03 de março de 2017

Rincon Sapiência entre a seriedade do MC e a malemolência da rua


O rapper falou no Vaidapé na Rua sobre o lançamento do novo álbum, representatividade negra, as origens no futebol e como chegou ao estilo de suas músicas


Por Victor Santos
Fotos: Paula Serra

Na segunda-feira, dia 13 de fevereiro, o programa #VaidapéNaRua recebeu Rincon Sapiência nos estúdios da Rádio Cidadã FM, a comunitária do Butantã. O rapper trabalha no lançamento de seu primeiro álbum oficial, que garantiu estar próximo: “pro final de março já pode criar uma expectativa”, contou.

Ouça a entrevista completa no player:

O programa registrou audiência recorde e recebemos diversos comentários na transmissão ao vivo do Facebook. Entre salves e questões, muitos ouvintes sugeriram parcerias com grandes nomes do cenário nacional como Rashid e Msário.

Rincon é cauteloso na resposta mas deixa aberta a possibilidade. “A partir do momento em que eu lanço o disco, já me vejo mais solto pra fazer qualquer outra coisa. Espero lançar o disco, me divertir bastante com ele e fazer muitas parcerias com outros artistas pra continuar movimentando as coisas”.

Afirma que há um ritmo mais intenso de trabalho no cenário musical atualmente: “Hoje é tudo muito rápido. Não é que nem nos anos 1990, que ficava dois anos ouvindo Nevermind, do Nirvana; Sobrevivendo no Inferno, do Racionais; Afrociberdelia, do Chico Science e Nação Zumbi”.

“Hoje é tudo muito rápido. Não é que nem nos anos 1990, que ficava dois anos ouvindo Nevermind, do Nirvana; Sobrevivendo no Inferno, do Racionais; Afrociberdelia, do Chico Science e Nação Zumbi”

O próprio rapper é responsável pela produção do álbum, que conta com a coprodução e mixagem de William Magalhães, da Banda Black Rio, quem Rincon define como “grande monstro da música”.  O encontro se deu pela produtora que trabalha, a Boia Fria Produções.

Com uma lista inicial de 17 canções já gravadas, William ajudou a escolher 10 e auxiliou na seleção de timbres, aprimorou alguns arranjos, além de outros elementos que compõem o trabalho em estúdio. “Amaciou o trabalho, que tava legal mas tinha detalhes a se resolver. É um trabalho que faz toda a diferença no final”, comenta o rapper.

Ouça “Mr Funky Samba”, um clássico da Black Rio.

Muitos ouvintes queriam notícias sobre a presença de Rincon no Cypher “Poetas no Topo 3”. O rapper disse ainda estar em fase de conversas, ouviu falar da participação do pernambucano Diomedes Chinaski e confessou estar curioso, ter uma vontade de produzir logo, mas que é preciso calma. “Gosto muito de conversar com a música, ouvir a batida, pensar minha imposição vocal, se vai ser mais firme, mais malemolente, malandragem e tal”, explica.

Rincon contou ainda sobre sua relação com outro grande rapper nacional, Nocivo Shomon, um amigo de longa data. Falou sobre a reação de Nocivo quando ele firmou sua primeira parceria com o produtor Rick Bonadio e gravou um som ao lado da banda Nx Zero.

Nome

Apesar de ter passado por diversos bairros de São Paulo, foi na zona leste que “infiltrei minha raiz, conheci a música, montei minhas primeiras bandas. É a quebrada que eu represento na linha de frente”, conta Rincon.

“Muito além daquela ideia de Faraó, da escravidão e de uma caricatura tribal. Muita coisa da cultura afrobrasileira veio do Congo, como a congada, muito forte em Minas Gerais”

Nascido e criado na Cohab 1, bairro de Itaquera, ele mandou aquele salve para a zona oeste de São Paulo e se apresentou a partir dos três nomes com os quais se identifica: Rincon Sapiência, Danilo e Manicongo.

O nome de nascimento é Danilo. O apelido de quebrada é Rincon, alusão ao volante colombiano ídolo do Corinthians nos anos 1990, o que pode parecer ingrato para um palmeirense como o rapper, mas não reclama.

“É tradição no rap o MC escolher algum adjetivo como o sagaz, voraz”, comenta. Depois de algum tempo com seu nome de quebrada, Rincon aderiu ao Sapiência.

