09 de março de 2017

Atraso no auxílio aluguel da Prefeitura preocupa moradores de favela na Vila Olímpia

Sem dinheiro, quatro famílias que vivem com o auxílio têm ordem de despejo declarada. Prefeitura de São Paulo diz que verba foi liberada para moradores


Por Fabrício Amorim
Fotos: Fabrício Amorim

Ricardo Monteiro da Silva e seu filho na favela Funchal

Não é preciso caminhar muito na Rua Coliseu para perceber a alegria, a amizade e a solidariedade presentes na convivência entre os moradores da favela Funchal. A expressão de preocupação, no entanto, demonstra a incerteza com o momento de mudança. Setenta e duas famílias que saíram de suas casas não recebem há dois meses o auxílio aluguel pago pela Prefeitura de São Paulo e sofrem ameaças de despejo. “Eles falaram que iam pagar as duas primeiras parcelas do bolsa aluguel e pagaram. Mas não recebemos nada depois disso”, explica o limpador de vidros Ricardo Monteiro da Silva, de 31 anos, nascido na favela Funchal.

Ele foi um dos ex-moradores que saiu da comunidade e conseguiu alugar uma casa de dois cômodos no bairro do Brooklin, na zona sul. Tem um filho de um ano e outro com três anos de idade. Sua esposa está desempregada. Nessa situação, Ricardo sente muita falta dos R$ 500 provenientes do auxílio dado pela Prefeitura. “Estamos devendo o aluguel. Tive que falar com o dono da casa pra esperar um pouco, ter paciência. Além disso, tenho que pagar água, luz, gás, alimentação, e os custos são altos”, lamenta.

Sem receber o auxílio aluguel, quatro famílias têm pedidos de desocupação dos imóveis. As 72 famílias que deixaram a favela estavam com suas habitações em situação de risco e, por isso, tiveram prioridade na remoção. “Aqui era muito fechado, muita umidade, e o cupim comeu os barracos. Assim, um barraco caiu em cima do outro. Então vimos a necessidade de tirar as famílias o mais rápido possível”, esclarece Rosana Santos, colaboradora da comunidade.

“Tem famílias no Capão Redondo, no Jardim Ângela. Famílias inteiras que nasceram aqui e tiveram que ir pra esses bairros porque não possuem condições de alugar na Vila Olímpia. Tem que ser longe mesmo”

Rosana, colaboradora da comunidade

O auxílio aluguel é uma forma de ajuda financeira para que moradores de áreas de risco busquem um lar temporário enquanto aguardam as obras de urbanização de suas futuras moradias. “Quem está pagando essas famílias é a Operação Urbana Faria Lima que tem o caixa lotado. Na verdade, poderiam tirar mais gente que está em situação de risco e que qualquer hora pode ter problemas graves”, conclui Rosana.

A Rua Coliseu é uma via estreita e sem saída, travessa da Rua Funchal no nobre bairro da Vila Olímpia, em São Paulo. O vizinho de fundos é o shopping JK Iguatemi junto de diversos prédios envidraçados ao redor. Isolada pela especulação imobiliária, a favela que ocupa toda a rua tornou-se desconhecida na região que ajudou a inaugurar.

O terreno possui 6.912 m² e foi avaliado pela Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp) em R$ 50 milhões. A gestão de Fernando Haddad (PT) à frente da Prefeitura de São Paulo liberou R$ 40 milhões no ano de 2014 para a urbanização da Favela Funchal dentro da Operação Urbana Faria Lima, o que representou grande vitória para a comunidade que vive no local há mais de 50 anos. Afinal, foram décadas de ameaças de empresários e lutas jurídicas que terminaram com a garantia das construções. Com o acordo, a região foi denominada Zona Especial de Interesse Social (ZEIS) em um projeto que prevê a construção de três prédios para 273 famílias.

Dessa maneira, o projeto de urbanização da favela Funchal foi concluído e aceito pelos moradores. Entretanto, ainda durante a gestão anterior, a Prefeitura de São Paulo solicitou uma mudança que abriu um impasse para a abertura da licitação. “Serão três torres de sete andares. Estamos satisfeitos com o projeto atual. Teremos sacadas nos apartamentos. Tem que acompanhar o entorno e não fazer de qualquer jeito. A gestão anterior quis mudar, mas não queremos”, esclarece Rosana.

Contrastes: favela Funchal e os prédios espelhados do entorno que tomaram a região

A saída dos moradores do local onde construíram suas vidas para bairros distantes e desconhecidos redobra a dificuldade na nova rotina. Crianças e adolescentes de algumas famílias agora são obrigados a fazer grandes deslocamentos. “Tem famílias no Capão Redondo, tem famílias no Jardim Ângela. Temos famílias inteiras que nasceram aqui e tiveram que ir pra esses bairros porque não possuem condições de alugar na Vila Olímpia. Tem que ser longe mesmo. E muitos estão desempregados nesta recessão, sem dinheiro pra pagar o aluguel”, sustenta a colaboradora.

“Com R$ 500 você não consegue alugar uma casa e acaba jogando a família para outra favela”

Ricardo Silva, ex-morador da favela Funchal

Ricardo Silva lembra que o valor dos imóveis fora da favela é muito alto, gerando dificuldade no momento de escolher uma casa temporária. “Com R$ 500 você não consegue alugar uma casa e acaba jogando a família para outra favela.”

A gestão anterior da Prefeitura estimava tirar todos os moradores da favela Funchal para dar início ao processo de urbanização até o mês de abril deste ano. Contudo, a possibilidade de retorno de alguns moradores deixou o futuro incerto. “Ou o auxílio aluguel cai ou vamos ter que construir tudo novamente. Tenho planos de voltar. Como sobrevivo? Pago R$ 600 de aluguel. Como comprar comida, roupa, um produto do salão?”, questiona o cabelereiro Danilo Pereira Cruz de 23 anos, que está morando nas proximidades da Avenida Giovanni Gronchi.

