06 de fevereiro de 2017

Conheça a história do coletivo de graffiti Imargem, na zona sul de SP

 

Em um momento em que o debate sobre os muros da cidade, sobretudo no região central, se intensificou, a Vaidapé conta a história do coletivo de graffiti Imargem, de artistas da zona sul de São Paulo


Por Patricia Iglecio
Foto em destaque: Facebook Imargem

O projeto “SP cidade linda”, do prefeito João Dória (PSDB), que vem sendo implementado desde o início de sua gestão, em janeiro desse ano, tem promovido ações que visam “limpar” a cidade. Dentre elas está a tentativa de pintar de cinza graffitis e pixos dos muros de São Paulo.

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Para sustentar esse projeto, Dória intensificou a histórica perseguição de grafiteiros e pixadores. Na semana passada, por exemplo, o grafiteiro Mauro Neri, artista do movimento Imargem, foi preso ao tentar restaurar um de seus graffitis, destruído pela prefeitura. Em entrevista à Tv Câmara, após a primeira Sessão plenária do ano na Câmara Municipal de SP, Mauro foi contundente em sua crítica a gestão e a histórica criminalização de pixadores:

“Precisamos lidar melhor com as diferenças porque a denominação do que é Graffiti e Pixação tem ocorrido principalmente para atribuição de valores. Ou seja, quando se gosta se chama de Graffiti, quando se gosta muito se chama de Mural e quando não se gosta se chama de Pixação. Precisamos de mais escuta e trabalhar nisso de uma forma mais antropológica e com potencial dos espaços públicos voltado para a educação e formação de opinião”, disse.

Veja o vídeo do graffiteiro Mauro na sessão com o atual prefeito

Conheça a história do Imargem

Dentro dos movimentos que atuam no extremo sul de São Paulo, está o coletivo Imargem, que reúne artistas e grafiteiros do Grajaú. Wellington Neli da Silva, mais conhecido na quebrada como Tim, nasceu na região do extremo sul e conta um pouco sobre a trajetória do coletivo. “Especificamente, sou do bairro do Jardim Lucélia, que é um bairro vizinho. A gente está aqui no Bororé, e é nesse contexto que eu me criei, sou filho da cultura hip hop. Nasci e cresci no contexto dos letramentos urbanos. Faço graffitti, tenho a cidade como tabuleiro para intervir e me relacionar com as pessoas”, diz.

Tim conta que no início dos anos 2000, artistas se reuniram para pensar em uma produção coletiva de grafite. “É um coletivo de artistas, educadores, pesquisadores, advogados, biólogos. Maloqueiros também tem muitos. Enfim, pessoas. Imargem é fusão da palavra margem com imagem”, explica Tim, que participa desde o início do projeto.

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Graffiti do artista Mundano, na Casa Ecoativa, no extremo sul de São Paulo

Os integrantes do coletivo se denominam “agentes marginais”, trazendo a ideia de pessoas que agem a partir da margem, mas dão centralidade a ela. Embora o extremo sul compreenda uma extensa área de periferias, é uma região de grandes interesses econômicos por estar na divisão entre a área urbana e o pouco que restou do rural em São Paulo.

“Fomos criados na represa, fazendo as trilhas. Nós chamamos de trilhas verdes, que são as entradas para o mato, para se pendurar no cipó, pegar morango silvestre. O lugar que a gente vive tem características muito ímpares em relação a todo o estigma que carrega São Paulo. A cidade de pedra, cinza. Cidade endurecida”

– Tim.

Tim explica que, embora o Imargem tenha uma ligação forte com o grafite e o hip hop, a ideia é se relacionar com diversas linguagens. Pagodeiros, funkeiros, escultores e agricultores, todos são bem vindos.

Em 2006, Mauro captou toda a movimentação que aconteceu ao longo de seis anos de artistas no extremo sul e escreveu um projeto que foi contemplado pelo PAC, atual Proac,  edital de fomento a cultura do governo do Estado de São Paulo. Dali nasceu o nome “Imargem” que passou a reunir diversos artistas da região. A ideia era criar arte e intervenções em um trecho de 900 metros da represa Billings e desenvolver oficinas dentro da comunidade a partir dos três eixos que norteiam o projeto: arte, meio ambiente e convivência.

Tim conta que foi nesse momento que se desenvolveu um projeto com uma intensão mais clara. A relação com o território da Ilha do Bororé, comunidade localizada às margens da represa Billings, sempre foi “afetiva” . Dentro desse contexto, a casa de cultura Ecoativa, espaço de ação comunitária que promove ações culturais e ecológicas, é palco de grande movimentação do Imargem.

Isso porque as metodologias do coletivo tem como norte a convivência e atua, principalmente, com grupo de jovens. Um dos projetos desenvolvidos no Bororé foi o mural memória, em que os jovens pesquisaram com os moradores mais antigos a história do bairro, e junto com os grafiteiros pintaram um muro na estrada da balsa em direção a igreja da cidade, que narra o processo de colonização da ilha.

Já o mural-mapa, outro projeto do Imargem, consiste em intervenções que mapeiam de outra forma a cidade. “A gente não sabe o que existe na rua debaixo. Muitas vezes a rua debaixo da nossa casa é um puta point cultural, ou então um posto de saúde. As pessoas não sabem, de repente, que tem uma campo de futebol do lado do lugar onde mora”, explica Tim.

Ele diz que muitas vezes a ferramenta da internet google maps não abrange as ruelas da quebrada, e o Imargem levantou com os jovens nomes de ruas que são popularmente conhecidas com um nome, mas no google estão com outra.

“Daí a gente ia lá e fazia um graffiti com o nome certo. Então o moleque aprendia as técnicas do grafite, mas ele não aprendia com aquele caráter radical, também é style, mas o graffiti não é só aquele enlatado que a gente importa da gringa para aqui. E a ilha do bororé sempre foi um território que o Imargem sempre esteve presente, trazendo essa perspectiva de entender o lugar. A gente faz muito as trilhas verdes, entramos no mato junto com os jovens para entender a natureza, ouvir o silêncio, o barulho dos bichos. Depois a gente ia também para as quebradas, entender o que tem dentro das quebradas, que são as trilhas urbanas.”

Atualmente, o coletivo também criou atividades complementares dentro da escola do Bororé. Muitas pessoas até hoje não entendem o que o Imargem faz, porque dentro dos três eixos a convivência, a relação com as pessoas, é o principal.

O artista reforça que o coletivo não tem a pretensão de se fazer compreendido, a motivação é que a arte alcance, sensibilize e que a ideia da imagem faça com que a relação das pessoas com o território em  que vivem seja “um pouco melhor”.

“O espaço para fora das casas, da propriedade privada, é de todo mundo. A quem pertence os muros da cidade? A quem pertence os muros administrados por prefeituras, estados, ou mesmo pelas empresas? As portas de aço, os muros cinzas, cor de concreto, escurecem as noites da cidade”, conclui Tim.

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