12 de janeiro de 2017

Na várzea, irmãos gêmeos do Dínamo de Mauá são exemplo contra homofobia

‘Desde menino eu percebia que meu irmão era diferente de mim. Então sempre me acostumei com isso, desde pequeno, desde sempre. Aprendi a lidar com a diferença e muito disso devo a ele’

Por Marcelo Mendez
Foto: Andréa Iseki

A história do Dínamo passa por vários aspectos e histórias. Fundado em 1992, o time de várzea do bairro do Maria Eneida se transformou, com o passar do tempo, no mais popular de Mauá.

Além da numerosa torcida, é bem dirigido com um modelo de gestão administrativo/empresarial e engajado em causas sociais integradas ao bairro onde criou raízes. Mas uma das causas se destaca em especial. Para falar dela, os irmãos gêmeos Márcio e Marcelo Araújo toparam conversar com a nossa reportagem.

Marcelo Araújo é Marcelo Topeira. Presidente e fundador do Dínamo, Topeira é apaixonado, impulsivo, por vezes explosivo, de personalidade forte e muito conhecido na várzea da cidade. O ex-zagueiro voluntarioso do Itapeva sempre teve o sonho de ter sua própria equipe. A partir da luta pessoal, conseguiu isso em 1992 e com ajuda do irmão, Márcio.

Márcio Araújo é diretor do Dínamo, professor de Educação Física, pedagogo, estudante de letras, profissional da área de Educação Inclusiva, presidente do conselho tutelar de Mauá por dois mandatos e engajado na luta pelos direitos do menor e do adolescente, além de homem muito culto e educado. Márcio não é impulsivo como seu irmão gêmeo. Não explode como Marcelo, ao contrário, é calmo e sereno. Márcio é gay e ativista da causa LGBT, algo que nunca atrapalhou a relação dos irmãos.

“Desde menino eu percebia que meu irmão era diferente de mim. Então sempre me acostumei com isso, desde pequeno, desde sempre. Aprendi a lidar com a diferença e muito disso devo a ele. É meu irmão e sempre nos demos muito bem”, revela Marcelo.

No que diz respeito ao time do Dínamo e ao bairro do Maria Eneida, Márcio também se sente privilegiado.

“Na minha comunidade sempre fui muito bem aceito, independente da minha orientação sexual. As pessoas conhecem minha história, meu trabalho, atuo na proteção de minorias e me respeitam como tal. Seria muito bom se as relações fossem como são aqui.”

Preconceito x esporte

Com relação ao futebol de várzea e a questão LGBT, Márcio vê alguns progressos contra a intolerância, mas aponta a necessidade de melhorar o quadro. Diz que ainda se priva de algumas situações, e busca frequentar espaços onde sente que sua orientação sexual não será motivo de disseminação de ódio e ofensas contra ele ou o clube. Acerca do assunto, Márcio comenta sobe a inclusão do gay no mundo da várzea.

“Claro que o negro, por exemplo, é mais visado na várzea, porque o negro está ali representado e como tal, sofre com racismo. O gay não sofre na mesma proporção justamente por não estar ali na beira do campo. Quando estiver vai sofrer com preconceito. Basta ver o que se faz com provocações de torcedores que se “xingam” de bicha, viado, bambi. São manifestações claramente homofóbicas, que precisam acabar”, desabafa.

Sobre as possibilidades de mudança do atual quadro, ele é enfático: “O esporte é uma importante ferramenta para mudar qualquer tipo de coisa para o bem. No entanto, não vejo o esporte da cidade de Mauá capacitado para lidar com esse tema. Na atual conjuntura, com o esporte sucateado, não vejo condição para essa mudança ser efetiva”.

Diferente desse cenário, o Dínamo desponta como clube de maior poder de inclusão social na cidade. Todos são bem vindos e os dois irmãos comemoram isso.

“Claro que eu e meu irmão Marcelo temos nossas discussões, nunca por conta de homofobia. Quanto a isso, sempre foi muito tranquilo. Queríamos que em outras famílias as relações fossem como a minha e de meu irmão”, sonha Márcio.

A matéria foi publicada originalmente no ABCD Maior e enviada pelo autor à Vaidapé como colaboração.
A RUA GRITA

Os direitos humanos frente à Cracolândia

Por: Isabel Rabelo  Problemas sociais e falta de políticas públicas abrem espaço para violações em … Continuar lendo Os direitos humanos frente à Cracolândia