30 de março de 2017

Souto MC fala sobre lançamento do EP, samba, machismo e influências

Uma das grandes promessas do Rap Nacional, Souto MC confirmou, no Vaidapé na Rua, que o lançamento do primeiro EP deve acontecer até julho


Por Alan Felipe
Fotos: Reprodução

No dia 13 de março o #VaidapéNaRua trocou uma ideia com a rapper Carol, mais conhecida como Souto MC. No bate papo, ela falou da sua carreira, do machismo na cena, outros estilos musicais e confirmou, ao vivo nos estúdios da Cidadã FM, o lançamento até julho, de seu primeiro EP. A aposta do rap nacional ainda crava: “Esse ano tem se falado que é o ano dos líricos, mas pra mim é o ano da mulherada lírica”.

Ouça a entrevista completa no player:

Início

A aproximação de Souto com o rap aconteceu logo na infância, quando morava em Itaquaquecetuba, na grande São Paulo, na casa da tia. “Eu me lembro de atazanar minhas primas pra elas colocarem um rap porque eu achava demais”, disse a MC, que começou ouvindo Dexter e Racionais MC’s. Outro estilo que a influenciou nessa mesma época foi o samba, com os grupos de pagode que se apresentavam nos showmícios e comícios da região.

Ela começou a escrever aos 13 anos de idade e, já aos 15, fez uma “diss maluca”, que abriu os caminhos para começar a compor. “Eu mostrei para as pessoas e elas acharam daora. Eu pensei: acho que consigo e gosto de fazer isso”. A caminhada de Souto MC continuou na Zona Norte da capital paulista, onde entrou pela primeira em um estúdio e gravou “Só pra Começar”, para a coletânea do Cine Rima Vida, a convite de Issa Paz.

“Eu me lembro de atazanar minhas primas pra elas colocarem um rap porque eu achava demais”

Antes disso, a primeira música gravada por Souto havia sido Redenção, ainda improvisando uma estrutura de estúdio. Ela conta que o amigo Jamal, beatmaker de Minas Gerais, estava em São Paulo e cedeu o beat para ela. “A gente pegou cobertor e toalha e forrou o guarda roupa dele, tá ligado? Forrou os baguio tudo, colocou o microfone dentro e foi a primeira vez que eu tive uma experiência parecida com um estúdio. Entrei no negócio e fui pra Nárnia quando comecei a gravar”.

Influências

A lista de pessoas que influenciaram Souto musicalmente é grande, e não fica só no rap. A primeira a ser citada é a rapper Snow Tha Product, que tem semelhança tanto física quanto na velocidade do flow. “Ela é uma mina mexicana e vive nos Estados Unidos. Eu sempre fui acostumada a escrever as coisas muito rápido, e quando eu ouvi o som dela pela primeira vez foi isso, eu escrevo assim”. Comprovando seu gosto plural, citou Amy Winehouse, antes de começar a falar de outras rappers.

“Duas que eu sempre cito e que sempre vou citar são a Issa [Paz] e a Sara [Donato], do Rap Plus Size. Elas me inspiram, não só em questões musicais e profissionais, mas também em vida. A trajetória delas dentro do rap nacional é, e tem sido, uma coisa linda e muito importante para nós mulheres que estamos chegando”, continua a MC.

Souto ainda citou os nomes de Gabi Niaray, das poetisas Ingrid Martins e Jade Quebra, Lucas D’Ogum, Quarto Tento, Giovani Felizate, Lua Cristina, Maurício Prince e Dente Poesia “porque eles agregam não só em questões musicais, mas em questões de vida, e são pessoas que inspiram”.

Samba

“O samba é um senhor mais velho dando conselho pro Rap, que é um moleque marrento, um moleque chato”

Seu mergulho de cabeça no ritmo mais brasileiro de todos começou com o convite de Dente Poesia para comparecer na roda de samba autoral do Terreiro de Compositores. “Quando eu cheguei no Terreiro, eu desmistifiquei toda uma ideia que eu tinha de roda de samba, porque você vê o quanto é respeitado o samba do parceiro, que é além de uma simples composição, tá ligado?”

Souto contou que não havia nenhuma composição de mulheres no caderno em que registram, a cada seis meses, as músicas tocadas no Terreiro. “Aí a gente fez um samba que se chama Lugar de Mulher, de composição minha, Lua Cristina e Raquel Freitas, que é o primeiro samba que a gente colocou no caderno.”

Souto MC no Terreiro de Compositores, com Osvaldinho da Cuíca. (Foto: Reprodução)

Machismo na música

Souto diferenciou o machismo que identifica nas duas cenas, a do samba e a do rap. Na primeira, conta que são menos mulheres compositoras, em comparação com homens. “Quando você chega mostrando uma composição, a rapaziada já fica assustada. Só que é como eu disse, eles não deixam de tratar sua composição com respeito em momento algum”. Já no rap, a MC diz ser muito pior. “Em flyer quando a gente vê falando que vai tocar fulano, ciclano e um muito mais. O muito mais é você e todas as suas parceiras que vão cantar. Você nem sabe que seu vulgo é muito mais”.

