09 de janeiro de 2017

Sobre o Natal e a dignidade nas ruas de São Paulo

Os moradores do Jaguaré, a Cracolândia e o objetivo de superar um grande obstáculo: fazer com que “aqueles que moram no asfalto olhem as comunidades com respeito e dignidade”

Por Mayte Albardia
Fotos e vídeo: Mayte Albardia

São Paulo. Zona Oeste. Jaguaré.
Interior – Noite.

“Jacobo, por favor? O pai do seguinte time, venha aqui com os filhos: Rebecca, Vitória, Pedro e Ricardo!” exclama um homem negro de uns 40 anos, vestido com roupas formais. O microfone que sustenta entre as mãos faz com que todos os sentidos das pessoas ali presentes se concentrem nas palavras dele.

Ante o chamado, quatro pares de pés semi-descalços aproximam-se com jeito tímido desde o fundo do salão. Quem os segue é o ‘treinador’, um pai de família recém chegado –depois de dez horas de trabalho e duas de deslocamento – ao lugar que hoje acolhe todos eles para jantar.

Nos dois lados do corredor humano que vem se formando, crianças de todas as idades aguardam ansiosas a sua vez. Essa noite, ao final do caminho, o destino é diferente. Papai Noel acabou de chegar, carregando Um Natal + Feliz para uma das 1.700 favelas de São Paulo.

Sentada ao lado do barbudo de fantasia vermelha fica sua principal cúmplice, Urideia. Não teve tempo para vestir traje a rigor. As roupas dela são confortáveis, para conseguir localizar com agilidade os presentes que cada família vai receber. Todos os membros da comunidade afirmam conhecê-la, ‘a moça dos eventos’, aquela que sempre traz alegrias com as novas notícias. Ela, sempre se faz chamar Deia, para ganhar um pedacinho da confiança de cada um dos moradores da favela.

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Deia sonhava com aquele momento, agora sorri por tempo completo. Hoje, ela pode dizer que é a responsável pela esperança do Natal que chegou à Vila Nova Jaguaré, a favela que 15 anos atrás converteu-se no seu novo lar.

“Eu nasci em uma pequena cidade de Rio Grande do Norte, no nordeste do Brasil, onde fui criada pela minha avó. A minha mãe me deixou com dois meses de nascida e veio para São Paulo na procura de uma vida melhor”, igual ao movimento feito por Deia aos 16 anos de idade.

“Morei com os meus irmãos, tios e primos, em um total de quinze pessoas e, em muitas ocasiões, a única coisa que conseguia matar a nossa fome era um escaldado, um copo de leite com farinha que a nossa avó dava para a gente, para evitar que vivêssemos com o estomâgo vazio”. Não obstante, ao nível estrutural, as coisas não foram tão mal. Ela morava em uma casa grande com quintal onde “apesar de muitas privações, brinquei e fui uma menina feliz”, afirma.

Quando Deia chegou à Vila Nova Jaguaré, realmente conheceu o que era uma favela, pois só tinha ouvido falar da existência daqueles recônditos lugares na escola. Naquela época, esta comunidade de mais de 42.000 habitantes –segundo os dados do último censo do IBGE – era considerada uma das mais perigosas da região, “mas em um certo momento da minha vida eu decidi que aqui iria construir uma nova trajetória da minha vida”, diz ela.

Deia se formou em gastronomia, trabalhou em vários restaurantes de alta cozinha e conseguiu entrar na Gastromotiva, uma escola fundada no ano 2006 pelo chef David Hertz, que abandonou o cargo em um restaurante de São Paulo para ensinar a arte de cozinhar à jovens da periferia. Hoje, ele é o fundador do primeiro projeto social que utiliza os alimentos como uma ferramenta para promover a educação, o emprego e a geração de renda nas zonas de alta vulnerabilidade.

Mais tarde, Deia relacionou-se com grandes empresas e viajou pela Europa, a Arábia Saudita, os Estados Unidos e o México, com o objetivo de conhecer diversas experiências, mas acabou por empreender o seu próprio negócio na favela. Há cinco anos atrás, nasceu o Ideia Buffet, onde Deia trabalha para o desenvolvimento da economia local da Vila Nova Jaguaré, oferecendo oportunidades de trabalho à muitos moradores desempregados.

Dessa forma, através da cozinha, ela passou a se relacionar cada vez mais com a comunidade, no mesmo período em que uma das áreas mais afetadas da favela sofreu um grave incêndio, “no qual mais de 400 famílias perderam tudo o que não tinham”, afirma entristecida. Desde então, ela se dedica a “cuidar das pessoas” e levar dignidade para quem mais precisa dela.

Um Natal + Feliz foi a ultima ação social com a que Urideia conseguiu dar mais um passo para a frente: mostrar para o mundo que um Natal diferente também é possível na periferia do Brasil. Nesse dia 21 de dezembro, numerosas famílias foram acolhidas em um jantar repleto de comidas especiais e receberam uma cesta básica e vários presentes para desfrutar um Natal de verdade.

