23 de fevereiro de 2017

O plantio e os saberes quilombolas em choque com o desenvolvimento do Vale do Ribeira

Comunidades quilombolas vivem conflitos socioambientais com a expansão do agronegócio e a pressão para implantação de usinas hidrelétricas no Vale do Ribeira


Por Victoria Franco
Fotos: Victoria Franco

São quatro horas de viagem de São Paulo até o município de Eldorado, no Vale do Ribeira, interior do estado. No caminho, a uniformidade da monocultura bananeira, que beira a estrada, contrasta com a biodiversidade de uma região que abriga cerca de 20% dos remanescentes de Mata Atlântica do Brasil e cerca de 86 comunidades quilombolas, considerando o Vale paulista e paranaense.

A alguns quilômetros de Eldorado, margeando o Ribeira de Iguape, principal rio que corta a região, está uma delas: o Quilombo Sapatu. Lá, Ivo Santos Rosa, de 51 anos, conta sobre os aviões agrícolas que sobrevoam fazendas do Vale para pulverizar químicos na imensidão de bananais.

Ele relata que a agressividade desse modelo tem ocasionado um processo de desertificação do solo, desbarrancamento de estradas e acumulação de sedimentos nas águas dos rios.

Ivo evoca protesto e logo traz uma lembrança pungente: foi muita luta para que as crianças da escola da comunidade de Poça, engolida pelo avanço dos latifundiários bananeiros, não ficassem expostas aos químicos durante as refeições ao ar livre no colégio. Uma medida foi tomada para acalmar manifestações das famílias: “Em vez de lancharem com agrotóxicos sendo despejados sobre suas cabeças, as refeições das crianças foram deslocadas para dentro das salas de aula”, relata.


Ivo e seu pai, Seu João. Gerações diferentes e a mesma preocupação com as águas do Vale

Poça fica na margem direita do Rio Ribeira de Iguape. A fonte de água das comunidades quilombolas também recebe, involuntariamente, pulverização de venenos.

“Quem protege a cabeceira das águas, tem água para toda vida”

João Santos Rosa, morador do quilombo Sapatu

Quando converso com o pai de Ivo, João Santos Rosa, hoje com 74 anos de memória coletiva, aciono também seus ancestrais. A fala apressada é de quem tem muito a contar sobre o que aprendeu com os que vieram antes dele. “Quem protege a cabeceira das águas, tem água para toda vida”.

É por isso que a família de Seu João não faz roça perto do rio. Se os quilombolas têm o cuidado de não derrubar a vegetação próxima ao Ribeira de Iguape para preservar suas águas, quem vem de fora parece ver o meio ambiente como um bem pronto para consumo, reforçando a hierarquia do domínio humano sobre a natureza, convencionada pelo chamado processo de desenvolvimento.

Tempo da terra

Dona Marina veio de Minas Gerais. Tem 64 anos e vive desde a década de 90 em uma casa próxima de Sapatu, no Quilombo de Nhunguara. Hoje, é coordenadora da associação do bairro e junto com outras mulheres quilombolas faz a gestão artesanal da fábrica de chips de banana verde da região. Parte do produto pode ser comprada diretamente com elas, outra é encaminhada para grandes cidades por meio da Cooperativa dos Agricultores Quilombolas do Vale do Ribeira (Cooperquivale).

Ela me recebe em sua casa. Na porta, tábua de madeira para evitar que os cachorros entrem, uma camiseta limpa recém-dobrada como pano de chão. Meus tênis, antes brancos, estão cheios de terra. Prefiro tirá-los, embora ela insista que não seja necessário. Sento-me à mesa da cozinha, aguardo por Orlando, de 62 anos, cunhado dela. “Espera um pouquinho que ele já vem”. Surpreendo-me: pisco e Seu Orlando está na minha frente.

Ele aperta os olhos com um sorriso. Veio para me contar como faz roça. Primeiro, abre espaço para cultivo com o fogo. Cuida para evitar que a queimada se espalhe, e faz o aceiro: com a foice, traça um contorno de cerca de dois metros de largura em volta da área a ser queimada, isolando-a. “Costumo queimar o mato logo antes da chuva, assim os nutrientes penetram no solo e ajudam a fertilizá-lo. Tudo funciona melhor se for feito no começo da lua minguante. Depois, planto…”

Seu Orlando interrompe bruscamente a explicação por não ver necessidade de descrever como, quando, ou exatamente onde planta. Para quem faz roça desde os oito anos de idade, plantar é algo muito natural, passado de mães e pais para filhos e filhas. Nos quilombos, a terra não pertence ao ser humano, nós é que pertencemos à terra.

Encho Seu Orlando de perguntas. Descubro que costumam trabalhar em um pedaço de terra por um ano, depois deixam a capoeira descansar e vão para outra área. O sistema agrícola é itinerante. O tempo é o tempo da terra. Tudo o que o chão dá, vai para a mesa. Se sobrar, encaminham para a Cooperquivale e ficam na espera por cerca de dois meses para que o alimento volte como dinheiro. Ultimamente, quase não tem sobrado. “A gente só pode plantar se o Ibama nos enviar os papéis. Senão, é multa.”

