22 de fevereiro de 2017

Conheça a história do Jornal da São Remo e a relação da comunidade com a USP

Professor de jornalismo da USP relata história do jornal comunitário e analisa a relação da universidade com a São Remo


Por Patricia Iglecio
Fotos: USP Imagens

Criado no início da década de 90, o jornal da São Remo é uma iniciativa do curso de jornalismo da Universidade de São Paulo (USP). O projeto é realizado entre professores, alunos e moradores da comunidade que divide muro com o campus universitário.

O professor da USP, Dennis Oliveira, editor da publicação desde 2003, conta um pouco sobre a história do jornal e a relação que se estabelece com a comunidade da São Remo. “O jornal é feito em uma disciplina introdutória do curso de jornalismo. Na época em que começou, ainda não tinha o muro que separa hoje o campus da cidade. Inclusive, durante um certo tempo, o circular entrava na São Remo. Foi a partir disso que se decidiu fazer o jornal para a comunidade.”

No começo, a publicação era pregada em alguns postes, murais de aviso e chegou a ser o jornal oficial da Associação de Moradores da São Remo. Os alunos se reuniam com os diretores da Associação e discutiam pautas. Segundo Denis, algumas dificuldades distanciaram essa relação e, embora a Associação participe, hoje já não é mais o jornal oficial. As reuniões de pauta, no entanto, continuam acontecendo com os moradores, o que permite uma maior participação deles.

No início dos anos 2000, quando o jornalista Leonardo Sakamoto entrou no projeto, o jornal deixou de ser um mural e passou a ser impresso, distribuído gratuitamente entre os moradores, com o tamanho tradicional.

Ao assumir a editoria, Dennis conta que realizaram uma pesquisa com a comunidade para saber qual tamanho era mais adequado, e ele ficou menor. “É um jornal mensal. Sai oito vezes por ano, nos meses letivos, com uma tiragem de 16 páginas.”

“Criamos uma sessão de debate e entrevista, porque tínhamos dificuldades de receber cartas dos moradores e queríamos um espaço que fosse uma sessão deles. Daí escolhemos uma temática e fazemos um debate com os moradores. Geralmente, algo da atualidade, que está em pauta na mídia“, explica o professor.

A sessão “A comunidade” traz divulgações sobre a luta, reivindicações, ações da prefeitura e melhorias para a são Remo. Já a “São Remando” é sobre cultura e publica a agenda cultural da comunidade. O jornal também traz notícias de esporte, especialmente o futebol, mas abre espaço para outras modalidades que são praticadas no bairro, como o vôlei.

“Mas a sessão de maior sucesso é a São Reminho. As crianças disputam o jornal quando ele chega porque elas amam. Nós fizemos uma pesquisa e descobrimos que elas são as maiores fãs mesmo, e essa é a parte que dialoga com elas”, conta Dennis. Para ele, há uma identificação dos moradores com o jornal. E isso se expressa tanto em grandes eventos, como em particulares.

Por exemplo, relembra acerca de uma das distribuições, quando estava com os alunos em um bar que é frequentado apenas por mulheres, e uma delas perguntou o que era o jornal. “Eu disse que era o jornal da São Remo, e a amiga dela que estava ao lado confirmou: ‘É o jornal da comunidade.'”

Segundo o professor, há dois anos, em um período de intensificação das ações da Polícia Militar nas favelas de São Paulo, foi perceptível a diferença de cobertura da grande mídia com a do jornal comunitário, espaço em que a perspectiva do morador é apresentada. Na época, a instituição militar encabeçou uma serie de prisões e invasões de casa de moradores sem mandato.

Relação com a USP

Embora existam benefícios para a São Remo pela proximidade com a USP, como o hospital universitário, ela divide todos os problemas comuns de comunidades periféricas do Brasil. “A proximidade com a USP tem algumas vantagens, como o hospital, escola, projetos que são desenvolvidos lá. Agora, ao mesmo tempo em que você tem propostas interessantes, por outro lado é uma ação autoritária, já que é uma ‘comunidade laboratório’. Acaba dificultando a organização dos moradores entre eles.”

A produção do jornal trouxe muitos aprendizados também com relação às especificidades da São Remo, por ela ser relativamente pequena em relação a outras favelas, comportando cerca de 13 mil pessoas. Uma das questões percebidas pelo professor é a desigualdade entre os moradores. Segundo ele, com a política de desfavelização do centro de São Paulo, muitas famílias se deslocaram para a São Remo, inclusive por sua proximidade com a região central. “Estas pessoas ficam mais desamparadas do que os moradores mais antigos, que muitas vezes alugam suas casas e estabeleceram comércios que abrangem a cidade universitária”, reflete.

Na perspectiva de Dennis, o que é interessante observar é o protagonismo feminino. “Em movimentos políticos mais institucionalizados, como MTST, os líderes são homens. Mas em movimentos comunitários, a base é feminina e negra. E muitas vezes esse cenário não tem tanta visibilidade. Os movimentos sociais clássicos e partidos de esquerda não conseguem perceber isso.”

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