20 de março de 2017

Como uma pequena Paróquia foi fundamental para construção do Parque Chácara do Jockey

Conversamos com Padre Darci, cuidador da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, que falou sobre o início da luta pelo parque e sobre a atuação social da Igreja


Por Gil Reis
Fotos: Francisco Buoro

O resgate e a lembrança são essenciais para que seja preservada a memória de um lugar e de um povo. No Butantã, a criação do Parque Chácara do Jockey é reconhecida como uma das vitórias mais importantes da região, muito pela luta diária das comunidades que integram esse distrito. Por isso, a Vaidapé dá continuidade a série de entrevistas com os personagens centrais para que o espaço se tornasse realidade.

Darci Bortollini é padre e cuidador da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, localizada no bairro Ferreira, no distrito do Butantã. Darci, que tem uma longa caminhada de luta social dentro e fora da Igreja, atenta para o primeiro detalhe que surgiu em nossa conversa: “querem mudar o nome do nosso bairro para Vila Sônia II, mas nós não queremos. Queremos que o bairro permaneça Ferreira, pois foi construído em torno da história das famílias Ferreira, aqui dessa região. Então, a identidade não é Vila Sônia II e sim bairro Ferreira. O parque Chácara do Jockey, inclusive, também está dentro deste bairro”.

Padre Darci sorri ao lembrar das reuniões “anarquistas”

Há 14 anos o Padre Darci e a Paróquia Nossa Senhora de Fátima estão envolvidos com a criação e melhoria da Chácara do Jockey. As primeiras reuniões, antes mesmo da definição comunitária e da constatação da necessidade de se ter um parque, aconteciam na paróquia, que fica muito próxima ao equipamento público.

Leia a entrevista completa


Como começou a atuação da Paróquia em torno da luta pelo parque?

Podemos dividir a luta em várias partes. Há mais de 30 anos a imprensa regional já noticiava que a várzea do jockey poderia ser um parque. A força maior era por conta das enchentes do Córrego Pirajussara. O grupo de combate às enchentes, liderado pelo Djalma há mais de 16 anos, barrou o projeto para fazer casas populares com a argumentação de preservar a área para contenção das águas do córrego.

Esse foi o fato principal para não construírem casas nem empreendimentos imobiliários naquele lugar, isso há mais ou menos 16 anos atrás. O segundo ponto foi a conscientização para que a Chácara do Jockey se transformasse em parque. Se descobriu que o Jockey tinha uma dívida muito grande e que, nas entrelinhas das administrações municipais, havia interesse que essa área se transformasse em parque. Primeiro começamos com um abaixo assinado, antes do governo Kassab. A igreja que promoveu, e recolhemos muitas assinaturas. Nós tivemos a adesão de muitas instituições, como a associação comercial do bairro, a Rede Butantã e a USP. Foram 47 entidades que nos ajudaram a coletar assinaturas.

Os primeiros encontros do movimento em prol do parque eram na sua paróquia. Como foram essas reuniões?

Sala onde aconteceram primeiras reuniões do Movimento Chácara do Jóquei

Depois desse processo, no período Kassab, a gente começou a convocar reuniões aqui na Igreja. Não quero dizer que tomamos a iniciativa da reunião, mas no começo a liderança foi do pessoal da Igreja. Depois as reuniões se deslocaram, significa que quem tinha mais possibilidade e mais informação foi tomando pé dos encontros. Mas foi sempre muito democrático isso. Não havia obrigatoriedade de presença nem assinaturas de lista. Era meio anárquico, no bom sentido (risos). Não havia um líder estabelecido. Nós convocávamos as reuniões e as pessoas compareciam. Quem começava a coordenar, coordenava aquele encontro e fazia as propostas.

“A questão do Jockey foi uma coisa que uniu todos. De esquerda, direita ou centro. O foco foi um só, foi direcionado. Ao mesmo tempo, as pessoas descobrem que, ao se unir, elas tem força de mudança”

Ai surgiram muitas coisas interessantes.  Primeiro fizemos o abraço do parque. Buscamos o apoio da mídia, mas era muito difícil nessa época. Nós convocamos todas as entidades que estavam dispostas a fazer a ação, divulgamos bastante e o abraço reuniu centenas pessoas. Isso gerou outro momento, também muito importante, que foram as duas audiências públicas na câmara dos vereadores. A primeira reunião motivou uma segunda, liderada pelo Vereador Andrea Matarazzo. Havia representantes de todos os partidos nessa reunião, o que deu um reforço muito importante. Quem nos ajudou muito foi o pessoal da Secretaria do Verde e da SubPrefeitura, especialmente os servidores públicos, que foram muito importantes. Eles também tinham a filosofia e a vontade de que a chácara se transformasse em parque. Isso foi mais ou menos no final do mandato Kassab e começo do mandato Haddad.