Seu Orlando precisava ter começado a roçar em agosto. Os alimentos só vingam se forem plantados até novembro. Era outubro quando esta reportagem foi apurada e nenhum papel havia chegado ainda.

Os documentos são autorizações prévias emitidos pela CETESB, órgão de licenciamento ambiental paulista, autorizando que a roça seja feita em um pedaço de terra definido para preservar o meio ambiente, conforme os critérios do órgão. A medida, por outro lado, pode ir contra o conhecimento ancestral da comunidade, como acontece no caso da queima da vegetação baixa antes do plantio. Pelos registros de desmatamento, a prática não se mostra como fator de ameaça ao ambiente. Segundo o Instituto Socioambiental (ISA), por exemplo, mais de 85% das florestas da região estão conservadas, o que corresponde a 2,1 milhões de hectares de matas.

Dona Esperança é mãe de Ivo, nascida no Quilombo Pedro Cubas. Tem 71 anos e é conhecida por sua mistura de ervas e cereais que, segundo ela, cura qualquer doença. Chego em sua Casa de Taipa e logo me encanto com a beleza do trabalho da senhora. É artesã e agricultora. Assim como Seu Orlando e outros tantos agricultores quilombolas, incomoda-se com as barreiras impostas pela lei ambiental. “Eles vêm e demarcam uma área onde o arroz não vai dar sem veneno. Mas a gente não coloca. Nossa lavoura é dada com a força da terra”.

Seu João, Dona Esperança e Ivo na Casa de Taipa

Terra sim, barragem não

A Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, o mais antigo templo religioso do Alto Vale do Ribeira, abrigou a resistência dos ancestrais de Setembrino da Guia Marinho, de 45 anos, dono de um pequeno bar e liderança do Quilombo de Ivaporunduva, também na região. Com o declínio da extração de ouro e minério no século XVIII, os negros escravizados do Vale foram deixados ao abandono. Procurados por outros senhores de engenho para que fossem levados até Minas Gerais, resistiram. “Eles não aceitaram mais viver daquele jeito, sentaram naquela Igreja e ali ficaram”, conta Setembrino.

“Não somos remanescentes de escravos, somos escravos até hoje”

Ivo, morador do quilombo Sapatu

Do seu bar, vejo as costas da capela. Branca, gasta, estende uma escada pintada de terra até nós. O templo é um dos patrimônios ameaçados pela construção da Usina Hidrelétrica de Tijuco Alto, encabeçada pela Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), do Grupo Votorantim. Se o projeto sair do papel, a Igreja de Ivaporunduva ficará ilhada. Junto, aproximadamente 11 mil hectares de Unidades de Conservação, um complexo de 40 cavernas, terras de quilombolas e pequenos agricultores ficariam permanentemente submersos no lago da usina.


Setembrino atrás do balcão de seu bar com vista para a Capela

O trâmite para o licenciamento da construção está parado desde o final de 2016, quando o Ibama negou a licença para a obra. Foram 28 anos de idas e vindas, marcados por muita luta e resistência de ambientalistas, comunidades quilombolas, ribeirinhos e movimentos como o MOAB (Movimento dos Ameaçados por Barragens) para impedir a construção da usina. Apesar do cancelamento da obra ter sido comemorado como uma imensa vitória, lideranças ainda têm medo de que a situação seja revertida novamente pela companhia.

Segundo Frederico de Freitas Silva, porta-voz do ISA, o Rio Ribeira ainda pode estar em risco, uma vez que o fim de Tijuco Alto não garantiu a revisão do andamento de outras usinas como Itaoca e Funil, projetos de Pequenas Centrais Hidrelétricas que possuem outro processo de licenciamento, direcionado a obras de menor porte.

Encurralados por grandes obras, pressões do poder público e do setor agrícola, Ivo, João, Orlando, Esperança e Setembrino trazem no corpo uma encruzilhada histórica. O primeiro olha com firmeza nos meus olhos e diz: “Não somos remanescentes de escravos, somos escravos até hoje”.

Ainda assim, as comunidades resistem. Resistem, porque as memórias coletivas tecem suas relações. Os passos de Ivo, Seu João, Dona Esperança, Setembrino e Seu Orlando vêm de longe – e os fazem escolher destinos diferentes do perecimento.

A RUA GRITA

Volta Negra: a história do negro no Centro de São Paulo

Novo ciclo de caminhadas da Volta Negra começa neste sábado e tem atividades programadas para os próximos dois meses

A RUA GRITA

Últimos 3 dias para ajudar: Cora Primavera vai às ruas!

Criado pela Cia. Nada Pensativo, peça Cora Primavera aborda questões como transfobia e violência contra … Continuar lendo Últimos 3 dias para ajudar: Cora Primavera vai às ruas!