09 de março de 2017

Um dos pixadores que peitou Doria nos muros de SP tem algo a dizer

Responsável por uma das pixações mais comentadas dos últimos meses, PA trocou uma ideia sobre seu rolê no prédio do Terminal Bandeira, o processo de aceitação do pixo na sociedade e muito mais


Por Henrique Santana e Iuri Sales
Foto em destaque: Reprodução

Colamos no centro de SP pra trocar uma ideia com PA, responsável por uma das pixações mais faladas dos últimos meses. Ele nos explicou como fez a invasão junto com outros pixadores do prédio no Terminal Bandeira e os motivos que levaram a gravar as frases “Dória Ladrão”, “Pixo é Arte” e “Fora Temer” num dos pontos de maior visibilidade da região central.

Morador de Barueri, na grande São Paulo, PA não quis revelar a sua identidade no pixo, carregada por uma trajetória de passagem por grifes de respeito em SP e muitos rolês na cidade. Para esta entrevista, se limitou a exposição do nome de seu rolê comercial, o Pixoação. Foi de sua iniciativa, junto com outros integrantes do grupo, que o documentário “#Di# Pichar é Humano” saiu do papel para salas de exibições do Brasil e do mundo, onde chegou a participar de mostras em Portugal e Berlim.

Ainda assim, faz questão de dividir seus trabalhos comerciais do lado transgressor da rua, separação que acredita ser essencial em um momento de maior aceitação do pixo por setores da sociedade. “É bom ganhar dinheiro, quem não quer? Mas a partir do momento que você vira gourmet, que mistura o seu rolê que um dia foi vandal e faz algo que as pessoas desejam, perde um pouco do peso que tinha.”

“O Terminal Bandeira, foi de onde saíram os Bandeirante. Pessoas que oprimiram. Meu rolê hoje é assim: eu faço onde existe um conceito pra mim e pro espaço”

O papo também caminhou por outros assuntos. Falamos do envolvimento da classe média no movimento, das dinâmicas da rua nos últimos anos, da repressão policial e do atual momento político da cidade.

Depois do pixador Sabot e do grafiteiro Subtu, PA é o terceiro entrevistado de uma série produzida pela Vaidapé para aprofundar o debate sobre a criminalização das manifestações urbanas e as relações entre pixo, grafite e poder público.

LEIA A ENTREVISTA COMPLETA


Como vocês fizeram pra entrar no prédio do Terminal Bandeira e meter um “Dória Ladrão” gigante?

Era natal, do dia 24 para o dia 25. O prédio é comercial então a gente disse na portaria que precisava de um estacionamento porque ia passar o ano novo no centro. E foi assim que a gente entrou. Pensamos em fazer algo para o Alckimin, mas na hora acabou saindo isso e deu todo esse bafafá.

Na rua seu rolê é mais de prédio, pico ou chão mesmo?

Eu gosto de fazer de tudo um pouco, desde chão até o alto. No que eu identificar que minha obra vai ficar legal, que vai ter um conceito por trás de tudo. Hoje a minha mentalidade mudou muito. Se eu quis um prédio, eu fiz, se eu quis escalada, eu fiz, de corda, eu fiz. Então isso não me satisfaz mais. Hoje eu penso em deixar meu rolê em algum lugar que tenha história, que as pessoas que veem aquilo se identifiquem. Então o meu rolê não está saturado, ele está em lugares estratégicos


Momento da ação no terminal – Foto: Fábio Vieira/FotoRua

Qual o conceito da pixação no prédio do Terminal Bandeira?

O Terminal Bandeira, se a gente puxar na história, foi de onde saíram os Bandeirantes. Tem um peso nisso ai. Eles foram pessoas que oprimiram. Meu rolê hoje é mais ou menos assim: eu faço onde existe um conceito pra mim e pro espaço em geral.

Você já tinha essa parada de escrever frases de protesto em baixo da pixação?

