19 de janeiro de 2017

Casa Raiz Libertária: de ateliê a centro cultural na periferia do Butantã


O espaço fica na zona oeste de SP e surgiu com o intuito de reunir músicos, skatistas, grafiteiros, permaculturistas e artistas de toda a região, que abrange diversas comunidades do seu entorno


Por: Thiago Gabriel
Fotos: Thiago Gabriel

Ao lado de uma das entradas do Parque Raposo Tavares, na altura do km 15 da Rodovia de mesmo nome, na zona oeste de São Paulo, a casa toda grafitada chama a atenção de quem passa pelo local. A caixa de água, mais ao alto, apresenta a palavra RAIZ pintada e os vizinhos e frequentadores do parque já estão familiarizados com a movimentação que acontece no terreno há mais de três anos.

No espaço – uma casa larga com miniramp, ateliê e um jardim onde florescem os frutos das oficinas de permacultura realizadas no local – funciona a Casa Raiz Libertária, um espaço cultural que abriga eventos, oficinas e abre as portas para fomentar a expressão artística das comunidades do entorno do parque. Ali, na periferia do Butantã, Sapé, Jd. Esther, Mandioquinha, Cohab Educandário, Guaraú, Jd. Jaqueline, Vila Borges e Jd. Nelly são alguns dos bairros que sofrem com a falta de equipamentos públicos direcionados para a produção de cultura.

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O terreno, que pertence ao Parque Raposo, estava abandonado desde 2007, quando passou a ser usado como depósito de entulhos pela administração. Foi apenas no final de 2013, porém, que a casa começou a ser ocupada por jovens artistas da região. Com o local em desuso, o antigo administrador do parque permitiu que o grafiteiro Diego Fagundes, morador do bairro, pintasse as paredes da casa. Diego convidou outros artistas para fazer daquele espaço um ateliê compartilhado, em que todos pudessem se expressar das mais variadas formas e interagir na construção de um ambiente coletivo.

“A gente foi juntando pessoas com interesses em comum. Todo mundo mora aqui perto, sente falta de aparelhos culturais na região. Aí nós fomos nos encontrando, enquanto pessoas, enquanto artistas, enquanto cidadãos que querem movimentar alguma cena cultural na quebrada”, conta Noemi Correia, musicista e artista, uma das primeiras a ocupar o espaço.

No início, a ideia de ateliê compartilhado tomou forma, mas logo os membros do recém-formado coletivo sentiram a necessidade de expandir as atividades para agregar cada vez mais pessoas da região. Jhair Rija, da banda Infestto, que também estava presente no início do projeto explica: “Começamos a criar as ideias juntos. A primeira coisa que a gente pensou foi fazer o miniramp e grafitar toda a casa. Depois, fizemos os eventos culturais.”

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Com a ocupação da casa estabelecida, e a realização dos eventos, Noemi conta que o grupo percebeu o potencial do espaço, e passou a trabalhar para criar um centro cultural para a quebrada: “É um espaço público, então a gente não pode ficar aqui sentado pintando o dia inteiro, fingindo que não tem uma pá de gente que não tem isso aqui. Uma das preocupações que a gente tinha em fazer eventos era movimentar pessoas: trazer a quebrada pra perto e levar a quebrada pra longe. Ter a nossa arte produzida e valorizada na quebrada.”

A concepção do espaço foi se alterando, e os eventos passaram a trazer cada vez mais moradores da região para perto do coletivo. Um dos projetos mais marcantes nessa mudança foi a idealização da oficina “Arte para a Comunidade”, em que artistas locais se reúnem para pintar os muros da comunidade e ensinar a técnica para grupos de jovens da região. O projeto já acontece desde 2014, e foi responsável por colorir as casas de muitos moradores do entorno.

Para a realização de atividades como essa, o coletivo conta com o apoio dos moradores e de comércios locais, que disponibilizam tintas e outros materiais a depender do evento que será realizado. Além da oficina, a Raiz também passou a organizar, dentro da Casa, batalhas de rimas, shows de reggae, rock, dub, maracatu, encontros de skate e graffiti e reuniões de mulheres da comunidade.

Com o aumento de público e das atividades no espaço, os moradores vizinhos da Raiz passaram a reclamar do barulho causado nestes eventos. A solução foi conversar com a vizinhança e juntar os membros do coletivo para a elaboração de um Estatuto da Casa, que estabelece, por exemplo, os horários de término das festas e a necessidade de organizar o espaço após os eventos.

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“É uma educação que a quebrada recebe por ter um pico onde a gente aprende a se relacionar de novo, ver o mundo de novo, conviver de uma maneira saudável. Como a gente faz pra viver diferente, na disciplina, com todo mundo se respeitando? É dando voz pra todo mundo. Todas as pessoas que passaram na Raiz Libertária a gente espera que, no mínimo, tenham se sentido a vontade pra botar a voz no mundo” – Noemi Correia

RELAÇÃO COM O PARQUE E PODER PÚBLICO

Com a crescente movimentação e o reconhecimento da comunidade, a Raiz Libertária passou a chamar a atenção da nova administração do parque, ao mesmo tempo em que os jovens que formavam o coletivo buscavam estabelecer a identidade do espaço.

