16 de março de 2017

A história de Dulcineia, catadora de materiais recicláveis há duas décadas

Dulcineia, catadora de materiais recicláveis há quase duas décadas, falou com a Vaidapé sobre como chegou na profissão, as dinâmicas de trabalho e os preconceitos na rua. “Sou em quem cata o lixo para o seu carrão de luxo passar na cidade”


Por Thiago Gabriel
Fotos: André Zuccolo
Ilustração: Yandi

Avenida Henrique Schaumann, zona oeste de São Paulo. Os milhares de motoristas que se afunilam no trânsito pouco sabem que logo abaixo deles, sob o viaduto Paulo VI, funciona a mais antiga cooperativa de catadoras e catadores de materiais recicláveis da América Latina.

Há 33 anos, a Coopamare (Cooperativa dos Catadores Autônomos de Papel, Aparas e Materiais Reaproveitáveis) atua no mesmo local fazendo a coleta, triagem e reciclagem de resíduos, em uma cidade que produz cerca de 20 mil toneladas de lixo diariamente.

O terreno foi informalmente cedido aos catadores em 1989, durante a gestão de Luiza Erundina como prefeita. Sem a autorização em papel, porém, a Coopamare sofreu ao longo das gestões posteriores a ameaça do despejo. Durante o governo de Gilberto Kassab na Prefeitura, a concessão de uso do espaço foi finalmente oficializada para o funcionamento da cooperativa.

Quem nos conta a história da Coopamare é Maria Dulcineia Silva Santos, uma das 28 pessoas que trabalham atualmente no local com coleta e reciclagem de resíduos. Natural do município de Imperatriz, no Maranhão, Dulcineia conhece, como poucas, a história da cooperativa e a realidade dos catadores e catadoras em São Paulo.

Há 19 anos, veio para a capital paulista trabalhar como doméstica. Antes, já havia deixado a roça para tentar a sorte na mesma profissão em uma cidade grande do estado natal. “Fiquei quase 15 anos trabalhando para uma família só”, conta, sobre a experiência ainda no nordeste, que chegou ao fim com a possibilidade de vir para São Paulo. “Era muito trabalho e pouca remuneração. Aí veio a ideia de vir pra cá, tinha umas amigas que já estavam aqui e me convidaram. O salário era melhor, assinavam carteira, aí eu vim”.


Ao chegar em São Paulo, Dulcineia conta que gostou da cidade,e se apavorou apenas com o frio: “A primeira noite quase congelei”. A grande dificuldade, porém, não foi a baixa temperatura, mas a morte de sua mãe, poucos dias após a chegada. “Fiquei meio revoltada que eu nunca mais ia ver ela… Mas assim, era coisa que tinha de acontecer.”

“O salário de doméstica não dava porque eu mandava pra minha família para ajudar. Fiquei um ano de doméstica, mas nos meus finais de semana, de noite, eu catava latinha e vinha vender aqui na Coopamare”

Após a morte da mãe, ela afirma que passou por um período difícil enquanto tentava se adaptar à cidade: “O salário de doméstica não dava porque eu mandava pra minha família para ajudar. Nessa época eu gostava muito de beber também, de balada. Fiquei um ano de doméstica, mas nos meus finais de semana, de noite, eu catava latinha e vinha vender aqui na Coopamare. Porque eles já pagavam na hora. Comecei catando na cabeça ou em carrinho de supermercado. Aí comecei a catar mais material. Tinha um pessoal na Coopemare que fazia carroça. Encomendei uma, paguei em duas vezes e, de lá pra cá, puxei carroça direto. Por uns 10 anos mais ou menos.”

A convivência na cooperativa e a possibilidade de trabalhar com mais autonomia fizeram com que apostasse na nova profissão: “Depois de um ano no trabalho de doméstica eu saí e fiquei na Coopamare em definitivo. Fiquei morando na rua uns seis, sete meses, bebia muito, mas sempre trabalhando aqui”. Dulcineia encontrava um cantinho para descansar embaixo da carroça toda noite, “não que nem esse povo que dormia em qualquer lugar, sempre procurava um cantinho afastado, lá no Jardins”.