“Hoje a gente tem filmes, tem exposições, tem marca de roupa, tipográfos usando a tipografia do pixo. Escancarou pro mundo e isso tá sendo capitalizado, essa é a verdade”

Não. Isso começou depois de ter alcançado um status na quebrada. Eu comecei com isso em 2008, fazendo esse rolê com frases do alfabeto comum. A minha mente se abriu para outros horizontes e eu me liguei que a pixação era um movimento muito forte, até como denúncia. Se a estética já incomoda, imagina quando você deixa um protesto que as pessoas conseguem ler e decifrar.

O que te deu esse estalo pra ver a pixação com outros olhos?

Eu sempre gostei de pesquisar e estudar pessoas que tem relevância. Pessoas como o DI e o A*firma – Telo, além de algumas coisas do rap, como o Mano Brown. A gente ouve muito a música do cara. Eu costumo pensar que ele consegue transmitir e trazer sentimento na música e a gente passa isso para o muro. São essas três pessoas que eu me inspiro e trago pro meu rolê.

Quem você destacaria, hoje, que tem feito um rolê foda na pixação?

Eu não vou citar nominalmente a marca dos caras. Isso pode trazer problemas para essas pessoas, mas quem é da pixação vai identificar. São os meninos da janela do ABC e os veteranos das quebradas, que fazem rolê no chão. Eu não vou citar nomes, mas quem é sabe.

Como você vê o pixo indo para galerias e bienais?

Em uma das pixações mais emblemáticas de DI, no Conjunto Nacional, ele se passou por um morador revoltado com a ação na mídia. “Di afirmou que ficou apavorado com a situação. Segundo ele, o esquema de segurança do prédio não poderia permitir esse tipo de ação.”

Pelo o que eu estudei da pixação, o Di foi o pixador que implementou o conceito da arte dentro do movimento. Quando ele faz o troféu, ele usa a estética dele para passar um conceito diferente. Ele usa ferros, faz um monumento de concreto com 17 anos, faz uma carta para o governador, pixa o palácio do governo. Por mais que ele não tivesse estudo, ele tinha um conhecimento básico. O DI foi um dos primeiros pixadores a pixar o prédio da bienal, não dentro, mas sim o pico. Ele sabia que aquele lugar trazia história, trazia conceito, e que quem entrasse naquele salão tinha um reconhecimento.

Com o passar dos anos, surgiram outras pessoas que entraram na universidade, assimilaram a situação e expandiram isso para o mundo. Colocaram conceito invadindo bienal, invadindo galeria, fazendo atropelo em grafite. Graças a essa segunda geração, o pixo virou o que ele é hoje. O DI implantou o conceito no movimento, mas essas pessoas que causaram um debate na sociedade. Hoje a gente tem filmes, tem manos fazendo exposições, tem comercial de publicidade, marca de roupa, tipográfos usando a tipografia do pixo. Escancarou pro mundo e isso tá sendo capitalizado, essa é a verdade…

Isso é positivo ou negativo?

Vai depender de cada pixador. É bom ganhar dinheiro, quem não quer? Mas a partir do momento que você vira gourmet, que você mistura o seu rolê que um dia foi vandal e faz algo que as pessoas desejam, perde um pouco do peso que tinha. Para mim, a marca que cada pixador faz na rua é uma obra da arte. E é justamente em cima disso que eu tento desvincular o meu lado transgressor do comercial.

“O pixo na rua tem legitimidade. Tem todos os conceitos, a ilegalidade. A verdadeira arte do pixador tá na rua, não na tela. A tela não suporta a pixação”

É necessário o pixador separar o rolê vandal de trabalhos comerciais?

Sim, porque o pixo na rua tem legitimidade. Tem todos os conceitos, a ilegalidade, o lado artístico de elaborar sua letra. Então a verdadeira arte do pixador tá na rua, tá nos muros, não tá na tela. A tela não suporta a pixação…

Sai de contexto?