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“E eu lembro que um dos medos que a gente tinha muito era de definir: ‘mas Raiz libertária é o que gente? é um coletivo? que que a gente faz?’ Porque às vezes a gente fica com medo de o que a gente sabe fazer não servir pra alguma coisa.” – Noemi Correia

Koelho também participa da organização da Raiz Libertária, e conta que a desconfiança dos administradores do parque com os ocupantes, “começa do preconceito com o nosso estilo. Eles olhavam e pensavam ‘ali é ponto de alguma coisa errada’”. Mas a Raiz (como é chamada pelos membros do coletivo) resistiu às pressões envolvidas e conseguiu marcar o território como um espaço aberto para as mais variadas expressões artísticas e culturais. Na caminhada pelo reconhecimento, o coletivo foi premiado pelo VAI (Valorização de Iniciativas Culturais), edital municipal que contempla moradores de periferia com projetos culturais.

Com a aprovação da Secretaria de Cultura, Noemi conta que o poder público e a administração do parque se viram em uma saia-justa para regularizar o uso do espaço. “Foi uma luta interna entre Raiz Libertária e Parque. Mas quando a gente ganhou o VAI precisava da assinatura de anuência do parque. A gente lutou por esse reconhecimento porque a gente percebeu que só o reconhecimento do povo, infelizmente, para esses caras (poder público) não é nada. Então, essa assinatura foi uma formalização, uma burocratização desse reconhecimento”.

A assinatura do parque veio, e possibilitou a realização do VAI. Com o edital em andamento e a anuência para o uso do terreno, a Casa se estruturou e finalmente conseguiu colocar luz no espaço, que antes tinha de puxar energia com extensões do próprio parque. Os eventos se expandiram e passaram a trazer mais retorno para a comunidade, o que também trouxe o apoio dos moradores. A autorização definitiva para o funcionamento, porém, ainda segue em trâmite na Secretaria do Verde e do Meio Ambiente. A gestão atual do Parque Raposo Tavares apoia a iniciativa da Raiz Libertária.

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Reunião do coletivo com o atual administrador do Parque Raposo Tavares

FUNCIONAMENTO INTERNO

Ao falar sobre o funcionamento interno do coletivo, Jhair lembra que a Raiz é um espaço em construção, aberto para a participação de novos membros. “Nesses 3 anos e meio passou muita gente por aqui. A gente nunca selecionou quem pode ficar e quem não pode, depende mais é da pessoa. À vontade ela vai estar sempre, mas depende da disponibilidade, da desenvoltura de cada um”.

Mas, para participar da gestão da Casa também existem responsabilidades, para não virar “bagunça” como lembra Noemi, “Não é quantidade, é qualidade. Tem gente que aparece de vez em quando mas soma pra caralho, e tem gente que aparece todo dia e não quer fazer nada. Ninguém recebe pra estar aqui, então todo tempo e energia que a gente demanda é nossa, a gente tá tirando de outro lugar.”

Atualmente, em torno de 10 pessoas administram as responsabilidades diárias na Raiz. As tarefas passam por organizar a casa, realizar eventos, propor atividades e buscar formas de financiar os projetos. O grupo vai se inscrever novamente na edição do VAI deste ano. Sobre as formas de financiamento atuais, Jhair explica: “Além dos editais, tem a venda de lanche e bebida em eventos e a gente continua pedindo doação de todos os tipos, seja de grana ou de material. Desde tinta, cimento, até papel higiênico.”

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O espaço funciona a partir do esforço de cada um para manter vivo o projeto, além da produção artística dos jovens, como lembra Koelho, “A gente pensa também que aqui todo mundo produz arte. Então cada um tem os seus corres individuais pra buscar uma grana, e esse espaço também serve pra fortalecer esses trampos individuais de cada um”. Ainda assim, a ideia do grupo é conseguir sustentar financeiramente a Casa e os membros do coletivo: “A intenção é que a gente consiga em algum momento ficar tranquilo em relação a isso. Acho que a luta de todo mundo é trampar com o que acredita, mas a gente sabe que isso tá muito distante ainda”, pondera Noemi.

Para isso, os jovens esperam conseguir a autorização definitiva de uso do terreno para que o projeto siga crescendo como uma experiência autônoma, independente de quem ainda esteja por lá. “Se a gente não conseguir mudar tudo, que a gente consiga não privar esse espaço. Que as pessoas consigam chegar até aqui e se sentir um de nós, ser bem recebido, conseguir produzir. A gente vai deixar outras gerações tocarem isso aqui, é isso que a gente quer, manter o espaço vivo.” É de sonhos como este, de Jhair, que a Casa Raiz Libertária se alimenta e resiste na periferia do Butantã.

“A Raiz Libertária é um pontapé pra uma forma diferente de viver no mundo. Por exemplo, o pessoal montou aqui a horta de permacultura, que é um espaço pequeno, não vai mudar o mundo, mas muda os hábitos. Ao ponto de isso não ser uma coisa anormal um dia. De uma outra mulecada que hoje tem uns 10 anos, um dia possa dizer que esse é um pico que tem no meu bairro, tem no seu. Porque a gente tem direito a isso, é um espaço público, é o mínimo” – Koelho.

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