Manicongo já parte de outra construção e outro momento de vida. “Existia uma sociedade nobre com reis e rainhas. Já se manjava de medicina, astrologia e matemática há muito tempo. O povo preto africano sempre deteve um conhecimento nobre. No Império do Congo [fundado no século XIII], que era um território junto com Angola, os reis eram chamados de Manicongo. Havia uma monarquia ou nobreza preta na cultura africana. Quando descobri isso, vi que ia muito além daquela ideia de Faraó, da escravidão e de uma caricatura tribal. Muita coisa da cultura afrobrasileira veio do Congo, como a congada, muito forte em Minas Gerais.”

O Rap e O Futebol

Seu irmão mais velho, em quem se espelhou de forma natural, o introduziu ao rap. O contato com a rua nasceu do futebol. Quando moleque, morava próximo a uma praça: “meu quintal era uma quadra, futebol de quebrada, cheio de ‘próximos’ pra entrar. Se perdia demorava pra jogar de novo”, explica.

Depois do colégio, corria para a quadra com os amigos. A molecada mais velha, que chegava depois, pedia para alguém ficar e deixar a bola, que era da rapaziada mais nova. Rincon era um dos que ficavam, muitas vezes até o final, jogando com o pessoal mais velho. “Aí que você conhece o crime, o skate, quem faz o quê. Aí que te dá um norte da rua. Fiz grafite, pixei, colava em samba, tentei dançar break”, tudo partiu do futebol.

“Se eu fosse um bom rapaz poderia ser contratado na Lusa”

Começou na várzea e chegou até a base da Associação Portuguesa de Desportos, a Lusa, de onde guarda uma recordação de rotina dura. Acordava muito cedo, pegava metrô para o Canindé, vestia os uniformes, ia para a fazendinha, treinava e voltava no começo da tarde.

Descansava até o começo da noite e, no momento que poderia dar um rolê, surgia a dúvida: “Se você vai pra rua não acorda cedo no outro dia”. Vivia uma fase de descoberta do universo de namoros, de ficar na rua, então largou o futebol profissional e montou uma banda.

Era um grupo de rock, afinal “dificilmente um guitarrista de quebrada aprendia a tocar pra mandar soul e gêneros mais tradicionais pro rap”. Rincon conta que a influência vinha de Nirvana, Charlie Brown, Planet Hemp e bandas do gênero. O rap ainda estava apenas nas letras que fazia.

Processo criativo

Rincon é Mc e produtor, e seu trabalho parte de diferentes processos.

Ele reflete sobre o artista enquanto “fazedor de arte”, alguém que precisa atingir o público, para que ouçam e dancem suas canções. É necessário também um retorno financeiro. Ao mesmo tempo, aprendeu muito sobre questões raciais através do rap, o que levou a nomes como Malcolm X. De tal forma que passou a sentir a responsabilidade de passar essa mensagem também.

O rapper falou sobre a cultura de Mc, levantada pela música Ponta de Lança, analisando a qualidade do Mestre de Cerimônia como algo a ser conquistado no palco. Ele cita o exemplo de Kurtis Blow, um dos primeiros nomes do rap no Brooklyn, bairro de Nova York, e o “Clap your hands everybody”, frase do clássico “The Breaks”.

Ouça “The Breaks”, clássico do rap de Kurtis Blow.

“No começo, isso eu vi no Hip Hop Evolution [série documental], alguns Mc’s tinham aversão em gravar as músicas, com medo que as pessoas não fossem mais vê-los ao vivo. O Mc, para ter sua energia, calor e qualidade, precisa saber fazer essa interação com o público. Uma das ferramentas é o que compõe, pensando texto, rima, métrica, flow”, observa.

“Pensei que o instrumental tava gostosinho, dá uma cama pra eu dar uns peteleco ali”.

Atualmente, enxerga um movimento nos EUA em que a personalidade do rapper vende mais que a própria música. Na mesma reflexão, os artistas que apresentam um trampo de qualidade acabam sendo deixados um pouco de lado e não estão, necessariamente, na linha de frente.

Rincon não vê essa tendência como um processo definido e cita a alta dos Cyphers para explicar um momento de valorização da rima e do texto.

Sobre a canção “A Coisa Tá Preta”, que fechou o segundo bloco do programa, conta ter começado com o instrumental. Buscou um sample e fez arranjos em cima dele.

