22 de março de 2017

A história da Tenda Alcântara Machado, uma ocupação de moradores de rua em SP

No Brás, pessoas em situação de rua ocupam tenda desativada da Prefeitura e resitem em uma comunidade autônoma, onde vivem cerca de 150 pessoas.


Por Clara Lisboa e Carolina Martins
Fotos: Paula Serra

A ocupação Alcântara Machado, localizada embaixo de um viaduto na região central de São Paulo, foi uma das Tendas de Assistência Social criadas pelo ex-prefeito Gilberto Kassab, em 2012. Com banheiros, chuveiro e cozinha coletiva, o equipamento tinha como objetivo fornecer uma estrutura mínima para pessoas em situação de rua. No final de 2015, porém, as tendas foram desativadas.

Com isso, aqueles que eram atendidos pelo serviço ocuparam o espaço. Hoje, cerca de 90 pessoas utilizam desta infraestrutura e dormem em barracas ou colchões. Outras famílias montaram malocas ao lado de fora da tenda.

No final de seu mandato, o prefeito Fernando Haddad anunciou que o terreno sofrerá reintegração de posse. Apesar das pressões, os moradores lutam pelo direito à moradia digna e buscam construir um modelo de organização horizontal. Todas as decisões da ocupação, por exemplo, são definidas em assembleias, que acontecem todas às terças-feiras.

Em conjunto com as pessoas em situação de rua, ex-funcionários da tenda atuam dentro do Coletivo Autônomo de Trabalhadores Sociais (CATSO), formado em 2013, com o intuito de ajudar a combater a repressão contra o povo de rua e lutar por uma cidade que seja para todos. A ideia é construir alternativas emancipatórias fora das vias burocráticas e institucionais.

“Não é a primeira vez que se ameaça reintegrar a Alcântara e não foram poucas as vezes que a repressão comeu solta no viaduto. As pessoas estão se articulando e resistindo a mais uma ameaça desta cidade que insiste em ver o povo de rua morrer. O povo de rua insiste em querer viver”, diz Paulo Escobar, integrante do CATSO desde a formação do coletivo.

THAÍS, 24, vive na Alcântara Machado há dois anos e recebeu a Vaidapé em sua casa. Ela conta que hoje cuida de uma parte importante na organização do espaço: é uma das responsáveis por dividir as tarefas de limpeza, cozinha e vigília noturna. “Uma vez, à noite, apareceram dois moleques e tentaram botar fogo em um carro que fica aí fora abandonado. Quase conseguiram. Foi sorte que a gente viu e eles entraram correndo em um táxi. Ainda bem, porque senão ia pegar fogo em todos os barracos! É incêndio criminoso isso aí”, denuncia.

Eu quero conseguir uma moradia, porque ninguém quer viver debaixo de um viaduto, aqui tá cheio de rato”

Quando aparece alguém precisando de um lugar para dormir, é Thais quem acomoda os recém-chegados. Ela explica as prioridades: “Se for mulher, idoso ou família, a gente libera um barraco do lado de fora, onde há mais privacidade. Se for homem solteiro, fica dentro da tenda em um colchão ou barraca. Mas aqui tem que ajudar na organização do espaço. Se não ajuda, a gente pede para ir embora. Sem violência nem nada, mas é que é um lugar coletivo”.

Thaís viveu em abrigos desde muito cedo, pois sua família não tinha condições de cuidar dela. Sorrindo, ela lembra dos tempos de adolescência, quando “botava o terror” nos inspetores das diversas instituições pelas quais passou.

Hoje em dia, seu barraco possui sofá, geladeira e fogão, que são, em sua maior parte, doações. No entanto, ela segue sua luta por melhores condições: “Eu quero conseguir uma moradia, porque ninguém quer viver debaixo de um viaduto, aqui tá cheio de rato”. Os ratos não são o maior problema de Thaís. Ter um endereço fixo também é essencial para conseguir retomar a guarda de seus filhos, que atualmente moram com um parente. “Falam pra gente arranjar emprego pra ter moradia, mas como a gente arranja emprego sem moradia?”.

CAREQUINHA tem 37 anos e também cuida da organização da comunidade, além de ter um bar ao lado da tenda, onde vende as cachaças que ele mesmo faz. Frequenta o espaço desde que era administrado pela Prefeitura. Na época, não era permitido dormir dentro da tenda, por isso, já havia barracos construídos ao seu redor.

“Já tinham os barracos fora e outras pessoas na calçada. Depois de quatro anos, fecharam sem explicação. Aí, nós ocupamos para usar a cozinha comunitária, os banheiros e um espaço pra assistir televisão. Mas lá dentro não tem álcool, não tem drogas, não tem baderna”, relata. Segundo Carequinha, muitos dos moradores já buscaram auxílio em albergues da Prefeitura, mas por conta da autonomia que a comunidade proporciona, preferem ficar ali.

Ele conta que, depois que a tenda foi desativada, o poder público não arcou com nenhuma responsabilidade com a população que utilizava o local. “Agora eles vêm com reintegração de posse? Só falta cortarem água, luz e fechar o espaço que serve para famílias e crianças. Onde é que esse povo vai ter um lugar pra dormir, comer, pra não estar em uma área de risco? Estamos sem saída, sem ter para onde ir. Isso aqui é um pouco da nossa história.”

Para Carequinha, a comunidade está exercendo funções que deveriam ser feitas pelo poder público. “Se chegarem aqui oferecendo uma moradia só para mim, como a gente vive em uma comunidade, eu não posso aceitar e abandonar os demais. Só eu vou ser beneficiado porque eu contei uma história e alguém se comoveu?”


Este texto foi publicado originalmente na 6ª edição impressa da Revista Vaidapé. Confira mais matérias e leia a revista completa aqui.
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