Tudo foi possível graças à colaboração de ONGs, empresas e instituições, que se uniram para tornar realidade o sonho de todas aquelas famílias que poucas vezes se permitem desejar alguma coisa ‘a mais’. JAM, uma empresa de consultoria em inovação social liderada por quatro jovens empreendedores, foi a responsável por apadrinhar a maior parte das famílias, patrocinando o evento. Espaço Urbano, ONG que trabalha na comunidade através da arte, cultura e lazer, aproximou vários voluntários. E, por último, a Rede do Bem, da qual Urideia faz parte, procurou um lugar apropriado e selecionou às famílias beneficiárias da ação, entre as 14.000 pessoas que vivem em situação de extrema pobreza na favela.

Toda uma rede articulada para ajudar os moradores da comunidade a superarem o maior dos obstáculos: conseguir que “aqueles que moram no asfalto nos olhem com respeito e dignidade. Que eles nos olhem como pessoas que também batalham para vencer, que nos dêem oportunidades para a gente mostrar que quem mora na favela não é só bandido ou traficante. Porque todos nós somos iguais, independentemente de viver no morro ou no asfalto”, sentencia Deia.

São Paulo. Zona Centro. Cracolândia.
Exterior – Noite

Ainda é 21 de dezembro, o Sol pôs se, de novo, depois das 19h e, também como cada dia, as mais de 16.000 pessoas sem-teto que povoam as ruas de São Paulo começam a se refugiar atrás dos papelões e cobertores que conseguiram nas lixeiras mais frequentadas da cidade.

Entre os quatro paus de madeira que delimitam aqueles quartos ao ar livre –com vista para a rede do esgoto- centenas de crianças, mulheres e homens que ocupam as principais ruas de Cracolândia tentam conciliar o sono, em mais uma noite. Contudo, aquela foi uma noite especial.

Ao longo das ruas de asfalto da cidade, também na época do Natal, alguém distribuiu uns pedacinhos de luz, respeito e dignidade. SP Invisível, coletivo formado em 2014 para dar voz àqueles que nunca foram escutados, bateu na porta de cada praça, parque ou ponte ocupado, para entregar um presente à milhares de pessoas que, um certo dia, deixaram de existir para a sociedade.

“Meu nome é Lindomar, mas a galera me chama de Eller. Cara, hoje tô me sentindo em paz, tô bem tranquilo. Aqui na rua é muita dor de cabeça, sabe? É bom ter momentos como esse em família, depois tomar um banhinho, trocar de roupa. Você lembra que você é gente”

“Meu nome é Bruno. Tenho 30 anos de idade e 18 anos aqui de rua. Quando os meus pais descobriram que eu era homossexual, me jogaram pra fora de casa”

“Chamar a gente pra comer dentro de uma casa é diferente do que distribuir a comida na rua. É a mesma comida, mas lá não é lugar de gente, aqui a gente tá confortável, em família.”

As falas acima foram apenas algumas das sentenças das mais de 1.000 pessoas em situação de rua que desfrutaram do Natal Invisível. A ideia foi montar uma ceia financiada de forma coletiva, celebrada em parceria com o NOU Restaurante e a ONG Missão CENA, para aliviar a dor, encher os estômagos e acabar com a indiferença diante da situação dos sem-teto que vivem sem nenhum tipo de cuidado ou atenção social.

O Natal Invisível surgiu para continuar somando histórias aos mais de 500 relatos que os principais responsáveis do coletivo, Vinícius Lima e André Soler, tem divulgado desde que começaram a retratar a outra cara de São Paulo através das redes sociais. Eles afirmam que naquela noite também realizaram um dos seus sonhos: “passar o Natal com as pessoas que a gente passa o ano inteiro”.

O evento natalino vai ser lembrado para sempre nas paredes da cidade, graças a Apolo Torres, famoso artista urbano que aceitou o convite para pintar um mural baseado em uma releitura da Santa Ceia com a situação dos moradores de rua de São Paulo.

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São Paulo. Zona Oeste. Pinheiros.
Interior – Noite

As famílias da Vila Nova Jaguaré despediram-se da Deia, levando para casa os restos do jantar, para variar o arroz e feijão que os enchem de energia cada dia das suas vidas.

Os Invisíveis da Cracolândia voltaram para os seus quartos, para desfrutar da dignidade que este 21 de dezembro nutriu às suas vidas com força para superar o inevitável porvir de abandono que, de novo, lhes aguarda amanhã.

Por cima de todos eles, voa um helicóptero que atravessa o céu da cidade. O do pai de outro protótipo de família brasileira, que nem naquele 21 de dezembro –como no Jaguaré ou na Cracolândia-, nem na tradicional noite de Natal, conseguiu chegar a tempo para jantar junto aos seus entes queridos. Ele viaja cada três dias para qualquer afastada sede da multinacional da qual é proprietário, para administrar o seu legado – hoje negócio – familiar.

A realidade é que no meio de um Brasil agitado, marcado pela desigualdade social, os moradores da periferia e os moradores do asfalto da cidade deram, de novo, uma lição de vida à todos os habitantes de São Paulo.

Um Natal + Feliz é “poder comer”, para Jacobo; “viver em paz” para Eller; “existir”, para Vinícius; ou simplesmente “ter dignidade, em qualquer lugar” para a minha querida Deia.

A RUA GRITA

Um Passinho à Frente, por favor.

Crônica por: Luis Cosme* Fotos: André Zuccolo, Julia Mente e Gil Silva João Doria não anda … Continuar lendo Um Passinho à Frente, por favor.