22 de março de 2017

Assista o 1˚ Episódio de ‘O Filho dos Outros’ e leia uma entrevista com dois dos diretores

No primeiro episódio da série, jovens, familiares, carcereiros e especialistas são entrevistados no dia seguinte de uma rebelião em uma unidade no Ceará


Por Henrique Santana
Fotos: Reprodução

O Coletivo Rebento, formado por jovens comunicadores de São Paulo, lançou hoje (22) o primeiro episódio da série “O filho dos Outros”, que discute a redução da maioridade penal no país. A produção, feita através de uma campanha de financiamento coletivo, é dividia em quatro partes, as outras três vão ao ar nas próximas semanas.

Na véspera do lançamento da série, a Vaidapé conversou com dois dos diretores, Bruno Garibaldi e Tom Hamburguer, que contaram um pouco sobre o processo de gravação e suas impressões nas visitas as unidades. Leia abaixo a entrevista e assista o primeiro episódio, filmado no Centro Socioeducativo Dom Bosco, em Fortaleza, no dia seguinte de uma rebelião feita pelos jovens internos.


Como surgiu a ideia de fazer a série?

Tom: A ideia surgiu no momento em que a proposta de redução da maioridade penal passou na comissão especial da Câmara, em março de 2015. Foi aí que percebemos que o nível do debate em torno da redução era muito raso e havia pouco material em vídeo sobre o tema disponível na internet.

A campanha de financiamento que vocês organizaram foi feita em um momento que o debate sobre a redução estava muito vivo no país. Hoje dá pra ver que o tema deu uma esfriada? A série surge como um elemento para tentar reacender a discussão?

Tom: De fato, conseguimos tanta adesão a nossa campanha de financiamento porque, em 2015, houve uma forte mobilização nacional contra a redução da maioridade penal. Em geral, os projetos que se apresentaram naquele momento contra as propostas de redução tiveram um forte apoio nas redes sociais. O tema deu uma esfriada porque a proposta ainda está parada no senado, mas, como sempre acontece, ela pode voltar a qualquer momento, ainda mais com a atual conjuntura política do país. Esperamos que a série consiga sensibilizar e engajar as pessoas nesse debate, além de servir como ferramenta para discussões.

Uma série sobre a maioridade penal inevitavelmente dialoga com a questão do sistema carcerário. Como esses dois temas foram trabalhados na produção? E, no entendimento de vocês, qual a importância de um debate sobre a redução em um momento de crise do sistema carcerário no Brasil?

Tom: Desde de que começamos a pesquisa para produzir a série, constatamos que a redução da maioridade penal está relacionada com muitos outros problemas que assumem formas diferentes através da história do país. A atual crise no sistema carcerário é um deles. Há mais de vinte anos, setores do governo brasileiro – apoiados muitas vezes por grande parte da população -, apostam em políticas de segurança públicas de “tolerância zero”, guerra às drogas e encarceramento em massa.

Segundo pesquisas recentes, nas quais nos baseamos para escrever a série, foi justamente essa política de encarceramento que possibilitou a formação das facções. Hoje, como sabemos, elas comandam suas atividades de dentro da cadeia. Esta crise no sistema prisional é uma crise anunciada e a redução da maioridade penal é mais um passo nessa política falida. A curto prazo, reduzir a maioridade penal inflaria ainda mais a população carcerária, além de aumentar a chance de adolescentes em conflito com a lei se inscreverem nas redes de criminalidade. Com isso em vista, um dos episódios da série foca justamente nas relações entre as políticas de segurança pública e a formação e expansão do PCC em São Paulo. Este modelo de segurança pública “tolerância zero” continua em vigor e, apesar do ECA, ele também é aplicado quando se trata de adolescentes em conflito com a lei.

Queria que vocês contassem como que foram desenvolvidos os 4 episódios, quem são os personagens entrevistados, como ficou a divisão temática.

Bruno: Depois de uma pré pesquisa sobre o assunto, constatamos o tamanho do problema e percebemos que era preciso abordar vários outros problemas que perpassam esse debate e que deveriam ser trabalhados conjuntamente para estruturar um argumento. Então elencamos oito temas, que seriam possíveis episódios da série, e começamos a trabalhar nos roteiros e na pesquisa de campo.

Durante o processo de produção, que passa por encontrar os personagens, ouvir suas histórias, filmar, construir um argumento com os dados e comentários de pesquisadores do tema, percebemos que o conteúdo de cada episódio era vasto e tínhamos o desafio de colocá-los dentro de mais ou menos 15 minutos. Consequentemente, concluímos que teríamos recursos para produzir 4 episódios para essa primeira temporada da série.

Entre os personagens temos diferentes perfis. Desde jovens que já passaram pelos sistema e vivem de reciclagem para construir seu próprio barraco, ex-traficante que hoje é acadêmico, pastor que já foi chefe de quadrilha e até mãe com o filho preso que já foi presa e hoje tem uma banda de rap com os filhos…

 

Quais foram as maiores tretas durante o processo de gravação e quais foram as paradas que mais te surpreenderam?

Bruno:A maior treta foi a pesquisa de campo, onde tínhamos que achar os personagens, negociar e entrar no sistema sócio educativo, acompanhar rebeliões, etc. Mas também foi onde mais apreendemos sobre o que realmente acontece dentro das unidades. Qual é o impacto de uma internação na vida de um jovem e de sua família e como se dá a superação depois… Todo este processo é muito doloroso e, na maioria das vezes, só piora o quadro social destes jovens.

O Brasil está silenciosamente produzindo milhares de bombas relógios que vão explodir em algum momento e depois a sociedade não sabe explicar porque a violência só cresce no país. O que mais nos surpreendeu no primeiro momento é que a redução da maioridade penal já acontece na prática e que talvez a aplicação da redução fosse apenas uma institucionalização da medida. Mas o que continua a nos surpreender é que, apesar de nosso país estar indo de encontro a face mais sóbria da nossa história, existe o crescimento de coletivos, saraus, movimentos artísticos e sociais trabalhando de forma autônoma e independente. Configurando outras formas de fazer política, trazendo novos elementos estéticos e se conectando pela cultura.

A equipe pensa em projetos futuros?

Bruno: A partir do lançamento pretendemos agora rodar com a série por algumas cidades do país, promovendo projeções e debates. Também estamos desenvolvendo a segunda temporada. Além disso, firmamos uma parceria em um programa de combate e prevenção da violência na América Latina, junto de pesquisadores e centros de defesa da criança e do adolescente do Brasil, México e Reino Unido.

Assista o primeiro episódio no player


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