Foi nesse período que a cooperativa tornou-se mais do que seu local de trabalho. “Comecei a frequentar a Coopamare direto. Tinha uma assistente social que me convidou para as reuniões que tinha de quinta-feira aqui. Graças a essas reuniões eu saí dessa vida.”

As lembranças são de um tempo em que a população e o poder público não facilitavam o trabalho dos catadores na cidade. “Na época que eu comecei, a comunidade não aceitava muito os carroceiros. Fui muito xingada de macaco, burro de carga, cavalo, égua, jogavam restos de comida pra mim, tudo isso eu passei quando eu cheguei aqui, no comecinho. Hoje em dia o pessoal passa, cumprimenta. No meu ver, a sociedade tá vendo o catador como um ser humano mesmo, uma pessoa que tá ali fazendo o seu trabalho, que eu tenho certeza que é digno.”

Hoje, por conta dos 52 anos e as dores que carrega do tempo de carroceira, Dulcineia fica na estação de separação e triagem dos resíduos coletados. Ela foi presidenta da Coopamare durante quatro anos, a partir de 2011. Neste período, entrou em contato com as dificuldades que se apresentam ao buscar apoio do poder público para uma cooperativa autogestionada. “Eu acho que o poder público ainda vê a gente como um ‘João Ninguém’. Nós não recebemos um centavo de ajuda aqui. A despesa do espaço é mais ou menos uns 10 mil reais por mês.”

Os resíduos que são separados para reciclagem na Coopamare não entram nas estatísticas oficiais do município, que patrocina seu próprio programa de Coleta Seletiva, desde 2007. Sobre a atuação municipal, Dulcineia aponta: “Eles não fizeram o projeto de Coleta Seletiva com os catadores. Se eles tivessem feito com a gente, acho que teria dado mais certo. Fizeram dentro de gabinete”.

Os problemas na concepção do projeto municipal impedem uma das maiores cooperativas do país de se tornar parte das instituições conveniadas pela Prefeitura. Dulcineia explica: “Nunca aceitamos fechar com a Prefeitura por causa do caminhão compactador. Aqui, a gente não conseguiria atender a meta deles, que é de seis caminhões por dia. Nós não temos estrutura pra isso, e eles não quiseram fazer uma estrutura melhor. Só queriam enfiar aqueles caminhões aqui juntando tudo, inclusive orgânico. A comunidade nos apoia em tudo que precisamos, então a gente pensou muito que ia atrapalhar com mau cheiro, com inseto”.

O atual programa de Coleta Seletiva de São Paulo conta com 31 centrais de triagem de resíduos em 23 cooperativas conveniadas. Quando perguntamos à Dulcineia se seria bom para a Coopamare fazer parte do programa, ela afirma: “Seria, e olha que a gente já propôs várias sugestões, vários jeitos. Até de usar os nossos próprios veículos, para eles só bancarem gasolina, motorista essas coisas… Estamos lutando. Quem sabe um dia a gente consegue fazer um convênio que seja decente tanto pra eles quanto para nós. Porque eles só veem o lado deles, né?”.

Apesar das dificuldades, a Coopamare ainda possibilita uma reciclagem de vida para muitas pessoas através do trabalho. A coordenação do espaço e a mão-de-obra são responsabilidade de todos que trabalham ali, que recebem mensalmente o valor total do montante arrecadado dividido pelo número de horas trabalhadas por cada um. “Cooperativa é muito mais saudável para você trabalhar, é mais horizontal. Você tem mais liberdade de espaço, de agir, de fazer as coisas certas.”, conta Dulcineia.

Sobre a profissão, ela não pensa duas vezes antes de responder se gosta do que faz: “Adoro. O que eu mais gosto é que a gente é livre, num tem patrão. Lógico que tem obrigação com a cooperativa, tem documento pra assinar. Mas de alguém chegar e falar: ‘faz isso, tá mal feito, faz de novo’, nós não temos esse problema. É essa parte que eu gosto do meu trabalho.”


Este texto foi publicado originalmente na 6ª edição impressa da Revista Vaidapé. Confira mais matérias e leia a revista completa aqui.
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