27 de março de 2017

Fundadores de grife histórica da pixação falam sobre tretas e cena do pixo nos anos 90

Na quarta entrevista da série produzida pela Vaidapé para debater o pixo e as manifestações de rua na cidade, falamos com os fundadores de uma das grifes de pixação mais antigas de SP: OS RGS


Por Iuri Salles e Henrique Santana
Fotos: Reprodução

Convite de festa dos RGS com o pixo dos fundadores

A Vaidapé continua sua série de entrevistas para documentar e debater a pixação em SP. Desta vez, fomos até Barueri conversar com dois dos fundadores de uma das grifes mais importantes do país: Os Registrados do Código Penal, ou, como se lê nas ruas, “OS RGS”.

Fundada em Guaianases no início dos anos 1990, a história da grife casa com o período de ascensão do pixo em São Paulo, quando o movimento começou a ganhar mais volume e visibilidade na cidade. A trajetória dos RGS também é costurada por um histórico de violência e muita pixação. Foram diversas as tretas nesses quase 27 anos de existência que, no limite, resultaram em algumas mortes e prisões.

“O RGS sempre foi polêmico. Tem muitas grifes que não gostam dos RGS, mas por quê? Porque nóis bota a cara pra bater. Não tem meias palavras”

Nesta entrevista, apresentamos um pouco do que foi a guerra travadas entre grupos de pixadores nas últimas décadas. A partir da ótica de dois dos protagonistas dessa história – hoje com mais de 40 anos -, também conversamos sobre o processo de criação dos RGS e como seus fundadores e membros mais antigos enxergam a pixação hoje.

Como qualquer um da velha guarda do pixo, os dois entrevistados guardam um arsenal de histórias que todo bom foscador passa. Nesse caldeirão de tretas e rolês, os antigos do movimento contam como foi ter vivido todo este processo de perto.

Os nomes dos entrevistados são fictícios. Nenhum dos dois quis se identificar.

Leia a Entrevista completa


Conta melhor pra gente como começou a história dos RGS e como foi esse início?

RE: OS RGS foi fundado de 1990 para 1991 em Guaianases. A gente começou pequenininho. Eram cinco grupos: STATOS, SÓ BOYS, SEXO4, MC GIRLS e o LINoanimal. O STATOS tinha três pessoas, SÓ BOYS e MC GIRLS também tinham três e o SEXO4 tinha um só. Nós formamos uma pequena família em que um cuidava do outro. Com o passar do tempo, nós percebemos a necessidade de ter um símbolo.

Em meados de 1991, a gente tava lá na zona leste e encontramos outros pixadores na madrugada. Marcamos de se encontrar para fazer um rolê juntos e fizemos. Foi nessa época que a gente conheceu o MORTOS e ele acabou entrando. Dois, três dias depois, ele colou aqui em Osasco e, a partir daí, nós demos inicio a outro período da família RGS. Entraram mais pessoas, mais cabeças pensantes. E mais desavenças também… Nisso os SÓ BOYS e a turma do MC GIRLS saíram e a gente deu continuidade aos RGS.

Como era o processo pra entrar na grife?

PE: Aí tem o seguinte: num era qualquer um que podia pixar RGS. Só podia entrar nos RGS se você tivesse passado pela delegacia, assinado processo. Se não tivesse passagem não entrava, porque nóis é qualidade, não quantidade. A gente é uma família, é um pelo outro. Tanto que a gente deixou de fazer nosso próprio pixos para fazer só RGS e levantar nossa grife. Isso aconteceu durante uns três, quatro anos. A prioridade era a grife.

“Foda-se se nóis vai rodar, a gente vai fazer! O importante é eu fazer meu barato”

Nessa época a cena do pixo já estava consolidada? Existiam outras grifes?

PE: Sim. Já tinha OS MAIS IM, FORAS DL e mais uma pá de grife. Mas nóis não queria ser igual, a gente queria ser melhor que eles, essa é a verdade… E ai a gente se juntou e começou a arrebentar. Isso acarretou muita inveja. O RGS sempre foi polêmico. Tem muitas grifes que não gostam dos RGS, mas por quê? Porque nóis bota a cara pra bater. Não tem meias palavras.

Como funciona a organização dos RGS hoje?

