20 de fevereiro de 2017

A história do jogo de futebol mais importante que nunca aconteceu

Transmissão do futebol pela TV explica o que houve no Paraná durante o Atletiba que não houve. Voltemos no tempo para entender


Por Marcelo Mendez*
Foto: Reprodução

O ano era 1986. O futebol Brasileiro, recém eliminado na Copa do Mundo realizada no México, chegava ao fundo do poço. O Campeonato Nacional chegava ao numero de 80 participantes, as séries não eram organizadas, a bagunça era generalizada, os jogos corriam a esmo sem maiores informações e após dezenas de séries e eliminatórias, o torneio chegou a sua fase decisiva e a final. Disputada em 25 de Fevereiro de 1987!

Era mais do que óbvio que algo precisava ser feito e para o ano de 1987 os clubes se juntaram, e saíram com uma nova entidade de nome “Clube dos 13” com as 13 agremiações principais do futebol nosso. O grupo surgiu então com uma proposta de tentar organizar o Campeonato e criaram a Copa União, que em seu módulo principal, seria disputada por incríveis 16 clubes.

Mas para dar certo era necessário alguém para pagar conta, chegou primeiro a Coca Cola que bancaria as camisas dos clubes e ainda faltava alguém para divulgar a coisa. E então, como diria os Racionais, “era a brecha que o sistema queria…” – A Rede Globo de Televisão é chamada para tal…

Com suas várias câmeras, gruas, replays e afins, a emissora passa a deter e determinar o que a gente podia e o que não podíamos ver em se tratando de jogos. Aos domingos, quatro jogos eram selecionados para que nós, a plebe, ligássemos lá para uns telefones e escolhesse um deles para assistir.

Lógico que não eram os jogos principais. A globo fazia o que queria, os clubes eram omissos, precisavam da grana da TV e a nós, bom, “Assiste aí e não reclama”. Era então o começo do que pioraria bem mais com o tempo…

A Consolidação do Monopólio

Com as crises dos anos 90, com as péssimas gestões dos clubes, quase sempre endividados, pessimamente geridos, toscamente administrados, os tais clubes viram-se reféns de cotas de televisão, passando a ser esse, um dinheiro quase que fundamental para as contas principais. Verbas anos antecipadas, grana financiada, alma vendida, tal e qual num blues; Os clubes passaram a comer nas mãos da Rede Globo, que se consolidou graças as omissões dos “parceiros” endividados, do resto da imprensa que pouco fala sobre o assunto e do poder público que faz vistas grossas para essas relações além é claro, de um processo nefasto de elitização nos estádios que cada vez mais afasta o torcedor comum dando a ele como “opção” sentar em frente a televisão e ver a Globo.

O Levante

O que aconteceu no Paraná é uma prova cabal de que monopólios fazem o que querem e dane-se todo o resto. A coisa começou porque a Globo, dona dos direitos de tudo em se tratando de futebol, sem maiores explicações, ofereceu em 2017 pela transmissão dos jogos dos clubes em questão, a quantia de 1 milhão de reais, em detrimento dos 2,2 milhões pagos em 2016.

Uma quantia irrisória se pensarmos no quanto que a empresa fatura apenas em propaganda dos mesmos jogos. A federação Paranaense, arregada com o monopólio, usou de um recurso estapafúrdio de “credenciamentos” para proibir a transmissão via internet que os clubes fariam e estes, se recusaram a jogar em um ato inédito nesses anos todos de império. Oras meus caros…

O mundo real e o mundo segundo os monopólios

Transmissões de futebol por internet pelo mundo, não são novidades. Na Espanha, por exemplo, sem brigas entre federações e clubes, os jogos da Copa do Rei podem ser acompanhados de graça via facebook. A mesma plataforma transmite ao vivo em São Paulo, os jogos do Campeonato Paulista Feminino de futebol. Na Inglaterra, a BT Sports transmitiu em seu canal do youtube as finais da Liga Europa e da Liga dos Campeões em 2016. E porque a estranheza por aqui? Simples…

Não me causa espanto ver que em um Brasil doente, truculento, raivoso, não seja possível se entender que a internet é (ou deveria ser) um importante fator para democratização de conhecimentos e informações. Não da mais para impor tudo e mais hora, menos hora, as coisas vão mudar. O Paraná mostrou ontem um bom caminho para tal…

*O artigo foi publicado originalmente no ABCD Maior e enviado à Vaidapé como colaboração.

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