20 de fevereiro de 2017

Ex-funcionários do Seta explicam ocupação do mercado, calote dos patrões e silêncio da mídia

Desde o início do ano, o Grupo Seta já fechou 28 supermercados e demitiu mais de mil funcionários sem pagar indenização. Como forma de protesto, ex-funcionários ocupam as unidades para que o pagamento aconteça


Por Thiago Gabriel
Fotos: Reprodução

greve mercado 01

O primeiro Vaidapé na Rua de fevereiro recebeu ex-funcionários da rede de supermercados do Grupo Seta.  Alguns trabalhadores declararam greve contra o fechamento do estabelecimento sem qualquer pagamento de indenização e nem de salários atrasados. Paulo Roberto, Gisele Ferreira e Laize Lopes ocupam a frente da filial do Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, desde o dia 24 de janeiro.

O Seta Supermercados já fechou 28 lojas, sete apenas na cidade de São Paulo, e já foram demitidos 1.180 trabalhadores, de acordo com o Sindicato dos Comerciários. Na grande maioria dos casos, a situação do Capão se repetiu, com a negação dos pagamentos devidos aos funcionários.

Durante a transmissão do programa ao vivo no Facebook da Revista Vaidapé, recebemos mais de 50 comentários de ouvintes. A grande maioria vinha de ex-funcionários de diversas lojas em todo o estado, relatando que estão na mesma luta pelo pagamento dos direitos por parte do Seta, assim como acontece na loja do Capão Redondo.

O DJ Pae Vito tocou o som de protesto à situação, a música Burgueses Salafrários do rapper Ka’Oz, ex-funcionário do Seta. A mobilização pode ser acompanhada pela página do Facebook O Seta Vai Ter Que Pagar, criada pelo movimento.

Ouça o programa completo no player:

Paulo era o terceiro no comando da filial do Capão. Foi também um dos primeiros a serem mandados embora. Explica os acontecimentos que levaram à ocupação da loja. “O Seta vem numa caminhada ruim desde outubro. Desde então eles vem atrasando vale, pagamento, 13º. Todas as obrigações que eles tinham com os funcionários não vinham cumprindo. Estão com calote de R$83 milhões com fornecedores, ou seja, na rede não chega mercadoria. Sem mercadoria, não tem venda e não tem como pagar os funcionários. No primeiro corte, foram mandados embora 32 funcionários. Quando a gente ia receber o valor da rescisão, isso não aconteceu.”

“O pessoal do movimento estudantil, Sindicato dos Metroviários, vários movimentos sociais estão fortalecendo a gente sim. Principalmente os estudantes. Eu era um dos caras que não entendia nada na época que eles ocuparam as escolas, mas hoje em dia eu percebo a força dessa galera e vejo que essa nova geração chegou pra quebrar mesmo, eles são zica”

– Paulo Roberto, ex-funcionário do Seta

A partir do descaso do Seta e a falta de informações, as trabalhadoras e os trabalhadores ocuparam a unidade Capão. “Na calada da noite eles tentaram desmontar a loja com 13 caminhões e 100 funcionários. Não conseguiram, os vizinhos nos avisaram. Nós travamos a entrada do mercado e bloqueamos a saída de mercadorias. Assim que a gente viu que os caminhões estavam vazios, a gente dispensou eles e desde então a gente ocupa a frente da loja sem deixar eles tirarem as mercadorias e cobrando um posicionamento”, explica Paulo.

O movimento cresceu e ex-funcionários de outras unidades fechadas somaram à luta. Gisele resume o sentimento diante dos apoios recebidos. “Eu nunca imaginei a grandiosidade que ia virar tudo isso. A gente não tá se sentindo sozinho. São vizinhos, ex-clientes que levam água, lanches e estão se comovendo com a nossa situação. É uma situação de crise cada vez maior, se contar todas as lojas, são mais de mil funcionários mandados embora.”

greve mercado 02

A situação do pagamento, no entanto, pouco mudou. “Ofereceram pra gente pagar a rescisão num valor parcelado, em até 15 ou 20 parcelas. Isso é um absurdo. Eu sou pai de família, tenho dois filhos e minha filha não aceita receber leite parcelado”, diz Paulo.

Os ex-funcionários se revoltaram ainda mais com algumas atitudes dos donos da rede de mercados. O site da empresa, que antes funcionava perfeitamente, passou a exibir mensagem de “em manutenção” a partir do movimento iniciado pelos ex-funcionários. A falta de posicionamento ainda veio acompanhada de declarações dos responsáveis como um comunicado emitido pela rede afirmando que: “Não há falência, apenas uma crise momentânea”.