Nesse momento tínhamos uma grande preocupação com o Decreto de Utilidade Pública (DUP). Se há o decreto, não se pode fazer nada dentro da área. Em certo momento tememos, pois ficamos sabendo pelo pessoal do Pequeninos do Jockey que havia propostas de empreendimentos imobiliários. Nós chegamos a ver pessoas tirando as medidas do terreno. Eu perguntei para um deles: “Porque você está medindo?”. Ele respondeu que era para uma empresa imobiliária e disse: “Sinto muito, estou fazendo um trabalho que eu não gostaria de fazer, mas infelizmente sou profissional”. Era de uma empresa imobiliária que queria fazer uma proposta de venda da área. Isso foi no fim da gestão Kassab. Mesmo com isso, temendo que o parque não sairia, nossas reuniões continuaram no mesmo ritmo.

Para você, qual foi o momento mais marcante da luta? Quando teve certeza que o parque ia sair?

Nesse percurso todo, chegamos a levar até o ministro dos Esportes para o parque, que era o Aldo Rebello na época. Eu e ele, junto com o presidente do Jockey e o secretário municipal dos Esportes, fizemos uma reunião e isso foi muito impactante. Nós atacávamos de todas as formas.  Isso impactava, porque era simplesmente a vontade do povo.

“Tudo que leva a convivência é completamente humano, é o que Deus quer. Não importa se a pessoa professa uma religião ou não. O importante é que ela saiba dialogar, saiba conviver e o parque é esse lugar de convivência”

Até que chegou um dia histórico. Chicão, eu,  Djalma, Sueli e uma outra senhora, representante do Parque da Fonte, fomos chamados à Secretaria do Verde. Chegando lá, tinham 5 técnicos da Prefeitura, um coordenador do Verde e mais duas secretarias, todos sentados. Eles discutiram das 9h às 11h30, apenas coisas muito técnicas. De repente, o coordenador da reunião fez uma votação: quem concorda fica sentado e quem discorda fica de pé. Todos ficaram estáticos. Passaram três segundos e ele disse: “A cidade acaba de ganhar mais um parque”. Nós levamos uns 15 segundos para perceber isso. Foi uma eternidade e de repente a gente comemorou: “Ganhamos um parque, ganhamos um parque!”. No dia seguinte saiu no Diário Oficial. Foi uma coisa muito gratificante, uma das maiores conquistas da nossa região nos últimos anos, com certeza.

É marcante também ver agora as pessoas do parque e do entorno. É uma camada popular. A gente vê eles jogando futebol lá, andando de skate, jogando basquete, vôlei, fazendo seu pique-nique. Isso é muito legal e gratificante. Nós percebemos também a potencialidade que o parque tem para o futuro. Pelo espaço, pelo que pode ser realizado lá dentro, pelas áreas de promoção de cultura. Posto isso, vem uma outra etapa agora: o que vai acontecer dentro do parque? A comunidade e este grupo [Movimento Parque Chacára do Jóque] ainda estão muito mobilizados.

Qual foi a aceitação da luta dentro da Paróquia?

A aceitação aqui foi espetacular. Acredito que as pessoas começaram a ter, aqui, uma consciência política de participação. A nossa Paróquia aqui é muito eclética, ela tem todas as tendências. Tem professor da USP, tem as pessoas que vem das vilas, tem uma gama de pessoas muito diferente que participam. Mas a questão do Jockey foi uma coisa que uniu todos. Seja o pessoal de esquerda, direita ou centro, como você quiser colocar ideologicamente. O foco foi um só, foi direcionado. Ao mesmo tempo, as pessoas descobrem que, ao se unir, elas tem força de mudança.

Até estou lendo um livro chamado “O peregrino e o convertido”, escrito por uma francesa que faz uma análise sociológica sobre as religiões. Na França se diz que o Estado é laico, mas de repente há preocupação de legislar sobre o que é a religião ou não. É engraçado, pois é uma contradição. Pode usar véu? Pode usar crucifixo? Um estado laico que, de repente, é obrigado a legislar sobre a religião cria um paradoxo. Isso me fez descobrir que a religião deve ser um fermento para melhorar a vida das pessoas. A religião deve levar a convivência das pessoas. Tudo que leva a convivência é completamente humano, é o que Deus quer. Não importa se a pessoa professa uma religião ou não. O importante é que ela saiba dialogar, saiba conviver. E o parque é esse lugar de convivência. Quando você entrar no parque, ninguém vai perguntar se é católico, evangélico, umbandista ou ateu. Ninguém vai perguntar! Você está num espaço de convivência, isso que é legal, isso que é bonito.

A comunidade Ferreira, como devemos chamar, passou a ter um olhar diferente sobre a Paróquia depois do envolvimento na luta pelo parque? Foi positivo?

