09 de março de 2017

As vozes das mulheres no ato do dia 8

Diferentes histórias se intercalam em marcha do dia internacional da luta das mulheres, no centro de São Paulo


Por Victoria Franco
Fotos: Victoria Franco

Com 15 anos, M. fez um aborto. Ela conta que, na época, tinha um namorado com uma boa condição financeira, 5 anos mais velho, o que facilitou o processo. “Ele tava com o dinheiro na mão e todo mundo sabia onde comprar”, referindo-se ao medicamento abortivo Cytotec, cuja comercialização é proibida no Brasil desde 2005, configurando, segundo a Anvisa, infração sanitária gravíssima e crime hediondo.

Tomou os comprimidos e enfrentou um dia de mal estar, de vômitos, dores de cabeça e cólicas fortes. Sangrou. Depois de quase um mês, descobriu que o feto ainda estava dentro dela, morto. “Eu tive muita sorte, podia ter pego uma infecção generalizada”, mas foi a um bom médico e ficou tudo bem.

M. sente-se muito privilegiada por, segundo ela, ter feito um aborto super positivo. Em primeiro lugar, diz que é um alívio ter se “livrado daquele companheiro” porque “ele era um verdadeiro fascista”. Depois, fala que não ter filhos facilitou que sua formação em Geografia acontecesse.

“Se eu engravidasse, faria outro aborto, só não sei em que condições”

“Se eu engravidasse, faria outro aborto, só não sei em que condições”, e completa: “sou de origem pobre e estou atualmente desempregada”, então não teria a mesma oportunidade que teve há cerca de 10 anos atrás. A legalização do aborto era uma das reivindicações de M. e das centenas de mulheres que se reuniram ontem (8), Dia Internacional da Mulher, na Praça da Sé, em São Paulo.

Enquanto nos encontrávamos para lutar por direitos, o presidente Michel Temer vomitava um discurso machista no Palácio do Planalto, em Brasília. Os gritos de “Fora, Temer!”, que começaram por volta das 17h30 no ato das mulheres na Sé (SP), fizeram ainda mais sentido.

Nosso atual presidente da república declarou que tem absoluta convicção, “até por formação familiar e por estar ao lado da Marcela [Temer], do quanto a mulher faz pela casa, pelo lar, pelos filhos. E, se a sociedade de alguma maneira vai bem e os filhos crescem, é porque tiveram uma adequada formação em suas casas e, seguramente, isso quem faz não é o homem, é a mulher”.

“Ninguém é capaz de indicar os desajustes, por exemplo, de preços em supermercados mais do que a mulher”

– Michel Temer, Presidente da República

E continua: para ele, a participação feminina na economia é grande, uma vez que “ ninguém é capaz de indicar os desajustes, por exemplo, de preços em supermercados mais do que a mulher”. Temer seguiu falando por aproximadamente 10 minutos, enquanto Marcela, sua esposa, discursou por menos de dois.

Para ela, é importante que a sociedade “reconheça os vários papéis” desempenhados pela mulher hoje, desde a escolha profissional “até o modo de vida”; que o Estado e a sociedade deem condições para que mulheres criem seus filhos “da melhor maneira possível” e destaca, por fim, a necessidade de “acabar com a intolerância que afronta a realidade das mulheres”.

Michel Temer, então, arrematou: “mulheres devem ocupar o primeiro grau em todas as sociedades” e, depois disso, sinto que ecoa o jargão “faça o que eu digo, não o que eu faço”, uma vez que, em maio de 2016, quando o presidente chegou ao poder por ser vice da primeira mulher eleita presidente no Brasil, Dilma Rousseff, assumiu o cargo sem colocar nenhuma mulher no gabinete. Hoje, das 28 pastas ministeriais, são duas mulheres: uma na Advocacia-Geral da União (AGU) e outra em Direitos Humanos.

Angelina Dias da Silva, 60 anos

“Fora mordomo de filme de terror” era o que Angelina Dias da Silva, 60 anos, gritava com o megafone em uma das mãos. Na outra, um balão rosa dizia “Volta, Dilma”. Professora da rede pública, recentemente aposentada, Angelina destacou a importância de sair às ruas no 8 de março: “Já que os homens não colaboram, a gente precisa lutar. E isso a gente faz ocupando a rua e conscientizando o resto das mulheres que não estão aqui ainda”.

Ela conta que está passando por uma situação angustiante em casa: a filha sofre violência de um namorado abusivo, o que faz com que Angelina relembre da dor de ter visto o pai bater na mãe a vida inteira. “Eu preciso fazer alguma coisa. Por isso estou aqui”, e segue marchando do cruzamento da Praça da Sé com a Rua Senador Feijó.

Mais à frente da marcha, encontro Soledad Requena, de 54 anos, segurando um cartaz com a mensagem “Nenhuma a menos” e soltando a voz. Soledad falou um pouco sobre si, mas logo interrompeu a fala para se juntar às mulheres imigrantes no canto de luta.

Soledad Requena, 54

Juntando os fragmentos de nossa conversa, descobri que Soledad, do Movimento de Mulheres Imigrantes e Refugiadas, veio do Peru há 5 anos e mora, hoje, na região central paulistana.

Mestra em Política Social e de Gênero, trabalha para o Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (CAMI) e declara, ora em português, ora em espanhol, que se incomoda com “os retrocessos do governo golpista do qual as mulheres imigrantes também foram vítimas”. Para ela, “é dia de luta, mas os outros dias do ano também” e completa: “vivo com meu filho, que divide as tarefas domésticas comigo diariamente. É a casa de uma feminista”.