Paulo reponde a este tipo de informações. “Balela, é pura balela. O que está acontecendo foi uma má administração. Tem rolado um áudio do Recursos Humanos da loja de Itaquera dizendo que as lojas de São Paulo vão ser fechadas porque o pessoal do Capão Redondo tá fazendo essa bagunça. Isso é um desatino, um desaforo. A gente começou o protesto porque a gente não tava recebendo. Quando a gente ouve esse tipo de coisa dá raiva, dá vontade de queimar tudo e partir pra cima.”

“Quando eu vejo essa informação me sobe sangue no olho. Porque eu lembro que eu tenho dois filhos em casa dependendo de mim enquanto esses vermes tão aí fazendo essa patifaria.”

– Paulo, ex-funcionário do Seta

Gisele contou sobre um episódio em que seguranças contratados pelo Seta foram até a loja do Capão, segundo eles, para a retirada de alguns documentos. A revolta é que a rede de mercados pague seguranças particulares e não pague os direitos dos trabalhadores. “Entraram em contato dizendo que precisavam pegar uns documentos. Quando eles chegaram, tinha mais de dez pessoas, cinco carros dizendo que eram seguranças contratados pelo Seta.”

O movimento encontrou outra dificuldade na falta de apoio do Sindicato dos Comerciários. “A gente se sentiu totalmente traído dentro do Sindicato. Não temos apoio dele. Ele é vendido, não nos fortalece em nada e não nos representa em momento nenhum”, afirma Paulo, que relata ainda que os próprios membros do Sindicato diziam entre si que “não ia ser do jeito que o pessoal do Capão quer”.

greve mercado 03

Sem confiança no Sindicato e tendo de lidar com a omissão absoluta dos donos do Seta, as trabalhadoras e os trabalhadores ainda sofrem com a falta de atenção da grande mídia ao caso.

Laize explica que entraram em contato com esses grupos de grande mídia, mas questiona se a atenção viria como cobertura ou como criminalização do movimento. “Nós entramos em contato com Globo, Record, mas eles não deram nenhuma posição, não vieram para ver o que realmente estava acontecendo. Se a gente fizesse um ato de vandalismo lá dentro, rapidinho eles iam aparecer. Mas não é isso que a gente quer pra não perder nossos direitos. Nós queremos nossos direitos e que seja pago.”

Em matéria publicada no site do Estadão no último dia 13, o movimento dos trabalhadores, ou a falta de pagamento do supermercado não foram mencionados. O jornal ainda cita nota do Seta afirmando que “a empresa confirma o fechamentos de lojas, mas não o de demitidos”, sem qualquer menção aos relatos de trabalhadores. Essa foi a única matéria publicada pelo Estadão sobre o assunto desde o início do ano.

vdpnr seta

Ao final do programa, Paulo resumiu o sentimento que o movimento coletivo dos trabalhadores e trabalhadoras contra o Seta provocou em sua vida. “Eu não manjo muito de política, nem de revolução. Mas nesses últimos dias eu já identifiquei quem é o meu verdadeiro inimigo. Ele tá atrás da mesa e se chama patrão. E eu vou pra cima dele com tudo.”

Trilha Sonora

DJ Kl Jay e Projeto Coisa Fina – Groove Baixaria
Ka’Oz – Burgueses Salafrários

#PaguemNossosDireitos #OSetaVaiTerQuePagar

O Programa Vaidapé na Rua é transmitido ao vivo toda segunda-feira, às 20h, pela Rádio Cidadã FM. Na região do Butantã, o público pode acompanhar o programa sintonizando 87,5 FM e, no mundo inteiro, através do site da rádio. Acompanhe também a transmissão #aovivo pela página da Vaidapé no Facebook
A RUA GRITA

Greve Geral paralisa São Paulo e enfrenta a repressão da PM

Comércios fechados, ônibus e metrô parados e diversas manifestações marcaram a Greve Geral contra as … Continuar lendo Greve Geral paralisa São Paulo e enfrenta a repressão da PM

A RUA GRITA

Lista de expositores da #PrimeiraFeira será divulgada na semana que vem

Selecionada(os)s seriam divulgados nesta quinta-feira. No entanto, grande número de inscritos fará a lista final … Continuar lendo Lista de expositores da #PrimeiraFeira será divulgada na semana que vem