Sou suspeito para dizer, mas acredito que a paróquia começou a ser vista como um ponto de credibilidade e de seriedade. Não só pela fé e religião que professa, mas pela importância que tem no meio social do bairro. Tem muitas pessoas que nos procuram e perguntam: “Quero fazer um trabalho voluntário, vocês conhecem alguém?”. São pessoas que não são da Igreja, mas que vem tomar informações que a gente tem.

“Você já ouviu falar de Leonardo Boffe, Frei Betto, Dom Paulo Evaristo Arns e até o Paulo Freire. Eram meus amigos e pessoas que eu admirava muito”

A criação do Jockey ajudou nisso, pois nós ficamos muito expostos. Entrevistas em televisão, rádio, os encontros aqui na Igreja. De repente, explodiu o parque. Muita gente do entorno queria participar, mas não sabia sobre o parque. Isso acontece porque a gente não tem uma Globo na mão, nós somos muito limitados na nossa forma de comunicação. Agora, com as novas formas que a gente tem de mídia, que são muito recentes, fica mais fácil. O importante disso para mim, para comunidade e para todos envolvidos, é a consciência de participação na vida do seu bairro. Eu sempre falo: “Quando eu sair do meu bairro, ficaria feliz se ele estivesse um pouco melhor”. Minha casa é minha aldeia. Isso é importantíssimo.

A Paróquia realiza outros tipos de serviço social?

A paróquia tem seus serviços religiosos. Tem suas missas dominicais, missas de dia de semana, formação religiosa, batismo, catequese e também a área social. Nós atendemos grupos de terceira idade, dando aulas de informática e temos uma creche, cuja manutenção e o cuidado é feito pela Paróquia. Temos 66 crianças lá, onde também funciona cum berçário, que é uma demanda muito procurada. Estamos agora em um trabalho de ampliação. Temos a pastoral da criança também, que, apesar do bairro não ter muita criança, pois é um bairro envelhecido, temos reunião com as mães toda semana. Elas estão fora da circunscrição da Paróquia, mas nós assistimos mesmo assim.

Porque a Paróquia decidiu se envolver estritamente com a luta pelo parque?

Nós não queremos estar fora do mundo. O céu é depois, se ele vier. Nós queremos fazer o céu na terra. Queremos o lugar de convívio, de confraternização e onde se respeita a pessoa humana e a sua dignidade. Onde ela seja valorizada e amada. Essa é nossa perspectiva, pois o divino está no humano. Eu não posso dizer que amo Deus se não amo aquele que está perto de mim. Como dizer que amo um Deus que eu não vejo, se eu não amo aquele que eu vejo, caramba? Seria uma contradição.

Eu na minha vida sempre estive envolvido em atividade sociais. Muito e sempre. Desde quando era estudante da faculdade, sempre me envolvi com essas atividades. Eu virei padre com uns 20 anos, porque conheci pessoas dentro da Igreja muito engajadas, pessoas que admirei muto e que me motivaram. Você já ouviu falar de Leonardo Boffe, Frei Betto, Dom Paulo Evaristo Arns e até o Paulo Freire. Eram meus amigos e pessoas que eu admirava muito. Pessoas incríveis e fascinantes que me inspiraram, tanto na luta social, quanto na atuação religiosa.

Houve alguma dificuldade de diálogo com pessoas que não eram da Igreja? Existiu algum tipo de embate entre a Paróquia e algum setor específico?

Não tenho dificuldade de diálogo com o mundo e não tenho preconceitos. O problema é que a Igreja é uma instituição muito grande e muito diversa. Nela, cada um pode se expressar como quiser. Os próprios bispos dentro da igreja tem posições diferentes. O Papa Francisco agora é completamente diferente de outros. Não tenho nenhuma dificuldade em dialogar com o mundo. Mesmo na questão do parque, foi ao contrário. Quantas pessoas não vieram recorrer a mim, porque construímos com credibilidade e seriedade a nossa luta? Esse foi o modo que nós levamos a coisa. Nunca perguntamos qual seu partido, qual sua fé, qual sua sexualidade. Nunca perguntamos isso nem nunca estivamos interessados nisso.

A Igreja católica é muito diferente da Bancada Evangélica, por exemplo. Eles são um absurdo, um retrocesso político. A Bancada Evangélica, para usar como exemplo, não tem nada a ver com a Igreja católica. São coisas diferentes, que as pessoas às vezes confundem.

Você vê que as Paróquias do Butantã, de um modo geral, tem como base essa função social?

Todas tem. Se você vai na Santa Suzana, no portal do Morumbi, eles tem atividades sociais fantásticas. Todas as Paróquias tem atividades sociais, mas é que isso não é divulgado. Existe uma entidade que eu fundei, que é uma das maiores entidades beneficentes de São Paulo, o serviço social Bom Jesus. Lá nós tivemos a informação de que 40% ou mais das atividades sociais em São Paulo são fornecidas pela Igreja. Seja de creches ou centros de juventude, muitas estão vinculadas a Igreja. Isso parte da Igreja para a comunidade.

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