“É dia de luta, mas os outros dias do ano também”

Chego mais perto da bateria que tanto cativava Soledad, e me coloco entre diversas pessoas vestidas com um colete roxo, distribuído pela Central Única dos Trabalhadores (CUT). Dentre elas, Sílvia Elena de Lima, presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Centro Paula Souza (Sinteps).

Seus olhos pretos arregalam-se e atravessam os meus para afirmar que é contra a Reforma da Previdência prevista na PEC 287: “essa reforma, assim como todas as outras desse governo ilegítimo, interessa apenas ao capital. É…”, interrompe, recolhe a boca para o canto e finaliza: “estamos no neoliberalismo com força total”.

Sílvia destaca a importância da presença, também, de homens no ato: “a luta é de todos. Os homens, eles precisam entender que a igualdade tem que existir.

Sílvia Elena, presidente do Sinteps

Despeço-me de Sílvia e vejo Luiz Marinho, cumprimentando a todos e a mim também. Conversamos primeiro sobre sua trajetória: foi presidente do sindicato dos metalúrgicos do ABC, presidente da CUT, ministro do Trabalho e da Previdência Social durante o governo Lula e, agora, é candidato à presidência do PT/SP. Para ele, “a Reforma da Previdência é desnecessária, o problema do Brasil é verdadeiramente o excesso de desemprego”.

Como homem, não concorda com a equivalência do tempo de contribuição de mulheres e homens no trabalho: “isso é um erro na medida em que a sociedade ainda não respeita os direitos das mulheres. Enquanto não houver igualdade, é um grande erro fazer isso”.

Pouco antes de seguirmos para Viaduto Brigadeiro Luís Antônio, manifestantes puxaram, em coro, o grito “não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da polícia militar”. Enquanto isso, policiais militares enfileirados, lado a lado, nas calçadas, olhavam para o ato e riam. Não consegui uma entrevista com eles, que mantinham-se de braços cruzados, inatingíveis, como barreiras contra nós.

A felicidade foi logo encontrar as meninas Priscila (24), Carolina (30), Josi (24) e Tamires (26), que gentilmente me deram adesivos com ilustrações reunindo as cores roxo, rosa e amarelo no símbolo de Vênus, que representa o sexo feminino.

No meio dele, rostos de mulheres. Um delas, com o punho erguido; luta. E uma estrelinha vermelha do Partido dos Trabalhadores (PT) acompanhava a ilustração, no cantinho. A mensagem que o PT trazia,  “mulheres contra a reforma da previdência”, universalizava o que gente de todo partido e movimento social queria ali.

Vanessa cresceu lutando por moradia, ao lado da mãe. Hoje, com 34 anos, ainda a acompanha na luta, com um acréscimo geracional: leva sua filha de 7 meses para a rua junto. “Já quero mostrar a ela o caminho”, diz Vanessa, abrindo um sorriso largo. A pequena Imani vai no colo, tem um nome que significa “fé”. A preocupação com o futuro da bebê, como mulher negra, faz Vanessa resistir: “Com essa reforma, eu, que comecei a trabalhar registrada muito tarde, já não vou ter aposentadoria. Tenho esperança e busco pelo futuro de minha filha.”

Vanessa

Ela acredita que a reforma é como a Lei dos Sexagenários (1885), que concedia liberdade aos negros escravizados com mais de 60 anos de idade. A medida tinha pouco efeito prático: “antes da abolição, libertaram os escravos mais velhos que, pela vida que levavam, já estavam à beira da morte. Estão fazendo algo parecido agora conosco: é partir para os remédios na velhice, sem aproveitar nada”.

Em frente à Câmara Municipal, encontro Daiane Hohn, militante do Movimento Atingidos por Barragens (MAB), trazendo a voz das mulheres rurais. “Para as mulheres urbanas, são 5 anos a mais. Para as rurais, 10”, diz ela sobre a proposta da reforma previdenciária. “Nem reforma é, na verdade, eles querem o desmonte da previdência.”

Pergunto quem são eles a quem ela se refere. “São as grandes empresas, os bancos que vão ganhar e já estão ganhando”. O valor da dívida de empresas com o INSS contraria o discurso do Governo Federal sobre o déficit da Previdência, conforme valores divulgados pelo Ministério da Fazenda na lista de principais empresas devedoras da União. Daiane, como atingida pela barragem de Belo Monte (PA), revolta-se que uma das principais devedoras é a mineradora Vale, responsável pela tragédia socioambiental de Mariana (MG), no fim de 2015. “Além de ser criminosa e matar pessoas no Rio Doce, deve esse dinheiro público pelo qual o povo é quem vai pagar”.

Caía a noite e o céu ganhava a luz da lua crescente. O movimento seguiu até o Viaduto do Chá, no sentido da Prefeitura de São Paulo. Era a vez do “Fora, Dória”. Por volta das 19h50, o movimento começou a dispersar. Sem estimativa de participantes fornecida, o ato “Aposentadoria fica, Temer sai!” reuniu mulheres em suas mais variadas nuances.

Como ouvi de Bianca Santana, jornalista e escritora, em um debate que precedeu o ato: “quando a gente fala de mulher, a gente fala de muita coisa”, questionando a universalização do que é ser mulher. Estávamos juntas por uma causa que é nossa, escancaramos os nossos marcadores de diferenças, como mulheres brancas, negras, indígenas, rurais ou urbanas, mas nos uníamos pela humanidade. Estávamos lá pela dignidade humana.

A RUA GRITA

Os direitos humanos frente à Cracolândia

Por: Isabel Rabelo  Problemas sociais e falta de políticas públicas abrem espaço para violações em … Continuar lendo Os direitos humanos frente à Cracolândia