01 de fevereiro de 2017

A Craco Resiste: “A gente vai querer uma cidade que exclui ou que acolhe pessoas?”


Luiz Antunes bateu um papo sobre o coletivo A Craco Resiste, que promove intervenções artísticas a fim de verificar as ações policiais na região


Por: Lauana Aparecida

O Vaidapé na Rua do dia 23 de janeiro contou com a presença de Luiz Antunes, do coletivo A Craco Resiste, nos estúdios da Rádio Cidadã FM, a comunitária do Butantã. Entre os temas debatidos estiveram em pauta a ação policial na Cracolândia, a política de redução de danos, os resultados da gestão Haddad (PT) e o que esperar da administração do novo prefeito João Doria (PSDB).

Ouça o programa completo no player:

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A Craco Resiste surgiu em dezembro de 2016, organizado de maneira autônoma e por meio da internet, a fim de evitar a violência policial na Cracolândia. Cerca de 20 colaboradores promovem diariamente atividades artísticas como rodas de samba, cinema e oficinas musicais com o objetivo de realizar uma vigília junto a população local.

Luiz Antunes começou a militância em 2014, junto aos Observadores Legais – que registram a ação da polícia em manifestações populares. Hoje, ele também atua no Tulipa Negra, coletivo de direitos humanos que realiza ações na periferia pautando a violência policial, além da distribuição de água para a população de rua.

Entre as diferenças do grupo em relação a outras pessoas que realizam um trabalho assistencial na região, estão a diversidade de ideologias dos colaboradores e a união em prol de um mesmo trabalho. Segundo o entrevistado, a maior dificuldade é saber quando pode ocorrer uma ação violenta na região. “A prefeitura até agora não apresentou um plano de ação ali dentro, mas a gente sabe que sempre rolam atritos com as forças policiais”.

No último dia 17, terça-feira, houve confronto entre a Polícia Militar e os frequentadores do “fluxo”. A ação teve início por volta das 21h e bombas de gás foram utilizadas para dispersar os grupos. Luiz conta que tentou entrar na área do conflito e foi ameaçado de prisão por um PM. “Dei a volta, vi algumas pessoas detidas. A polícia estava ameaçando todo mundo em volta, os moradores, o pessoal que estava filmando”, lembra.

Durante o debate, ele chamou atenção para o interesse imobiliário na região central da cidade com a existência de programas urbanísticos, que não pertencem apenas ao governo ou algum partido, mas aos interesses de empresas que, por meio da especulação imobiliária, pretendem tirar a Cracolândia e transformar o local em uma área “gourmetizada”, segundo o entrevistado. O projeto de renovação urbana Nova Luz, criado em 2005 durante a gestão Kassab (PSD) e cancelado em 2013 por Fernando Haddad, foi lembrado.

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A proposta de revitalização da área, com a chegada de empreendimentos e entrega da concessão urbanística à iniciativa privada, sempre fez parte das discussões sobre a saída dos moradores do local. “Esse processo de retirada da Cracolândia vai acontecer. A gente não quer que ele aconteça porque, afinal, a cidade é para todos. Mas A Craco Resiste está lá para que isso ocorra de uma forma menos violenta para as pessoas que frequentam aquela região”, pontua.

O convidado defendeu o trabalho realizado pela Prefeitura de São Paulo durante a gestão passada, com o programa De Braços Abertos, e também o do Governo do Estado, chamado de Recomeço. “O interessante é que normalmente os programas institucionalizados não se conversam muito bem, mas os trabalhadores sociais que estão na base conseguem ter um jogo de cintura para tentar utilizar o que é oferecido dentro dos dois programas. Por exemplo, no De Braços Abertos falta banheiro na tenda, no Recomeço tem. Existe uma articulação entre eles para tentar atender da melhor forma as pessoas que estão precisando”.

Luiz enxerga as iniciativas como positivas pela atuação dos trabalhadores sociais, que “se desdobram para atender os moradores”. Porém, critica a repressão sofrida pela população local. “A prefeitura colocou o De Braços Abertos para tentar minimizar o impacto social da Cracolândia, mas por outro lado ela atua de forma violenta, com a GCM, com a limpeza que acontece três vezes ao dia. E não é só uma limpeza básica, os agentes da prefeitura entram no fluxo e, para aqueles moradores que não conseguiram recolher o material que têm, tudo é jogado no lixo.” A atual administração da Prefeitura de São Paulo já anunciou o novo programa para a região, chamado de Redenção.

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As práticas de redução de danos, que visam minimizar os impactos do uso de drogas no convívio social e à saúde de dependentes químicos, também entraram na conversa. “Eu acredito que os programas devem priorizar a individualidade das pessoas. Nem dentro do De Braços Abertos eu vejo isso acontecer de maneira individualizada. Ali tem muito talento, tem chefe de cozinha, músico, artista plástico, e a gente tem que começar a valorizar essas pessoas e não excluí-las da sociedade.”

A dois dias do aniversário de 463 anos de São Paulo, o programa questionou em qual cidade queremos viver. Luiz já imaginava um modelo: “Tenho um grande medo de que a gente viva em uma cidade shopping. Penso e acredito em uma cidade mais livre, libertária. A gente vai querer uma cidade que exclui pessoas ou que acolhe pessoas?”15965423_1791932017724837_3835812821675602105_n

Os interessados em acompanhar as ações do coletivo na região da Cracolândia podem acessar a página A Craco Resiste no Facebook. Os eventos são diários e abertos, e o ponto de encontro dos voluntários é o Bar Amarelinho, na rua Triunfo, 307, entre 18h30 e 19h30.

Trilha Sonora
Luana Hansen – “Deu Onda” versão Lesbian
Flicts – Desmascarando sua Bandeira

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|  O Vaidapé na Rua é transmitido ao vivo toda segunda-feira, às 20h, pela Rádio Cidadã FM. Na região do Butantã, o público pode acompanhar o programa sintonizando 87,5 FM e, no mundo inteiro, através do site da rádio. Acompanhe também a transmissão #aovivo pela página da Vaidapé no Facebook

A RUA GRITA

Um Passinho à Frente, por favor.

Crônica por: Luis Cosme* Fotos: André Zuccolo, Julia Mente e Gil Silva João Doria não anda … Continuar lendo Um Passinho à Frente, por favor.