PE: Antigamente os RGS era assim: eu, ele e você mandamos. O resto não passa de integrantes. Mas isso tava errado. Têm vários caras que são merecedor e são dignos de opinar também. Tem que ter voz igual nóis, porque deu a cara pra bater igual, brigou, bateu, apanhou e tá somando com a gente. Então não tem mais aquela hierarquia: nóis manda, vocês obedecem. Hoje todo mundo fala, todo mundo chega num consenso e fecha nas ideias.

Nesses 26 anos a grife já chegou a parar?

PE: Não. Eu nunca parei de pixar. Só parei quando eu tava preso.

Já foi preso por pixação ou assinou algum processo?

PE: Fui preso por outras paradas. Nunca fui preso por causa da pixação, mas já assinei processo. Em 1993, por exemplo, anunciaram que quem pixasse o Teatro Municipal receberia uma recompensa. Quem foi lá pixar? Nóis.

E ganhava o que de recompensa?

PE: Vai vendo… Eles anunciaram que quem pixasse o teatro ganharia uma recompensa e a gente foi com mó cara de lata. Tinha umas gradezinhas, nóis pulou e pau no gato! Assim que a gente encosto a lata para fazer já fechou de viatura. Tipo uma arapuca.

Vocês conseguiram terminar?

PE: Conseguimos. Os polícia ficaram apontando a arma e falando para parar de pixar. Mas eles tinham que pular a grade pra chegar até a gente. Eu falei pros manos: “Vai, vai! Arregaça!”. Ai moiô, saímos de lá algemado, tomamos esculacho e o caramba. E eu dentro da viatura falando que queria minha recompensa…

“Eu bato palma pros pixadores de hoje em dia. Os caras estão mais radical. É pé nas costas de cinco, escada, balancinho… Os caras evoluíram a pixação. Coisa que a gente não enxergava”

Mais esse rolê tinha muito a intenção de mostrar que a gente era pixador de verdade, tá ligado? A gente queria mostrar que era raçudo. Foda-se se nóis vai rodar, a gente vai fazer! O importante é eu fazer meu barato. Agora, por exemplo, eu tomei uma multa do Doria. Mas foda-se, eu tenho 41 anos, minha vida já tá formada. Eu não bebo, não cheiro, não fumo maconha. Meu hobby é pixar e, enquanto eu estiver andando, eu vou estar pixando…

RE: Não fala isso não. Porque tem gente que não tá andando e continua pixando. Nós temos alguns na pixação que não conseguem andar, mas continuam pixando.

Como vocês, com 20 e tantos anos de pixação, enxergam as novas gerações de pixadores?

PE: Eu bato palma pros pixadores de hoje em dia. Os caras estão mais radical. É pé nas costas de cinco [técnica onde um pixador fica em pé no ombro do outro], é escada, balancinho, é cabo… Ou seja, os caras evoluíram a pixação. Coisa que a gente não enxergava.

O que mudou dentro da pixação nesses anos?

PE: O que mudou é que os cara da antiga não querem engolir a nova geração. Mas os moleque chegaram e chegaram para ficar. Os caras da antiga não admitem que os moleques tão revolucionário, tão pra frente. Pô, eu fiz um telhado em um prédio lá no Embu esses dias que foi a coisa mais maravilhosa do mundo. Mas no outro dia eu tava todo quebrado. Não conseguia nem levantar da cama. Tanto que eu não fui nem trampar no outro dia porque eu não aguentei (risos).

Os RGS tem um histórico grande de brigas com outras grife. Como era ser dos RGS durante o período das tretas?

PE: Até 2008 a gente não podia trombar com rival na rua que já saia na porrada. Nóis nem conhecia o cara e já saia arrebentando. Era poucas ideias, ele era rival do nosso barato. Se falasse que era dos MAIS IM, era poucas.

E assim… No início, quando eu comecei a prestar atenção na pixação, eu falei: “Vou lá no point pra ver qual que é”. Mas era assim: ou você pixava ou tava fora. Era a época dos malandrão, dos caras que se achavam foda. Você colava no point só para curtir e os caras tomavam você. Hoje em dia muitos deles são meus parceiros, mas nessa época se você não tivesse nome você não colava.

Eu lembro de um dia que os caras ficaram me zoando e o DI chegou em mim e falou: “Ninguém vai por a mão no cara não que o cara ta de boa”. Mano, eu guardei o nome de todo mundo que tava me tirando e comecei a atropelar geral. Eu não queria saber: era de Tchentcho a Xuim. O único que eu não atropelava era o DI.

