24 de fevereiro de 2017

A violência da Polícia Militar contra os usuários na Cracolândia e os interesses que sustentam a repressão


Durante a tarde de ontem, a região da Cracolândia, no bairro da Luz, centro de São Paulo, foi palco de mais uma ação policial violenta contra moradores e usuários de drogas que frequentam o local.


Por: Thiago Gabriel
Fotos: A Craco Resiste

Por voltas das 12h dessa quinta feira, 23, a Polícia Militar começou a atirar bombas de gás lacrimogênio e balas de borracha contra usuários de drogas e moradores da região da Cracolândia, centro de São Paulo. Os moradores reagiram atirando paus, pedras, objetos e formando barricadas de fogo para impedir o avanço da PM.

Durante a ação, foi registrado o uso de armas de fogo, que atingiram o fotógrafo freelancer Dário Oliveira da agência “Artigo 19” na região da perna. O jornalista foi levado à Santa Casa de São Paulo onde foi submetido à cirurgia e passa bem. Outro fotógrafo, Marcelo Cordeiro, conhecido como Chello, também foi alvo dos projéteis disparados, porém, seu celular que se encontrava no bolso fez a bala ricochetear e evitou que o repórter se machucasse mais gravemente. Muitos usuários também ficaram feridos pelos tiros de borracha.

A Polícia Militar afirmou, por meio da Secretaria de Segurança Pública, que seis agentes ficaram feridos, entre policiais e membros do Corpo de Bombeiros. Em entrevista hoje pela manhã, o secretário de segurança pública do Estado, Mágino Alves afirmou categoricamente que: “Não houve disparo de munição letal realizado por policiais militares. Estamos apurando quem teriam sido os autores dos disparos. Foram contabilizados seis disparos.”

A Secretaria de Direitos Humanos da Prefeitura afirmou que vai investigar possíveis violações aos direitos humanos nas ações da PM, e a secretária da pasta, Soninha Francine, criticou a ação através de sua conta no Twitter.

Os motivos que causaram o conflito ainda não foram esclarecidos, apresentando versões distoantes de cada lado. Moradores da região e trabalhadores sociais afirmam que dois usuários brigavam entre si e a confusão envolveu um bombeiro que atuava no local. A PM teria agido com truculência para separar a discussão, o que gerou revolta dos frequentadores da região. Um usuário, que não quis se identificar, afirmou à Agencia EFE que a confusão teve início depois que policiais teriam agredido uma mulher grávida, o que provocou a reação dos moradores, que atiraram pedras e objetos contra os agentes.

De acordo com a Polícia Militar, o confronto começou quando o policiamento local realizava uma abordagem de rotina na região, em busca de um carro que tentava se esconder na Cracolândia e seria ocupado por suspeitos de tráfico de drogas. Usuários teriam se aglomerado em cerca de 300 pessoas e começado a agredir os policiais, lançar objetos e queimar sacos de lixo. A PM tentou cercar os usuários com bombas e bala de borracha, e pediu reforço à Força Tática e à Guarda Civil Metropolitana.

Segundo informações do coletivo A Craco Resiste, que atua e promove eventos na região, um trabalhador social que atua no fluxo afirma que estranhou a presença ostensiva da PM no local, antes mesmo da ação de repressão. Ele relatou também que as equipes da TV Globo e Rede Record já filmavam a operação pouco após o seu início, o que, para ele poderia configurar “uma ação bem orquestrada”.

REDENÇÃO

Essa não é a primeira ação policial violenta na Cracolândia desde o início da nova gestão municipal do prefeito João Doria (PSDB). No dia 17 de janeiro deste ano, a PM também dispersou os moradores com bombas e balas de borracha no período da noite.

O novo prefeito pretende implantar para a região, já no mês de março, o programa Redenção. Segundo Doria, o projeto terá cinco eixos: policial, social, medicinal, urbanístico e de zeladoria urbana. Embora não tenha especificado como o programa irá atuar, muitos trabalhadores sociais temem que o programa seja focado na repressão policial e internação compulsória de usuários, substituindo a abordagem atual, do De Braços Abertos, que privilegia o atendimento médico e a oferta de moradia em albergues da região, sem a necessidade do usuário de abandonar o uso de drogas.

Em declarações recentes, Doria afirmou sobre a Cracolândia: “Isso é uma vergonha, é uma tristeza, uma terra de ninguém. Como pode a Prefeitura defender o programa De Braços Abertos? De braços abertos para a morte, isso são pessoas condenados à morte. Isso é um gueto na cidade. Isso vai acabar. Isso me provoca uma enorme repulsa. (…) Nós vamos colocar a internação obrigatória. Nós temos que ter um olhar humanitário para isso. O consumidor de drogas precisa de internação clínica e não tem noção disso.”

ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA

Além da repulsa provocada no prefeito pelos usuários de droga, existe um grande interesse comercial na área da Cracolândia. Localizada em região estratégica no centro da cidade, a especulação imobiliária tenta atuar no local há anos, sem sucesso. Um dos projetos urbanísticos que buscou retirar os usuários da Cracolândia é o Nova Luz, criado por Gilberto Kassab (PSD) em 2005, e que foi abandonado por Fernando Haddad (PT) em 2013. O projeto previa o direito de desapropriação à iniciativa privada.

Doria já afirmou que pretende encomendar um novo projeto para a região, e delegou a responsabilidade ao arquiteto e urbanista Jaime Lerner, que participou da elaboração do Nova Luz. O governador Geraldo Alckmin (PSDB) também fecha o cerco na área, com a construção de 1.200 apartamentos vizinhos à Cracolândia em projeto de Parceria Público Privada (PPP).

Movimentos sociais como A Craco Resiste questionam as propostas do poder público sem a oferta de uma alternativa social viável para os milhares de frequentadores da região. Luiz Antunes, membro do coletivo, falou ao Vaidapé Na Rua em janeiro deste ano sobre a necessidade de apresentar alternativas à essas pessoas: “Esse processo de retirada da Cracolândia vai acontecer. A Craco Resiste está lá para que isso ocorra de uma forma menos violenta para as pessoas que frequentam aquela região.”

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