“Em flyer quando a gente vê falando que vai tocar fulano, ciclano e um muito mais. O muito mais é você e todas as suas parceiras que vão cantar.”

Ela conta que, mesmo quando sobem aos palcos, as MCs tem de enfrentar situações de desrespeito e boicote por parte dos homens. Souto cita como exemplo uma situação que rolou em um de seus shows. “A gente já chega falando qual que é a ideia: o som é pras minas. Chamamos as minas pra frente e quando os caras entenderam do que se tratava, eles viraram as costas pro palco e ficaram fazendo barulho no fundo do rolê pra que ninguém me ouvisse”.

Além dos shows, o machismo se nota também nas batalhas de MC’s. “Quando a gente vê uma batalha de sangue em que tem uma mulher e um cara batalhando, o cara vai sempre no estereótipo de que ela é muito gorda, ou ela é muito magra, ou ela não é gostosa pra ele ou que ele vai comer ela. É sempre uns negócios muito toscos e isso acaba com a autoestima da mulher. Tem mina que não consegue batalhar sangue porque trava com tudo isso” diz Souto.

Como alternativa a isso, surgiu a Batalha da Dominação, que acontece toda segunda-feira no metrô São Bento e é organizada pela produtora DMNA (Decidimos Mover Nossas Asas).

Souto com Issa Paz e Sara Donato na batalha de rap Dominação. (Foto: Reprodução)

“A Dominação tem sido importante porque a gente recebe feedback de mulheres dizendo o quanto a batalha tem sido importante na vida delas. E nas vezes que eu chego na Dominação não tem só presença de mulheres cis, a gente tem a presença de mulheres trans. Quando a gente vê isso acontecendo, quando a gente vê essa mulherada chegando e se sentindo a vontade, a gente sabe que tá fazendo certo”.

“Quando a gente vê isso acontecendo, quando a gente vê essa mulherada chegando e se sentindo a vontade, a gente sabe que tá fazendo certo”

A DMNA lançou também a cypher Machocídio, som em que Souto rima ao lado de Sara Donato, Issa Paz e Luana Hansen. A ideia surgiu um ano antes do lançamento, em uma conversa entre a dupla do Rap Plus Size e a MC, que falavam das cyphers com conteúdo machistas. Ela ainda conta que escreveu a parte dela no ônibus, a caminho da gravação. “No dia que íamos gravar eu tinha escrito uma parte. Aí ficava querendo ver como ficava no beat, o busão tava lotado e as pessoas ficavam olhando meio esquisito pra mim, achando que eu tava falando sozinha”.

A repercussão da cypher no rap nacional foi uma bomba. “Eu fiquei muito feliz com a forma que o Machocídio apareceu porque é o seguinte, quando a gente vai cobrar determinadas posturas, eu tenho pra mim que a gente tem que cobrar na mesma medida que a porrada vem. Se o cara falou uma groselha muito grande pra mim, eu vou descascar ele, não vou bater com urso de pelúcia. Não existe tapa de pelica. E eu acho que a Machocídio veio como um murro forte.”

Primeiro EP

O primeiro EP da Souto MC, uma das grandes promessas do rap nacional, está a caminho. A rapper adiantou no #VaidapéNaRua as participações da Karol de Souza, Tiago Elniño, Rap Plus Size, além da mistura com outros ritmos, como o ragga e o samba.

“O samba é um senhor mais velho dando conselho pro Rap, que é um moleque marrento, um moleque chato. Eu quero dar o máximo de cara de Brasil pro disco porque eu acho que se eu fizer uma coisa gringa vai ser sempre mais do mesmo. E eu tô bem cansada de ouvir batida de gringo, que é muito chato, sendo que aqui tem tanta coisa boa pra explorar” detalha a MC.

Ela contou ainda que o EP se chamará Espelho. “Eu escolhi esse nome porque eu gosto da palavra reflexão e eu acho que reflexão tem a ambiguidade de sentidos: de você refletir no espelho e a reflexão enquanto pensar. E como vem com essa temática de mulheres, eu quero que elas se vejam de fato, eu quero que elas se reflitam em todos os espaços da palavra e fiquem reflexivas em todos os sentidos das palavras”.

Para saber mais sobre a agenda, músicas e muitos mais da Souto MC é só acompanhar em sua página do Facebook e Instagram. Para ouvir as entrevistas com as meninas do Rap Plus Size, Luana Hansen e outras mulheres que passaram no #VaidapéNaRua é só clicar aqui.


|  O Vaidapé na Rua é transmitido ao vivo toda segunda-feira, às 20h, pela Rádio Cidadã FM. Na região do Butantã, o público pode acompanhar o programa sintonizando 87,5 FM e, no mundo inteiro, através do site da rádio. Acompanhe também a transmissão #aovivo pela página da Vaidapé no Facebook

Música, debate e Vaidapé!

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Crônica por: Luis Cosme* Fotos: André Zuccolo, Julia Mente e Gil Silva João Doria não anda … Continuar lendo Um Passinho à Frente, por favor.