22 de março de 2017

Ouvimos 6 relatos de jovens que sofreram episódios traumáticos de assédio no transporte

Número de denúncias de assédio no transporte público em SP cresceu. É difícil saber o número total de casos, mas os relatos de jovens que já sofreram com situações ajudam a aprofundar o entendimento do quadro


Por Patricia Iglecio
Foto: Reprodução

Na semana passada, o jornal O Estado de São Paulo divulgou dados que revelam que foram registrados quatro casos de assédio por semana no transporte público paulista, em 2016.

De acordo com os dados, os registros de denúncia por estupro, ato obsceno, importunação ofensiva ao pudor e estupro de vulnerável avançou 850% nos últimos quatro anos. Entre 2013 e 2016, as denúncias em ônibus municipais, trens do metrô e da CPTM saltaram de 23 para 219. Somente no ano passado, foram 188 relatos em trens e 31 em ônibus.

Em 2015, após uma série de episódios de assédio sexual serem amplamente divulgados na mídia, acompanhados de uma intensa mobilização de movimentos feministas, o Metrô criou uma campanha que incentivava a denúncia de passageiros.

Um caso emblemático foi o de Shirlândia Mendes, 29 anos, que estava a caminho do trabalho na Linha 3-Vermelha quando foi encoxada por um homem que ejaculou em sua perna. O caso, amplamente divulgado, incentivou que outras mulheres denunciassem casos de assédio.

O levantamento do Estadão foi feito com base nas denúncias feitas por Boletim de Ocorrência, no entanto, é difícil imaginar que os números revelem um retrato real do que realmente acontece no dia a dia da mulher ao se deslocar pela cidade.

Pensando nisso, a Vaidapé coletou o relato de algumas jovens que sofreram episódios de assédio em ônibus e metros e ajudam a entender a perspectiva de vulnerabilidade da mulher no transporte público.

Caroline Gobatto, 22 anos

No primeiro ano de faculdade eu ia de trem até São Paulo. Moro em Mogi das Cruzes, então pegava a linha coral. Nisso, como eu ia sempre pela manhã, umas 6h, era sempre cheio e eu usava fone. Teve um dia que o trem estava realmente cheio, e difícil de se mexer. E tinha um homem atrás de mim, mas a principio nem liguei muito, porque nunca tinha rolado nada comigo. Eu ouvia história, mas nunca botava fé que ia acontecer.

Comecei a ficar meio desconfortável, porque senti que em algumas horas ele tava me encoxando. Tentava me afastar, mas não tinha pra onde ir. Logo que eu percebi, senti uma coisa molhada passando nas minhas costas por dentro da minha blusa,

O cara tinha se masturbado e gozado em mim. Na hora que eu virei pra trás ele tava com o pau pra fora. Nisso, fui direto na cara dele com um soco meio bosta, porque não sei socar pessoas, aparentemente. Aí umas velhinhas me ajudaram e uns caras tiraram ele do trem. Mas eu tava tão em choque, tremendo e chorando que não ousei sair do trem pra denunciar nem nada.

Fora o medo que eu tava sentindo. Por meses, antes de fazer terapia etc., eu ficava mais de uma hora esperando o movimento passar na plataforma, porque se eu entrava no trem cheio começava a ter um ataque de pânico. E até hoje, quando o trem está cheio, fico com medo e tento encostar nas paredes ou nas portas.

Débora Tonioli, 21 anos

Eu descia a escada rolante com pressa, porque já tinha ouvido o metrô chegar. Dei uma corridinha para entrar e corri perto de um alguns meninos. Moleques, homens, não saberia dizer.

Eram uns 20 juntos, e todos gritaram pra mim, de tudo. Peguei algumas coisas como: “Corre gostosa, você consegue”, “Não quer esperar o próximo?”, “Nossa, olha como balança quando ela corre”. Entrei no vagão, e a porta fechou. Os caras então ficaram batendo na porta do vagão me chamando: “volta aqui, volta aqui”, “você é linda”.

Eu fui para o final do vagão e fiquei no cantinho. Percebi que todo mundo do vagão tinha visto o que tinha acontecido.

A vergonha e humilhação que eu senti é indescritível! Eu abaixei a cabeça e fiquei lá parada. Até que uma menina, com cabelo curto, óculos e um violão sem capa nas costas se aproximou de mim e disse: “Vamos lá bater neles? A gente consegue”. Minha força voltou um pouco no lugar. Eu agradeci, mas desci na próxima estação, porque não suportava mais continuar até o meu destino com pessoas que tinham visto aquilo.

Andressa Meca, 22 anos

Estava na linha vermelha voltando pra casa, umas 21h (até então, o metro nem estava tão lotado). Um moço fez questão de ficar muito perto de mim, meio que me prendendo contra a porta a viagem toda. Até que perdi a paciência e tossi na cara dele. Ele saiu, porém, não foi nada agradável. Estava meio que encurralada e cada vez ele chegava mais perto (cada vez que o metrô brecava).

Júlia Barreto, 22 anos

Uma vez no ônibus, indo pra casa, eu estava antes da catraca e vi um cara novo me olhando fixamente. Fiquei olhando de volta meio puta, mas ele não parou e comecei a ficar com medo. Passei a catraca e ele veio logo atrás. O ônibus estava lotado e a gente teve que ficar bem perto.

Tentei diminuir meu tamanho 200x pra que ele não encostasse em mim. E ele me chamando de várias coisas. Estava chegando no meu ponto e resolvi esperar – até porque não tinha muita outra opção. Dei sinal e passei correndo pro fim do ônibus pra descer. Ufa!

Sem olhar pra trás, sai andando acelerada. Mas, pra minha surpresa, ele veio logo atrás, também bem rápido. Ele me alcançou e segurou meu braço. Eu já de perna mole tentava articular outro plano na cabeça: “E aí gata, não vai passar o celular pra manter contato?”.

Paula Serra, 22 anos

Outro dia eu estava tranquilona voltando do brás, no metrô. Passou um cara me olhando bem fixamente. Ele saiu do trem, passou pela janela ainda sem tirar o olho, botou a mão no pinto e segurou, falando umas bosta. Pelamor né. Isso pra falar pouco.

Marília Amando, 25 anos

Um homem sentou na cadeira em frente à que eu estava no metrô e começou a tentar falar comigo, oferecendo para eu apertar a sua mão. Eu não respondi, estava lendo, mas fiquei atenta ao que ele estava fazendo. Continuou falando comigo e tentando encostar em mim, então virei de costas e ele levantou. Ficou de pé em frente a porta olhando pra mim e chegou a minha estação.

A porta já estava aberta, e ele não tinha saído. Aí passei por ele rápido (que me estendeu de novo a mão), mas quando desci ele veio atrás. Fiquei meio assustada e veio o aviso das portas fechando, entrei de novo no vagão e ele não conseguiu me seguir. Ficou me olhando da estação e eu senti raiva e alívio, por passar por isso no meio do meu dia, mas pelo menos me livrar desse cara. Tive que descer e pegar o trem na direção contraria, e fiquei o tempo todo procurando pra ver se via ele de novo, com medo.

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