E sobre a treta com OS MAIS IM. Hoje você mudou de opinião?

PE: Olha, mano… Eu sou meio radical quanto a isso. Eu não admito fazer pixo com um cara que já tretou com a minha grife. Tem cara que faz, mas eu não faço, porque não desce. Tipo, acabou a treta? No passado você queria me matar, queria arrancar minha cabeça e agora vai falar que é meu amigo? Têm uns bagulho que não entra na minha cabeça.

“Sabe o que é sacar o revólver no meio do Anhangabaú? Eu só saquei a peça e os caras tudo deito. Foi para mostrar que a gente era um pelo outro”

As brigas entre as grife chegaram ao ponto de gerar mortes…

RE: O que? Não foi uma, nem duas…

Queria que vocês explicassem como eram as ruas para os pixadores nos anos 1990, antes do crime organizado se estabelecer como um mediador de conflito.

RE: Antigamente era mais no mano a mano. No soco, na paulada… Não tinha tanto isso de: “Eu sou crime, vou chamar fulano ou ciclano, vou pegar arma”. Era um tempo de muita rebeldia. Tudo era na paulada, na pedrada. As ruas tinham outras regras, ou não tinha regras…

A treta entre RGS e o OS MAIS IM acabou levando algum pixador importante do rolê?

O finado A*FIRMA – Telo, uma das lendas da pixação de SP

RE: Sim. O Telo, que pixava “A*FIRMA”. O moleque representava na época. Ele era um dos linha de frente no RGS. Tava voando alto, era muito ousado, muito pra frente. Isso gerou muito destaque pra ele e, ao mesmo tempo, muita inveja. Quando os cara falavam “vamos pegar alguém dos RGS”, eles já lembravam dele. Era o mais falado, então já virava linha de alvo.

Vocês chegaram a brigar juntos?

PE: Uma vez os caras amassaram ele no centro. Nisso tava subindo eu e outro mano… Sabe o que é sacar o revólver no meio do Anhangabaú? Eu só saquei a peça e os caras tudo deito. Perguntei: “Quem foi, Telo?”. Ele falo quem era e só deu tempo de dar umas bicas. Saímos pisando nos caras e descemos pra 9 de Julho correndo. Por quê? Porque a gente sabia que ia azedar. Mas foi para mostrar que a gente era um pelo outro.

Ele foi assassinado no auge do rolê dele, né?

RE: No auge do rolê. O pior é que o cara que matou ele nem era da pixação. Na verdade, ele tava na pixação, mas só entrou para ter pé para pegar o Telo. Porque o Telo não era só pixador, ele também era correria. Então ele era um pouco audacioso. Quando chegava na vila, ele meio que levava uma com a molecada que era mais nova. Dava uns cascudos, zoava e pá.

Teve um desses moleques que se revoltou e começou a pixar só pra entrar nos MAIS IM. Mas ele já tinha um alvo, que era o Telo. Um dia ele tava sentando na porta da casa da mina dele, numa boa, e os caras passaram. Nem estavam atrás dele, estavam indo pro corre. Só que esse moleque viu ele lá, aproveitou a oportunidade e sentou a madeira nele.

Eu tomo as dores daqueles que se foram por causa de nóis. É um que matou por causa do RGS, outro que tá em cana, que perdeu pai da família, que invadiram a casa…

O que a morte do Telo gerou?

PE: Deixou a gente revoltado, né mano. Querendo dar o troco neles…

Essa foi a primeira morte da treta?

PE: Dos RGS foi.

Como que foi para vocês quando ficou decretado o fim da treta?

PE: Para mim foi muito difícil. Muitos dos nossos perderam a vida, ou estão presos porque mataram em nome disso. Como uma mina de Campinas que matou por nóis e tá em cana até hoje. Se ela sai da cadeia hoje e me pergunta: “E aí?”. Eu falo pra ela: “Tá na paz”. Ai ela me fala: “Eu fui presa, tirei uma vida, e vocês acabam com a briga?”.

Ano passado eu falei com ela e ela me disse: “Você acha justo o que aconteceu?”. Eu vou falar o que pra ela? Pensa nisso. É complicada essa história. Quando eu saí da cadeia e falaram que a trata tinha acabado eu não gostei também. Porra, perdi pixo pra caralho, perdi dente em briga…

Mas acabou por influência direta do crime ou foi consenso?