Apesar do ritmo dançante e suingado, alguns timbres e sintetizadores usados deram uma abertura para um texto mais ácido. “Achei interessante fazer uma música com o texto bem chocante, dei outro significado pro termo ‘A Coisa Tá Preta’, mas com um contraponto de um instrumental gostosinho e tal”, continua.

Atualmente também explora outras áreas. Estuda teatro e já participou de dois filmes, “A Busca” (2012) com Wagner Moura e “Jonas” (2015) com Criolo e Karol Conka. A atuação e o audiovisual são áreas de grande interesse do rapper, que pensa em escrever curtas, monólogos e até longas, no futuro.

“Vou meter um e cult aqui, porque eu gosto muito do cinema europeu”

Explica sua preferência por uma questão conceitual, de obras que fogem do óbvio e falam de amor sem clichés como “eu te amo” ou “a luz e as estrelas”. O rapper citou como exemplo o filme francês Caché (2005), de Michael Haneke.

Estilo

O flow do rapper sofreu uma certa transformação ao longo da carreira. O que começou mais ligado ao boom bap – frases com muitas palavras – foi substituído pela influência norte-americana do “Southern Hip Hop”, vulgo “Dirty South”, em que o flow é “de muita malandragem, um flow calhorda”, analisa.

A levada, que já era comum no Distrito Federal, ganhou força em São Paulo a partir da música “Elegância”.

Assim, elementos característicos do gênero, como produções eletrônicas e o beat na voz para causar distorção, começaram a se apresentar com mais frequência, como na música “Jaçanã Picadilha” de Relatos da Invasão e “Pretin” de Flora Matos.

São Paulo

Sobre a canção “Transporte Público”, Rincon diz ser inspirada por um aumento de passagem, quando a tarifa já pesava no bolso e a logística do transporte já era uma questão problemática. Tem a canção como um trampo de grande relevância, pois a tarifa aumentou desde que a música foi feita e a mobilidade ainda é um sério problema dos paulistanos.

Conta ter conhecido o pessoal do Movimento Passe Livre (MPL) após a veiculação do clipe, e que chegou a se reunir e participar de atos. Entende que a arte, apesar de uma função profissional na sua vida, com resposta financeira, também é um instrumento para levantar causas e debates que entende como relevante. Já havia comentado sobre a questão da raça e agora o transporte.

Analisa que, em geral, os políticos não costumam conhecer a massa, alguns têm mais sensibilidade. “O Haddad tinha gente que se deslumbrava né, ele tomava uma catuaba e ‘Uau! É o máximo!’, acho que vai além disso”.

Questionado sobre as novas ações do novo prefeito João Dória (PSDB) contra o grafite e o pixo, o rapper as enxerga como um tiro no pé. Entende que o proceder do novo prefeito é algo tradicional em São Paulo, fortalecido por Paulo Maluf (PP), figura conhecida pelo “rouba mas faz”, por fazer o que é possível ver a olho nu.

O Rap e a representatividade hoje

O debate sobre representatividade também esteve na pauta do programa.

Rincon entende que um rapper branco pode ser muito bom, mas pondera que o hip hop é uma cultura periférica, algo diverso que abrange latinos, ítalo-americano, mas de maioria preta. O jeito de vestir, a musicalidade e muito do hip hop é uma cultura originado dos pretos.

“Não vejo como problema os artistas brancos, mas o que eles trazem como bagagem vem de outra visão sobre o mundo, carregando outras responsabilidades. Eu, por exemplo, não teria coragem de subir numa viatura num clipe meu. Mesmo achando um take legal. Pode acontecer, como já aconteceu, de eu estar voltando do estúdio e os cara me clicar, eles sabem. Já estou em outra linha do corre que outros rapazes.”

Ele falou ainda que entende a escalada de grupos que representam outros extratos sociais, como o Damassaclan, como uma questão de mérito, afirmando respeitar a caminhada deles. Mas a presença de negros, como Xis e Black Alien, se faz importante para manter características da cultura hip hop.

“Gosto de ver essa rapaziada, como BK, Djonga, Froid. Artistas pretos e talentosos fazendo a coisa acontecer também”, celebra.


|  O Vaidapé na Rua é transmitido ao vivo toda segunda-feira, às 20h, pela Rádio Cidadã FM. Na região do Butantã, o público pode acompanhar o programa sintonizando 87,5 FM e, no mundo inteiro, através do site da rádio. Acompanhe também a transmissão #aovivo pela página da Vaidapé no Facebook

Música, debate e Vaidapé!

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