15 de março de 2017

Demos um rolê por 5 batalhas de rap em SP para sacar as dinâmicas de cada uma

A Vaidapé colou em cinco batalhas de rap de diferentes regiões de São Paulo e trocou uma ideia com os realizadores


Por Ugo Sartori
Fotos: Beatriz Issler

“Sexta Free – Batalha Racional” é o nome do rolê e acontece desde 2011 na Avenida Paulista. Começou com o coletivo Kush Crew em 2010, uma galera que rimava, fazia freestyle e curtia rap, claro. Mas quando a Kush pensou em fazer um duelo eles quiseram fazer diferente. Batalha de sangue já existia em São Paulo, então eles puxaram a ideia da rinha de conhecimento, que começou lá no Rio de Janeiro.

“Então a partir daí rolou a ‘Sexta Free – Batalha Racional’, toda sexta-feira às 21h. Batalha de sangue é da hora, tá ligado? É da hora você tirar um barato com o outro, só que uma base pro MC é o conhecimento. Então a gente pensou: uma batalha do conhecimento vai puxar vários temas e vai ativar o intelecto do MC. É isso que a gente quer”, conta Rafael Smoke, da Kush Crew.

“Eu não tô aqui pra atacar meu próprio irmão, se for pra atacar, eu vou atacar quem tá errado!”

Vick, campeão da noite na Batalha racional

Dito e feito, a disputa queima neurônios, MCs têm que buscar no fundo da cabeça rimas para qualquer tipo de tema: transporte público, homofobia, segurança, educação, lua prateada, fiel que vai na igreja para perdoar Deus. Os temas são diversos e o MC tem que estar pronto para todos e, se não estiver, “que procure depois da batalha, se instrua para na próxima semana vir com mais conhecimento e batalhar”, diz Smoke.

Magida foi a única mulher que batalhou naquela sexta. Vinda de Porto Alegre e hoje com quase 30 anos, ela conheceu a “Sexta Free” em 2013. Batalhou um pouco, mas logo parou. Se sentia incomodada com a diferença de idade entre ela e os outros MCs. Foi só em 2015 que voltou para cena. “Em 2013 eu dei umas rimadas e voltei para casa. Fiquei no armário pensando: ‘Não vou ficar rimando com a galera mais nova e tals’. E aí, dois, três anos depois – porque eu vi muita mina rimando – eu pensei: ‘Cara, sai do armário! O que menos tem é mina rimando’. Não importa onde você tá, a mulher vai ser minoria.”

E no freestyle ela se impõe e prova que sabe rimar sim. Só não levou a batalha da noite porque se enrolou no tema “lua cheia de sonhos”: “A minha primeira e segunda rimas aqui foram muito de explicar, mas essa da lua cheia de sonhos me fodeu. Porque foi pro emocional e eu não sabia o que explicar…”

O campeão da noite foi Vick, de 23 anos, direto da Brasilândia para a Paulista. Já colou em batalha de sangue e hoje já não se envolve tanto. “Não tenho nada contra quem ataca, tenho que deixar isso bem claro. Eu comecei atacando, só que hoje eu não ataco, porque quando você foge de uma amarra do sistema, não tem como você se atar no nó de novo. E o nó é a batalha virar show de comédia pra playboy branco rir da gente se xingando. E eu não tô aqui pra atacar meu próprio irmão, se for pra atacar, eu vou atacar quem tá errado!”.


O conhecimento também é o centro da Batalha da Estação, na Rua Juvenal Harttman,em Francisco Morato, na zona norte. Ainda assim, a pegada é diferente e abrange outras vertentes do Hip Hop. O fundador Paulo Malik, militante há mais de 25 anos do movimento, uniu o grafite, o break dance, o beat e as rimas. “No intuito de querer fortalecer essa cena do hip hop eu tive a ideia de fazer a batalha e nisso eu convidei uns parceiros para cada um contribuir numa área”, conta.

O evento ocorre uma vez por mês, sempre de sexta-feira das 18h30 às 22h30, e diferente das outras rinhas, é composto por dois MCs que cuidam do Freestyle, o Luis Preto e o Mamute 011; um DJ que não deixa o som parar, o DJ Clevinho; um curador de grafite, o Bonga; e Denis Jaconto, que é o cara que cuida do território da dança. Todos são residentes e estão desde o começo do projeto. É a partir de cada um deles que o evento é enriquecido, cada um traz convidados e colaboradores da sua área do Hip-Hop.

Malik diz que preza pelas rimas de conhecimento, já que não quer ver homofobia, bullying ou coisas do tipo na praça. “A gente tentou dar primazia para o conhecimento, para que não tenha palavras de baixo calão, pederastias, homofobia ou bullying. Para que o MC mais aclamado na roda, o que consiga arrancar mais palmas do público e consiga ganhar gritos, seja o cara que traz a rima inteligente. O cara que pode até dar uma sacaneada, mas uma gozação com nível, com qualidade.”

A ideia é fazer mais do que só o barulho pelo barulho, mas fortalecer também a cena do Hip Hop. Assim, os intervalos da batalha são preenchidos com shows, leitura de poesias, lançamento de livros e artes plásticas. A galera da Estação já fez até batalha de grafite, mas mantendo o foco nas rimas. “Já teve batalha de dança, a gente já fez batalha de grafite, a gente pretende fazer uma batalha de DJ, só que isso é secundário o principal é a batalha de freestyle”, comenta Malik.

