16 de março de 2017

Ciência e tecnologia é coisa de preto

A presença de negras e negros no universo da ciência e tecnologia não é nenhuma novidade, mas se tornou uma forma de resistência ao apagamento de nossa história.


Por Jay Viegas
Colaboração: Isis Naomí e Gabriel Carneiro

Quando estamos na escola, pouco paramos para pensar sobre quem elaborou aquela fórmula, texto ou diagrama chato que precisamos memorizar para a prova. Afinal, temos outras preocupações, desde coisas bobas como pelos estranhos nascendo em lugares ainda mais estranhos, até questões mais profundas tipo: quem somos no mundo, o que queremos fazer da vida e todo o processo de formação da nossa identidade individual e coletiva.

Essas coisas todas e a fórmula chata de química inicialmente não parecem fazer parte do mesmo processo histórico, final não estamos acostumados a relacionar aquilo que aprendemos em uma aula de biologia sobre a evolução do homo-sapiens com uma aula de história sobre a revolução industrial, muito menos com uma aula de matemática sobre o sistema decimal.

Qual a relação entre isso e o fato de que, em 2015, apenas 26% dos bolsistas da CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico) se autodeclararam pretos ou pardos?

A relação entre essas coisas? Nenhuma delas teria sido possível sem as contribuições – por vezes forçada – do continente africano e do povo negro.

A África é considerada por cientistas e historiadores o berço da civilização humana. O Egito Antigo, apesar de nos filmes aparecer como uma terra habitada por reis e rainhas de pele branca, era negro. Lá ocorreram alguns dos maiores avanços da tecnologia humana, desde grandes feitos em engenharia e astronomia, até a produção de tecidos e o desenvolvimento da matemática. Ainda assim, o pensamento científico moderno apoia-se em obras de autores que ignoram completamente o papel do povo negro na construção dos saberes.

Nas poucas vezes em que a África e a cultura negra aparecem no currículo escolar, é ensinada a história de um continente que só se tornou relevante a partir do momento em que foi colonizado pelos europeus, como se o negro praticamente não existisse antes de se tornar propriedade do branco.

Qual a relação entre isso e o fato de que, em 2015, apenas 26% dos bolsistas da CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico) se autodeclararam pretos ou pardos?

Carlos Eduardo Machado é bacharel licenciado e mestre em história pela USP, e autor do livro “Ciência, Tecnologia e Inovação Africana e Afro- descendente”. Ele aponta que “uma das primeiras grandes estratégias de dominação, que fez com que o continente europeu, um dos menores do mundo, se tornasse uma potência mundial, foi a escravização. E nesse processo de exílio forçado, para você destruir uma pessoa, não basta o uso de armas, chicotes e correntes. Também são necessárias armas psicológicas. Afastar uma pessoa da sua família, vilarejo e batizá-la com um novo nome católico e europeu é uma violência física, cultural, simbólica e psicológica muito grande contra nossa gente.”

O RACISMO NA CONSTRUÇÃO DO PENSAMENTO CIENTÍFICO

“O negro representa o homem natural, selvagem e indomável. (…) Neles, nada evoca a idéia de caráter humano. (…) Com isso, deixamos a África. Não vamos abordá-la posteriormente, pois ela não faz parte da história mundial; não tem nenhum movimento ou desenvolvimento para mostrar.

Friedrich Hegel, filósofo alemão do final do século 18, considerado um dos pensadores mais importantes e influentes da história. Trecho extraído de “a Filosofia a da história” (1837)

“Os negros da África não possuem, por natureza, nenhum sentimento que se eleve acima do ridículo. (…) Não se encontrou um único sequer que apresentasse algo grandioso na arte ou na ciência, ou em qualquer outra aptidão; já entre os brancos, constantemente arrojam-se aqueles que, saídos da plebe mais baixa, adquirem no mundo certo prestígio, por força de dons excelentes..”

– Immanuel Kant, Filósofo prussiano considerado um dos principais da era moderna. Trecho extraído de “Observações Sobre o Sentimento do Belo e do Sublime”(1764)

O processo de descaracterização do negro a partir do apagamento de sua identidade cultural foi uma estratégia consciente de dominação, com consequências que ainda hoje estão enraizadas no imaginário individual e coletivo da população. final, para transformar pessoas em mercadoria, é necessário algum tipo de justificativa, moral ou cientifica, que apague a noção de que quem é explorado é igualmente humano – é necessário dissolver a possibilidade de qualquer tipo de relação de empatia com o próximo.

“Uma das coisas que falavam pra nós, e que muitos de nós ao longo desses séculos absorvemos, é que o povo negro é feio, é sujo, criminoso, não é inteligente. Aprendemos que não temos história, que nada que vem da gente é bom, que só o que interessa é nossa força física. E, no caso das mulheres, servir também na cama desses homens brancos escravizadores”, diz Carlos.