Sai de contexto. O único jeito de levar a pixação para uma galeria, como conceito de arte, é por meio da foto ou do vídeo. Uma bela fotografia trás sentimentos. Você olha e fala: “Porra olha o que aquele cara fez”. Agora, o pixador até pode colocar a marca dele numa tela, mas é a mesma coisa que fazer um símbolo da Nike. Você vai saber do que se trata, da história, porém, se for levar em conta os conceitos que a rua exige, aquilo não tem peso, não tem transgressão.

Foto: Reprodução

Com o pixo cada vez mais sendo aceito como arte, você acha que a pixação vai perder a sua agressividade?

O que vai manter essa agressividade do pixo serão os pixadores. Se a sua marca vira uma obra, a partir do momento que ela for capitada e aceita, vai caber a você querer colocar ela em um lugar público que pode trazer outras represálias. Por exemplo, alguns desses grafiteiros que estão estourados na gringa continuam fazendo um rolê ilegal na cidade. Eles conseguiram assimilar: o que é trabalho é trabalho e o que é vandal é vandal.

A nova geração, depois desse movimento que o pixo vem vivendo nos últimos anos, está vindo com um novo entendimento sobre o que é o pixo?

“O pixador é maloqueiro, é sofredor. Então esses caras observam o movimento e se usufruem da caminhada de irmãos que morreram fazendo essas letras”

Eu já notei que alguns vem com esse embasamento político desde o começo, diferente de como foi comigo. Tá mais fácil, é muita informação. Por outro lado, tem uns moleques que a gente fala para ir no escadão, para treinar a letra no caderno, e ele já olha para você e fala: “Quê? Tá me tirando! Eu vou fazer escalada”. Isso me preocupa um pouco, porque eu já conheci gente que tinha começado a pixar a um mês e foi fazer um pico que ele nem sabia como andar, como subir. Eu conheci esse cara e outro dia fiquei sabendo que ele caiu e morreu. Então a informação tá a milhão e a pessoa quer meter a cara, mas ela não sabe como fazer aquilo. Nisso que acontece esse tipo de tragédia.

Esse conceito mais artístico do pixo vai trazer a playboyzada pro movimento?

Pô… já começou, né mano. O que saiu essa semana na Calvin Klein [a Calvin Klein lançou camisetas feitas por Pixote e usando a tipografia do pixo]? O que esse mano representa pro movimento do pixo? Porra nenhuma. É um cara que estudou a história do movimento e nasceu num berço de cultura. Ele não usou nem a estética do estado dele, que é o Rio, e já foi pra São Paulo…

Foto: Fábio Vieira/FotoRua

Mas não é culpa dele. Não é proibido usar a estética do pixo. Mas é o que eu digo e repito: não faz parte do pixo, com “X”, que segue uma série de normas e condutas, que tem uma vivência, um sofrimento na cidade. Pessoas de dentro do movimento legitimaram ele, colocaram ele dentro de grupos que na história da pixação representam muita coisa. Quem trouxe esse cara para dentro está dando legitimidade em cima da caminhada de outros manos. De muitos que morreram caindo de prédios ou nas quebradas para assinar essas grifes.

Entenda mais sobre o Pixote aqui.

Você acha que isso rolou com o [Fotógrafo] Choque também?

Sim, claro. É uma cara que tinha visão, tinha um estudo avançado. A preocupação dele quando acordava não era ir atrás de um prato de comida, era ir atrás de livro. São outras prioridades. O pixador é maloqueiro, é sofredor. Então esses caras observam o movimento e se usufruem da caminhada de irmãos que morreram fazendo essas letras. A gente leva o rótulo de bandido, de traficante, de ladrão e eles viram artistas. Então tá tudo errado.

Quantas vezes você já rodou?

A mano… Eu já rodei, mas os meus rolês quase sempre são bem sucedidos. Já assinei alguns bagulhos mas nunca deu nada. Tomei 15 mil de multa em BH, mas não recorreram a isso, graças a Deus.

