mas temos o desejo de poder remunerar as pessoas com um valor que, mesmo que simbólico, seja uma forma de respeito.”

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Pedro ainda anunciou — em primeira mão no programa — que o Alma Preta pretende dar uma nova cara ao site, com o lançamento de um novo layout, mais moderno. No novo portal, a expectativa é abrir uma seção dentro da página para oferecer serviços de comunicação e assessoria de imprensa para empreendedores negros. “O modelo de negócio da publicidade, da grande imprensa, é um modelo morto. Se a própria grande mídia já está pensando em outros modelos de negócio, a gente também tem que estar ligado nessas coisas.”

Sobre a importância das novas mídias, Pedro comenta: “A mídia independente tem um papel muito importante na medida em que atua conjuntamente para entender o cerne do problema. Porque a gente, de maneira isolada, não arranha aquilo que é produzido na mídia hegemônica. Mas, a partir do momento em que esses sites entendem o epicentro do problema, eles possibilitam a construção de uma esfera pública radical, que se coloca de uma maneira oposta e em disputa de narrativas com a esfera pública hegemônica.”

Andreza Delgado é conhecida nos protestos de rua em São Paulo por sua luta em torno de diversos temas como o combate ao racismo, o feminismo inclusivo e o abolicionismo penal. Ela faz parte da Revista Capitolina, publicação independente voltada para garotas adolescentes que combate a cultura do machismo e do patriarcado, além disso também escreve para o Alma Preta e outros veículos de forma colaborativa.

Aos ouvintes do Butantã, Andreza comentou sobre a importância das mídias independentes: “Eu acredito muito nessa ideia, de que se a gente quer trazer uma visão sobre outras coisas, a gente tem que produzir, porque não serão eles (grande mídia). É importante ter o domínio de quem conta a história.”

Diante das recentes rebeliões em presídios brasileiros e da crise do sistema penitenciário, amplamente abordados na grande mídia, discutimos o papel da mídia na cobertura dos eventos:

“A mídia tem feito o debate sem colocar a questão do desencarceramento na ordem do dia. O Brasil, dentre os quatro países com maior população de presos, editorias-e1434378543357 é aquele que tem a maior gana de aumentar esse encarceramento. Nos Estados Unidos, principalmente, começou-se um debate pela diminuição da massa carcerária. No Brasil, esse ainda é um processo muito incipiente. O que está sendo pautado ainda é o encarceramento em massa. A gente deve ter um acréscimo do número de presos nos próximos anos, e a mídia vai alimentar esse debate, seja por meio do incentivo à construção de novos presídios, seja pela criminalização da comunidade negra.”
– Pedro Borges

Na tentativa de deslocar o debate sobre a população carcerária e de uma lógica punitivista, Andreza falou durante o programa sobre o abolicionismo penal, e pontuou as dificuldades em introduzir esse debate hoje em dia, inclusive dentro de movimentos de esquerda. “Um dia, vão deixar de tratar a galera do abolicionismo penal como louco”, explica.

Para Andreza, além de buscar melhores condições para os presídios, uma revisão na lei de drogas (responsável por 27% dos presos no Brasil)* e combater a criminalização da população negra (67% dos presos)**, é preciso rever a lógica punitivista que rege nossa sociedade: “Essa crise no sistema carcerário não é nova, e o jeito que a mídia tradicional anuncia essa crise é muito ruim. Vende-se o discurso de que são pessoas ruins se matando e que isso não tem problema. A gente não vai buscar soluções e é aí que a gente entra, trazendo estudos e trabalhando a questão do punitivismo, inclusive dentro da esquerda. O caminho é construir outra narrativa e construir uma lógica diferente.”

“É muito difícil levar, por exemplo, para dentro do movimento feminista, a tentativa de dividir o que é sentimento e o que é o raciocínio político. É muito difícil você virar para uma vítima de crime sexual e dizer ‘acho que a gente tem que pensar penas alternativas porque só encarcerar não dá’, quando a mina quer que o estuprador dela seja preso. É muito difícil, mas a gente tem que trabalhar de uma forma maior, não individualizar. Porque o encarceramento não funciona. Se você não tem um trabalho de base você só vai encarcerar, e vai encarcerar quem é pobre. E se você não tem frentes para trabalhar a questão do encarceramento você está alimentando o sistema.”
– Andreza Delgado

* Segundo dados do Infopen, junho de 2014
** Segundo dados do Infopen, junho de 2014

TRILHA SONORA:
Rincon Sapiência – A coisa tá preta
Froid – Negro é foda


|  O Vaidapé na Rua é transmitido ao vivo toda segunda-feira, às 20h, pela Rádio Cidadã FM. Na região do Butantã, o público pode acompanhar o programa sintonizando 87,5 FM e, no mundo inteiro, através do site da rádio. Acompanhe também a transmissão #aovivo pela página da Vaidapé no Facebook

Música, debate e Vaidapé!
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