A construção de uma narrativa histórica que coloca o negro sempre como inferior, também afeta profundamente a forma como somos percebidos em lugares que destoam daqueles determinados pela branquitude. As poucas representações da população negra – para além das páginas policiais – costumam ser restritas aos cadernos de esporte ou cultura. Mas quantas vezes vemos um especialista negro comentando o panorama econômico brasileiro, ou falando sobre algum novo avanço na ciência? Preto é dança, é música, é arte, é habilidade esportiva, mas tá bem longe de ser só isso. Preto também é ciência, engenharia e computação. E, atualmente, as profissões ligadas a essas áreas são as que mais crescem no mundo.

“Os professores criam uma série de expectativas para as mulheres negras, e essas expectativas não incluem ter uma carreira bem sucedida em áreas relacionadas a ciência, tecnologia, engenharia e matemática”

Bárbara Paes, 23 anos, é uma das fundadoras do projeto Minas Programam, que procura incentivar a autonomia de mulheres nas áreas de computação e tecnologia. “Hoje em dia, pro fissões relacionadas a esse universo existem num espaço de muito poder econômico, dentro do sistema capitalista. Então, a gente precisa entender que a exclusão das pessoas negras desse espaço é mais uma forma de limitar as nossas possibilidades dentro do sistema”, conta.

Para ela, é preciso incluir as mulheres para desenvolver soluções verdadeiramente democráticas. “Além de ser um ambiente muito masculino, a tecnologia também é uma área predominantemente branca.” Bárbara aponta o fato de que a pouca expressividade no número de pretas e pretos nesse universo é rflexo das desigualdades estabelecidas pela estrutura racista da sociedade brasileira.

Mesmo quando ultrapassados os obstáculos que impedem o acesso ao ensino superior, muitas outras pedras atrapalham o caminho para carreiras de sucesso em áreas historicamente ocupadas por homens brancos e de classes abastadas.

A escassa oferta de bolsas e subsídios que auxiliem a permanência estudantil é outro obstáculo para que o povo preto se mantenha dentro das universidades. “Essa série de ataques ao intelecto negro afasta ainda mais, desde a perspectiva de entrar numa universidade, até a possibilidade de trabalhar com tecnologia”, afirma.

Ao alcançar o mercado de trabalho, mais barreiras. Bárbara comenta que a troca de experiências proporcionada pelo projeto a ajudou a perceber que suas vivências não eram casos isolados. “Muitas mulheres negras que trabalham em diferentes áreas da tecnologia compartilham relatos e situações muito semelhantes no ambiente de trabalho, que vão desde a exclusão na convivência com os demais colegas brancos, até a percepção de que recebiam salários inferiores aos de pessoas que realizam as mesmas funções.”
“Muitas empresas fazem eventos pontuais de inclusão racial, uma semana ali ou aqui. Mas é necessário que se tenha um compromisso sério de contratação de pessoas negras, através de uma reestruturação dos recursos humanos.”

Buh D’ Angelo é uma das criadoras do projeto InfoPreta que, desde 2013, promove serviços de manutenção, informática, oficinas e cursos de tecnologia da informação por e para mulheres negras. Com apenas 22 anos, já é formada em eletrônica, automação industrial, manutenção, tecnologia da informação e robótica. Perguntada sobre o que a inspirou a irradiante com a iniciativa, ela afirma que: “Ao invés de eu ficar esperando me darem espaço eu resolvi criar o meu. Foi a forma que eu encontrei para me sentir incluída e incluir outras mulheres na tecnologia e nesses meios.”

A criação de iniciativas autônomas é apontada por Buh como uma das ferramentas que podem combater reações de desconfiança e estranhamento que afirma já ter recebido de clientes, em especial homens brancos, “A gente faz essa mudança e quebra o padrão, mostra que preto não é só bandido, que não é só coisa errada”.

“Ao invés de eu ficar esperando me darem espaço eu resolvi criar o meu. Foi a forma que eu encontrei para me sentir incluída e incluir outras mulheres na tecnologia e nesses meios.”

Em um país em que o assassinato de jovens negros é praticamente uma política de estado, muitos não tem a oportunidade de aprimorar e exibir seus talentos. “Saber é poder” e romper com a lógica colonizadora e eurocêntrica da produção dos saberes é uma tarefa indispensável para o avanço em direção a uma sociedade mais justa e igualitária.

A presença de Bárbara, Buh e Carlos em ambientes de produção científica e tecnológica ainda é exceção. Não deveria. Nossa simples existência nestes espaços é uma afronta a um sistema construído ao longo de 400 anos, para objetificar e desumanizar corpos e mentes negras. E é por isso mesmo que vamos ficar. A tecnologia e a ciência sempre foram coisa de preto. A questão agora é reconquistar aquilo que nos foi negado, roubado, renomeado e apagado.

INVENÇÕES NEGRAS

ALEXANDER MILES – ELEVADOR
DRA. PATRICIA BATH – LASER UTILIZADO EM CIRURGIA PARA CATARATA
FREDERICK JONES – AR CONDICIONADO
GARRET A. MORGAN – SEMÁFORO
JOHN STANDARD – GELADEIRA
MARIE V. B. BROWN – CIRCUITO FECHADO DE TELEVISÃO


Este texto foi publicado originalmente na 6ª edição impressa da Revista Vaidapé. Confira mais matérias e leia a revista completa aqui.
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