“É risco de vida que a gente corre. Cada dia que a gente sai para pixar é a vida ou a liberdade”

Com essa história do Deic intimando pixador aqui em São Paulo, eu já me lembro do que aconteceu com o Goma, lá em BH, onde a repressão ficou mais forte. Você tem medo que isso comece a acontecer em São Paulo?

Ele já foi liberado, graças a Deus. Mas ficou uma cota, né. Pegaram ele como exemplo…  Eu já estava esperando por isso aqui. Para mim não é novidade. Eu sempre falei que só vou preso se for por pixação, fora isso eu não vou mais. Porque se você é da quebrada você sabe como funciona. É só sair de casa que tem um cara na esquina falando: “Ei, quer vender uma droga? Quer fazer um corre?”. E eu não precisei disso. A pixação entrou na minha mente e me levou para outros horizontes que nem dentro da escola eu conseguia enxergar.

Eu participei de um filme, mano! Quando que eu ia imaginar isso? Participar de um filme, de um comercial. Pessoas me convidando para dar entrevista, palestra. Para me apresentar dentro de espaços de conceito. E com o aval da Prefeitura ainda… É um bagulho foda!


Projeção do Pixo Ação feita na lateral de prédio em SP – Foto: Arquivo Pixo Ação

E seu rolê de vídeo. Como que é?

A gente só fez três vídeos e mudou completamente o conceito de vídeos de pixação, onde se comercializava DVD. O bagulho é aberto e é só colar nas exibições que você assiste. A gente não mostra só o cara pixando, mas abre o diálogo com a pessoa que não pixa. A gente tem a ação e tem ideia, dá voz para o cara se expressar.

Se cada pixação é uma obra, qual é a mais importante para você?

Das minhas eu considero essa última do terminal. Todo o conceito do espaço, toda a repercussão que deu… É  a minha principal. De outras pixações, tem a do Di, também no terminal. Por tudo aquilo que eu falei sobre a questão dos bandeirantes, além de ser uma pixação que tá ai até hoje.

Hoje em dia, nos anos 2000, as principais são as da [Ponte] Estaiada, pelo símbolo que ela representa para a cidade. Nos anos 1990 tiveram outras também. O conjunto nacional, que o Di pixou, o Edifício Itália do Tchentcho e do Xuim.


A primeira pixação do Itália, feita no início dos anos 1990 por Tchentcho e Xuim. Ao lado, o histórico prédio de DI no Terminal Bandeira, pixação que sobrevive até hoje

Você acha que essa campanha anti-pixação do Dória é só marketing? Porque parece uma tarefa impossível acabar com as pixações da cidade ?

Isso ai, se você for ver, é tudo jogo de interesse desse pessoal elitista. A primeira coisa que o cara fez na cidade foi apagar as pixações da Estaiada. Na quebrada não tem educação, não tem saúde e o transporte é uma bosta. Mas a primeira coisa que o cara faz é apagar o cenário da Globo. Ele tá preocupado com tinta na parede e no fim tá dando um aval para a repressão contra os pixadores.

E você acha que aumentou a repressão?

Claro! Esse ano eu já rodei e me espancaram. Deram uns boxe, umas jatadas de spray de pimenta, deram bica. É risco de vida que a gente corre. Cada dia que a gente sai para pixar é a vida ou a liberdade. Você pode cair pixando, pode ser morto por polícia, pode ser morto por morador.

Então é o que eu falo: a sua marca na rua não tem preço. Porque é o conceito da vida e não há dinheiro que compre a sua vida. Se fosse assim, a gente comprava a vida dos meninos que morreram e eles voltavam. Mas, ao mesmo tempo, eu não critico ninguém. Porque um valor alto muda a sua vida, sua história. Se você se matou por aquilo é seu direito fazer o que bem entender. Então cada um com seu corre e boa sorte.

A RUA GRITA

ENSAIO | A volta da caça às bruxas

Por: Felipe Malavasi A manhã de ontem (7) foi conturbada em frente ao Sesc Pompeia, … Continuar lendo ENSAIO | A volta da caça às bruxas