Sangue além do xingamento

Diferente das batalhas de conhecimento, a Batalha da Santa Cruz é um clássico de sangue, mas pretende ir além do xingamento. Ela acontece na saída do metrô Santa Cruz, na Vila Mariana, desde 2006 e é a mais antiga de São Paulo, referência em todo o país.

Cada rodada acontece em três rounds, sem tema, só sangue. Mas, como disse Gah MC, o organizador da noite, a batalha de sangue desenvolve o pensamento e o raciocínio do MC. “É muito mais do que só xingar o cara. Tem toda a ideia de criar uma metáfora, um trocadilho. Tem que fazer a galera entender. Batalha de sangue é atitude, você vai xingar, mas vai fazer isso bem feito, se impor. São coisas que você leva para a vida: na escola, no trabalho…”

A batalha acontece todo sábado às 20h30. É fácil chegar, depois daquele vendaval da saída do metrô, logo no topo das escadas rolantes estão MCs, plateia e organizadores. Assim que todos se inscreveram, a roda fecha e começa a luta. No início, alguns vêm no sapatinho, de mansinho, meio acanhados para sair xingando alguém que eles nem conhecem. Mas, quando vai chegando o final, é um soco atrás do outro. Dá para sentir o peso das palavras, esperando um pequeno vacilo do adversário para vir com tudo e nocauteá-lo. “A raíz da Batalha de MCs de qualquer lugar do mundo é essa, mano, é o sangue”, considera Gah.

Alguns perdem o controle. No sábado em que fui, logo no começo do evento um MC xingou a avó do outro e acabou sendo desclassificado. O clima ficou tenso, rolou até um bate boca, mas nada que atrapalhasse o rolê. O próprio Gah disse que não é comum, mas acontece.

Por outro lado, no mesmo dia duas irmãs gêmeas, que ainda nem alcançaram os 13 anos, acompanhavam seu pai que recitaria uma poesia de autoria própria àquela noite. A batalha é próspera e rica em cultura, naquele mesmo lugar já passaram MCs que hoje fazem sucesso e estouram pelo país. Emicida, Projota e Rashid, são alguns dos nomes que começaram com as improvisações no Santa.

Sangue temático

Na Vila Formosa, zona leste de SP, desde 2015 a Batalha dos Loko ocupa a praça Santo Arsênio, ou praça dos Loko, como é conhecida. O rolê acontece toda quarta-feira a partir das 19h em um ambiente agradável e acolhedor. Enquanto é montado o chaveamento dos MCs, quem chega para assistir pode esperar sentado nos degraus da praça, que formam uma pequena arquibancada. Depois das inscrições e da instalação do som, a disputa começa.

As rodadas são temáticas, porém sangrentas. Assim como na batalha racional, os Lokos começam com temas sugeridos pelo público ou sorteados pelos organizadores. São dois rounds, mas, se der empate… “SAAAANGUE!”. Cada MC tem direito a quatro versos para se defender e atacar. A galera já grita e cada um cai matando em cima do outro para levar a melhor.
O desejo em ver os MCs se xingando não faz do público agressivo. O respeito é uma regra que não precisa ser discutida, nem avisada. Ele está presente nas minas e manos, crianças, bebês de colo e grávidas que assistem as rimas.

A batalha nasceu da união de dois coletivos, o “Ocupa PL (praça dos Loko)” e o coletivo de arte “Os Dadiiva”. Este último já se apresentou em outros eventos do Ocupa PL, uma parceria só fortaleceu a união que resultou na Batalha dos Loko.

Pixo, conhecimento e sangue

Voltando para o centro de SP, na Rua Dom José de Barros, em frente à Galeria Olido, acontece a Batalha do Point, toda quinta-feira a partir das 21h. “Do Point” porque ali fica o point da pichação. O local já é conhecido e chegou a apareces em matéria do Profissão Repórter sobre a pixação em SP. Na semana seguinte a reportagem,  a polícia não deixou a batalha acontecer e tirou todo mundo da rua. “A gente tá acostumado a sofrer opressão, de sofrer preconceito aqui, porque é uma concentração de pixadores”, diz Dipraia, o apresentador da batalha daquela noite.


Foto: Batalha do Point

O rolê é de resistência e luta, e não só contra um sistema. É resistência até frente à natureza. Chovia muito naquela quinta-feira e, mesmo com os pés encharcados, casacos molhados, bonés pingando, as rimas saíram e a batalha não parou.

Criada em 2012, a do Point é tanto de conhecimento, quanto de sangue. Muito parecida com a dos Loko, que veio depois deles, a do Point começa com dois rounds de tema, mas se der empate, já sabe: “SANGUE!”. Ao invés de cada MC ter quatro versos para atacar e defender, eles têm 30 segundos de ataque e ganha quem receber mais gritos da galera. A batalha foi idealizada pelo MC Féra e Bongo, amigos que começaram com uma brincadeira. Apenas improviso que virou coisa séria: a Batalha do Point.


Para saber mais sobre cada um dos rolês acesse:

Sexta Free – Batalha Racional
Batalha da Estação
Batalha do Santa Cruz
Batalha dos Loko
Batalha do Point

A RUA GRITA

Um Passinho à Frente, por favor.

Crônica por: Luis Cosme* Fotos: André Zuccolo, Julia Mente e Gil Silva João Doria não anda … Continuar lendo Um Passinho à Frente, por favor.