22 de março de 2017

Mestre Jaime de Mar Grande e seu jeito libertário de ensinar capoeira

Na pacata comunidade da Gamboa, na Ilha de Itaparica, Mestre Jaime de Mar Grande mostra a importância da capuêra e apresenta sua filosofia, que difere das formas tradicionais de ensinamento


Por André Zuccolo
Vídeo: Jay Viegas
Fotos: André Zuccolo

Na estrada. Saindo de São Paulo, passando pelo interior de Minas Gerais e pelo sul da Bahia, o cenário se transforma nitidamente a cada quilômetro rodado. Claro que pra chegar pros lados de Salvador tem muito chão, mas a própria atmosfera dos dois extremos do litoral da Bahia muda claramente. A simplicidade caracteriza o visual, a vegetação se transforma, as fazendas e a Mata Atlântica são tomadas pelos coqueiros. A simpatia das pessoas aumenta e o preço das coisas diminui quanto mais ao norte do estado alcançamos. O destino: Ilha de Itaparica.

Bem próximo de Salvador, a uma distância de 45minutos de lancha ou uma hora de Ferry Boat, há uma vista privilegiada e dividida. De um lado da baía, as águas azuis, do outro, a selva de pedra da capital baiana. Os opostos se atraem em Mar Grande, um centro comercial e uma das portas de entrada pelo mar. Localizada na Baía de Todos os Santos e Orixás, a Ilha de Itaparica é dividida em dois municípios: Itaparica e Vera Cruz, onde está localizada, no bairro da Gamboa, a Associação Cultural de Capuêra Angola Paraguassú.

Protegida por uma barreira de corais e com águas claras, a praia da Comunidade da Gamboa está colada com a praia da Penha, que é frequentada pelos barões de Salvador com seus terrenos gigantes e casas luxuosas de veraneio. O acesso
com carro é impossibilitado, o que restringe o trânsito entre os bairros, com rondas regulares de seguranças particulares. Isso não impede que pedestres, bikes e motos circulem, fazendo da praia, também, uma extensão da comunidade.

A Paraguassú

A capuêra desempenha um papel muito importante na comunidade. A Associação Cultural de Capuêra Angola Paraguassú promove eventos, trocas de experiência e abre o seu espaço para aulas de karatê, de teatro, samba de roda e diversas outras manifestações populares.

Com o intuito de integrar os membros da comunidade, o trabalho da Paraguassú serve como
uma forma de resistência, contribuindo e estimulando, através da prática da capuêra angola, a troca franca de saberes. Cheguei um dia antes do Encontro de Culturas Populares, realizado pela Associação.

A expectativa e a ansiedade eram grandes. Até então, meu contato com a capuêra era quase nulo e fui de cabeça aberta pra conhecer a cultura.

“A padronização do movimento é a prisão do pensamento. Ser livre é se movimentar e pensar livremente”

– Mestre Jaime de Mar Grande

Durante o evento, pessoas de vários estados do Brasil e também de fora do país se encontraram para jogar, viver, sentir e aprender capuêra. O aprendizado era transmitido pelo cabeça da Associação, Mestre Jaime de Mar Grande, que comanda as atividades.

Mestre Jaime teve seus primeiros contatos com a capuêra ainda menino. Pesquisador por natureza, sagaz, atento e sereno, tem forte influência no universo da capuêra angola. Viajou para diversos estados brasileiros, chegou a morar na Holanda e, a partir de meados dos anos 2000, iniciou um trabalho em São Paulo.

No último ano, voltou para a terra natal, onde está a Paraguassú, para reativar e dar vida ao espaço que parecia estar abandonado devido sua longa permanência em São Paulo. O Mestre também levou alunos da capital paulista para um intercâmbio experimental em terras baianas, a fim de ensinar e mostrar a capoeira angola na sua raiz, permitindo também uma troca entre a cidade grande e a pacata comunidade da Gamboa.

A respeito desse intercâmbio, o Mestre deixa claro: “O mais importante é essa interação, a pessoa traz coisas do urbano, do acadêmico, e troca com a própria comunidade, pela cultura popular. Isso é o que eu mais desejo, porque é um aprendizado para todo mundo, viver duas coisas ao mesmo tempo. Nenhum é mais que o outro, é tudo conhecimento.”

Diferente da capoeira regional, a capuêra angola tende a ser mais livre e preza por diversos outros elementos dentro da roda, como a teatralidade, o improviso, a espontaneidade, a brincadeira e a dança. Mesmo assim, a maioria dos mestres pratica e ensina os movimentos de forma padronizada, limitando a criatividade dos alunos e colocando barreiras e regras.

Mestre Jaime traz uma perspectiva diferente.Praticante de uma filosofia particular, que liga os movimentos a valores da vida, ele proporciona uma liberdade fora do comum nas suas aulas e rodas. Com a cabeça aberta, vindo do pacato município de Vera Cruz, superou várias barreiras, pesquisou, aprendeu e transmite sua filosofia adiante.

Uma das marcas do trabalho da Paraguassú acontece no final de toda roda, no momento em que o Mestre faz questão de sentar em círculo e abrir uma conversa, dando a palavra para que cada um expresse seu sentimento e discuta sobre o que quiser. Perguntei se isso era comum no mundo da capuêra angola. “Isso é uma coisa da Paraguassú. Outros mestres, por exemplo, não permitem que o aluno fale”, enfatiza.

Ele diz que, após a roda de conversa, cada um aprende com o outro, e que muitos sentimentos vêm à tona. O Mestre acredita que desta forma é possível transformar um momento que poderia ser constrangedor para alguns em um ambiente confortável.

A postura do Mestre Jaime deixa claro que a tradição está em movimento. Através de uma filosofia de liberdade e renovação constante, ele apresenta uma proposta de transgressão dos valores tradicionais, que vai muito além do universo da capuêra angola.

A RUA GRITA

ENSAIO | A volta da caça às bruxas

Por: Felipe Malavasi A manhã de ontem (7) foi conturbada em frente ao Sesc Pompeia, … Continuar lendo ENSAIO | A volta da caça às bruxas