20 de março de 2017

A série ‘O Filho dos Outros’ vai mudar seu modo de pensar o sistema socioeducativo

A produção retoma a discussão do projeto de redução da maioridade no país, a partir de entrevistas com a juventude e especialistas que pesquisam o tema. A Vaidapé conversou com dois dos diretores da séire


Por Henrique Santana
Fotos: Divulgação

O Coletivo Rebento, formado por jornalistas, documentaristas e artistas de São Paulo, iniciou em 2015 a produção da web-série “O Filho dos Outros”. O projeto, que entrevista personagens de diferentes perfis e pesquisadores que vivem, viveram e estudam a questão da redução da maioridade penal no país, traz uma contribuição para qualificar o debate sobre o tema a partir de quatro episódios.

“Entre os personagens temos diferentes perfis, desde jovens que já passaram pelos sistema e vivem de reciclagem para construir seu próprio barraco, ex-traficante que hoje é acadêmico, pastor que já foi chefe de quadrilha e até mãe com o filho preso que já foi presa e hoje tem uma banda de rap com os filhos”, adianta Bruno Garibaldi, um dos diretores da web-série.

A produção foi realizada a partir de uma campanha de financiamento coletivo que contou com mais de 600 apoiadores e, no final de 2016, foi indicada a melhor roteiro documental pelo Rio WebFest, principal festival destinado à produção audiovisual para internet.

A Redução

A ideia da série surgiu no calor da aprovação do projeto de redução da maioridade penal em comissão especial da Câmara, em março de 2015. Hoje, a proposta já foi aprovada na Casa e espera votação no Senado. “Foi aí que percebemos que o nível do debate em torno da redução era muito raso e havia pouco material em vídeo sobre o tema disponível na internet”, considera Tom Hamburger, também diretor da produção.

Vídeo de divulgação da campanha de fiananciamento

Para ele, o tema deu uma esfriada com a proposta parada no Senado. “Mas, como sempre acontece, ela pode voltar a qualquer momento, ainda mais com a atual conjuntura política do país. Esperamos que a série consiga sensibilizar e engajar as pessoas nesse debate”, completa.

No processo de produção a equipe percebeu a necessidade de abordar a questão por diferentes perspectivas. “A atual crise do sistema carcerário é uma delas, já que acaba se relacionando com a questão da redução. Essa política de encarceramento em massa, por exemplo, que possibilitou o surgimento de facções como o PCC. A crise no sistema é uma crise anunciada e a redução é mais um passo nessa política falida”, analisa Tom.

Tendo isso em vista, um dos episódios foca nas relações entre as políticas de segurança pública e a formação e expansão da facção paulista. De outro lado, a série também aborda a perspectiva de fortalecimento cultural entre os jovens moradores das periferias.

“O que mais nos surpreendeu no primeiro momento é que a redução da maioridade penal já acontece na prática e que talvez a aplicação da redução fosse apenas uma institucionalização da medida. Mas o que continua a nos surpreender é que, apesar de estarmos indo cada vez mais de encontro a face mais sombria da nossa história, existe o crescimento de coletivos, saraus, movimentos artísticos e sociais trabalhando de forma autônoma e independente. Configurando outras formas de fazer política, trazendo novos elementos estéticos e se conectando pela cultura”, finaliza Bruno.

Para ambos os diretores, as maiores tretas no processo de filmagem se desenrolaram na fase inicial, tanto durante a pesquisa, quanto na seleção dos personagens. No período foram algumas visitas e negociações com o sistemasócio educativo para produzir as entrevistas e fazer as filmagens. “Mas também foi onde mais apreendemos sobre o que realmente acontece dentro das unidades. Qual é o impacto de uma internação na vida de um jovem e de sua família e como se dá a superação depois…Todo este processo é muito doloroso e na maioria das vezes só piora o quadro social destes jovens. O Brasil está silenciosamente produzindo milhares de bombas relógios que vão explodir em algum momento e depois a sociedade não sabe explicar porque a violência só cresce no país.”

Onde assistir?

Agora a obra chega gratuitamente ao público. A pré-estreia acontece nessa terça-feira (21), dia internacional contra a descriminação racial, com exibição a céu aberto no teatro de contêiner da Cia Mungunzá, centro de SP.  Lá serão projetados os quatro episódios da série, seguidos de uma roda de conversa sobre o tema. No dia seguinte, a produção vai ao ar no Youtube.

Depois do lançamento, o coletivo também pretende rodar os vídeos em outras cidades do país, promovendo exibições e debates. A segunda temporada também está sendo desenvolvida, a partir de parcerias firmadas em um programa de combate e prevenção da violência na América Latina.


Serviço

O que? Pré-estreia da série “O Filho dos Outros”
Quando? 21 de março, terça-feira, das 18h30 às 23h
Onde? Na Cia Mungunzá de Teatro | Rua dos Gusmões, 43 – Centro, São Paulo
Quanto? Entrada gratuita

Na ocasião serão vendidos comes e bebes. Confirme presença no evento do Facebook clicando aqui.

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