Danilo representa a terceira geração nascida na favela Funchal. O jovem sempre morou na comunidade e trabalhava no salão de cabeleireiro que tinha acabado de reformar. Mas o espaço onde Danilo trabalhava e morava foi ao chão com a primeira remoção feita pela Prefeitura de São Paulo. “Eu tinha minha clientela aqui e minha vida está difícil porque não estou recebendo o auxílio aluguel. Como faço para pagar o dono da casa sem esse auxílio? Meu salão está fechado e estou sem trabalhar, sem ganhar dinheiro. Tenho a ajuda dos meus pais pra me alimentar, mas aqui eu tirava meu sustento. Era pouco dinheiro, mas era meu. Eu comprava minhas coisas. Mudei radicalmente minha vida e não está fácil”, conta Danilo.

Além das dificuldades no cotidiano, o atraso no auxílio aluguel é um obstáculo à realização do desejo da moradia. O sonho de um teto seguro que brilha no olhar de cada morador da favela ganha mais um desafio. “Está cada vez mais complicado e as famílias querem sair pra voltar um dia para um lugar melhor. Não vamos desistir”, afirma Ricardo.

De acordo com a assessoria de comunicação da Secretaria Municipal da Habitação (SEHAB), o dinheiro referente ao auxílio aluguel dos moradores da favela Funchal foi liberado pela Secretaria Municipal da Fazenda (SF) e estará disponível até a próxima sexta-feira (10). A SEHAB não se pronunciou sobre o motivo do atraso dos benefícios.

A cor do preconceito

A especulação imobiliária transformou o bairro da Vila Olímpia, na zona sul de São Paulo, em um gigante econômico. O entorno ficou marcado pela exclusão social e a instalção de grandes empresas, shoppings, universidades e apartamentos residenciais de alto padrão. “Ficamos sabendo que nossos vizinhos se incomodam com a gente aqui. Mas eles que nos incomodam e bloqueiam o sol para cá”, comenta Rosana Santos, colaboradora da Favela Funchal.

O “progresso” invadiu o antigo bairro, que era predominantemente de classe média baixa, elevando gradativamente o preço do metro quadrado dos terrenos na região e mudando aos poucos o perfil econômico dos moradores. O pedaço de terra na Rua Coliseu, que abrigava a favela Funchal, acompanhou a média da região e, por conta disso, tornou-se alvo de construtoras que reivindicavam o terreno. “Vieram vários corretores aqui durante anos querendo expulsar a gente e botamos todos pra correr”, conta Rosana Santos.

“O fato de você morar na favela é preconceito a todo momento. Se a gente for tentar arrumar um trabalho por aqui e falar que mora na favela, esquece”

Ricardo Silva, ex-morador da favela Funchal

A mudança social ocorrida no bairro da Vila Olímpia isolou os moradores da favela Funchal. A comunidade instalada na região há mais de 50 anos ficou escondida entre os prédios envidraçados ao redor. Uma base móvel da Polícia Militar instalou-se permanentemente no início da Rua Coliseu durante anos, como se fosse o porteiro de entrada e saída da favela, ou como se representasse a separação entre dois mundos distintos.

O bairro que por décadas foi acessível aos moradores da comunidade agora possui barreiras, mesmo que invisíveis. “Entrei no Shopping JK Iguatemi, subi a primeira escada rolante ouvindo o segurança passar o rádio. Quando cheguei no segundo andar já tinha um outro segurança me esperando. Aí foram passando rádio um para o outro até eu chegar na casa lotérica para pagar minha conta. Eles esperaram eu sair e percebi toda a movimentação em volta de mim. Eu sabia que estavam olhando para mim por causa da cor da minha pele e talvez pela minha aparência. Tinha um monte de gente no shopping, mas resolveram olhar só para mim, um negro. Eu estava de chinelo, do meu jeito, só queria pagar uma conta. Não preciso me arrumar pra pagar um boleto”, protesta Erik Pereira, morador da favela Funchal.

Depois dessa experiência no shopping, que fica a menos de 200 metros da sua casa, Erik diz que nunca mais entrou no centro de compras de luxo. Sua presença, no entanto, não é bem vinda nem no espaço público. “Num outro dia eu estava passando com meu cachorro na calçada na frente do shopping JK e o segurança me abordou dizendo que eu não podia andar ali. Ele queria que eu passasse bem perto da rua. E aí eu disse que não. Na sequência, veio outro segurança. Aquele outro parou de brigar comigo e eu fui embora. Já vi várias vezes as madames entrando com os cachorrinhos dentro do shopping”, contesta o garoto.

Para Ricardo Monteiro da Silva, 31 anos, limpador de vidros, a palavra “favela” vem carregada de uma noção antecipada e generalizada sobre seus moradores. “O fato de você morar na favela é preconceito a todo momento. Se a gente for tentar arrumar um trabalho por aqui e falar que mora na favela, esquece. Tem preconceito. É discriminação. Pra muita gente só coisa ruim mora na favela”, lamenta.

O cabeleireiro Danilo Pereira Cruz também lembra dos crimes raciais que sofreu, como em um episódio em que foi buscar uma vaga de emprego em uma rede de lanches fast-food. “Fui atrás de trabalho no Shopping Vila Olímpia e falaram para eu deixar o currículo, mas disseram para eu não me empolgar porque não contratavam negros”, enfatiza.

Para quem nega as relações racistas no Brasil, Danilo deixa seu recado: “Preconceito vivo quase todo dia. Mas é preciso passar por cima disso”, finaliza.

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