PE: Foi o crime e as consequências. Porque a gente não tava mais com ânimo para ficar tretando. Nóis tá tudo velho, a gente não é criança mais. Então acabou, mas eu não faço rolê com os caras! Eu tomo as dores daqueles que se foram por causa de nóis. É um que matou por causa do RGS, outro que tá em cana, que perdeu pai da família, que invadiram a casa… Depois vem falar que é amigo? Eu não sou amigo desses caras. Rolê com eles eu não faço. Muitos caras de Campinas, inclusive, não aceitaram o fim da treta com OS MAIS IM e criaram outras grifes para continuar com a guerra.

“Sabe o que é você amar uma pessoa, mas você amar o pixo acima de tudo? É foda… Eu já pedi várias mulheres da hora por causa da pixação, mas eu não me arrependo”

Com as novas regras das ruas também não dava pra segurar esse esquema de ficar saindo na mão toda hora, né?

PE: Nego… Nóis sai na mão. Nóis é velinho, mas gosta. É que hoje a rua segue outras condutas. A parada é mais apaziguar, trocar uma ideia. É uma democracia, mas eu não sou muito democrático também… (risos)

E como foi o início dessa treta toda?

RE: Tiveram várias etapas dessa guerra. A primeira começou quando o ex-integrante L. entrou. Ele já vinha com alguns problemas no mundo da pixação e, na época,  ele foi fazer um muro e fez em cima do pixo de outro mano. Ai o cara contestou esse muro. Chegou no point e falou que ele ia ter que dar 10 latinhas, ou ir lá ascender o pixo dos caras e dar cinco latinhas. O L. ficou meio pá, sem saber o que falar. E o caras lavaram uma com nóis. Falaram: “Eu não quero saber de nada dessa turma de bafo [pixador pelego, iniciante na pixação]”. Ai a gente ficou puto. Eu fui e gritei que ele não ia dar nada. Só que os cara era tudo grandão e mais forte, então nóis correu.

Aí que começou a briga. Já que eles queriam treta, ia ter. E na época o que mais tinha era disposição. Então todos os caras que andavam com OS MAIS IM a gente atropelava e todo cara que colava com nóis eles atropelavam. Isso foi se expandindo, ganhando grandes proporções e muitas frentes de briga.

Como foi a segunda etapa?

RE: O Telo e um maluco dos MAIS IM estavam fazendo um corre de roubar latinha e esconder dentro da casa do Telo. Só que a família do Telo, claro, não gostava de ter uma pá de latinha dentro de casa. Um dia esse maluco pulou na casa dele e o Telo não estava lá, porque ele tinha brigado com a família. O cara ganhou a cena e falou: “O Telo me pediu pra buscar umas latinhas”. Ai a mulher falou: “Leva tudo, não quero saber! Não quero isso aqui dentro da minha casa”.

Quando o Telo foi reivindicar as tintas, o cara pegou e falou: “Mano, sua família me deu o bagulho. Agora o bagulho é meu”. A partir daí voltou a treta e os atropelos. Essa fita com o Telo aconteceu em 1998. Foi a segunda geração da briga, que durou até 2008, 2009, quando acabou.

Para finalizar, o que os RGS representa na vida de vocês?

RE: O RGS representa a minha história, as minhas amizades – que eu ja tive, ainda tenho e que vou guardar.

PE: Pra mim os RGS é a família que eu não tenho. Pra mim, mano, RGS é tudo. É tudo o que eu tenho. O que eu puder fazer pelos RGS eu faço. Se eu tiver que matar por nóis, pode ter certeza que eu mato. Mano, eu não deixei minha vida atoa. Eu deixei minha vida nisso porque eu amo a pixação. As histórias, as risadas, as amizades, o prejuízo…

Eu ja perdi cinco casamento por causa da pixação. Sabe o que é você amar uma pessoa, mas você amar o pixo acima de tudo? É foda… Eu já perdi várias mulheres da hora por causa da pixação. Mas eu não me arrependo. Porque, para mim, é primeiro a pixação, segundo a pixação e terceiro a mulher.

A RUA GRITA

‘É quando som de preto toca que incendeia o baile’

Cantada pelo músico capixaba Fabriccio, a frase acima integra o single “Teu Pretim”, do disco … Continuar lendo ‘É quando som de preto toca que incendeia o baile’