05 de abril de 2017

Feira D’elas promove a economia solidária de mulheres no Butantã


A Feira D’elas valoriza a produção artesanal de mulheres e o consumo consciente, além de visar a independência financeira das expositoras


Por: Gil Reis
Fotos: Alexandre Marin

Na segunda feira, dia 20 de março, o #VaidapéNaRua recebeu Flávia de Montfort e Maria Clara, integrantes do projeto Feira D’elas, evento de economia solidária que incentiva e reúne produções artesanais de autoria feminina. A feira começou em fevereiro de 2016 e acontece todo terceiro domingo do mês com o Samba da Elis, também realizado só por mulheres, na Praça Elis Regina, localizada no bairro do Butantã.

Formada em jornalismo, Flávia tem um histórico de trabalho ligado à comunicação corporativa: “Entendia que essa ia ser minha carreira e estava imersa nesse mundo. Depois de um questionamento, decidi trabalhar de maneira independente”, conta. A partir da produção e venda de cerâmicas artesanais, mudou completamente sua forma de vida e de sustento. Depois de 15 anos em grandes empresas, Flávia pôde utilizar seu conhecimento para ajudar na organização da Feira D’elas.

“Senti vontade de ajudar. Me aproximei da organização, ouvi as demandas das expositoras e, nesse ano, fui convidada para trabalhar na parte de comunicação e divulgação da feira”, comenta. Ela descreve o projeto como economicamente viável para as mulheres, que acabam envolvidas em todos processos, desde a divulgação até a venda dos produtos na feira.

Maria Clara tem 22 anos, é moradora do Butantã e estudante de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo (USP). Na área de produção, sua primeira experiência profissional foi com a Feira D’elas: “É um projeto independente, gerando empregos e renda”, explica.

“É um projeto independente, gerando empregos e renda”

A primeira edição foi realizada em fevereiro de 2016 e, em junho do mesmo ano, a Feira já estava consolidada, se provando viável economicamente para as integrantes e promovendo novas oportunidades de trabalho a cada edição. “A feira cresceu, era impossível ser organizada por uma pessoa só. Foi nessa que eu entrei, ajudando na organização e no contato direto com as produtoras”, conta Clara.

Diferente das feiras tradicionais, a Feira D’elas não exige uma curadoria prévia das expositoras. Segundo Flávia, “o que a gente faz é olhar se o produto é realmente feito pela pessoa ou se tem envolvimento autoral”, explica. O projeto valoriza a autenticidade das manufaturas.

As entrevistadas ainda apontam o contato direto feito com as produtoras como um dos aspectos mais importante do projeto. Através de conversas feitas em um grupo no Facebook, é possível promover a interação entre as expositoras: “Apesar de serem muitas mulheres e muitas feiras realizadas, conseguimos construir uma rede, conhecendo o produto de cada uma”, diz Maria Clara.

Para garantir uma estrutura mínima, é cobrada uma taxa de R$ 40,00 para participação na feira. “Embora seja feita em um espaço público, tem um trabalho que tem que ser pago para acontecer”, expica Flávia. “Não é só montar uma barraca e ficar esperando as pessoas. Existe aluguel de estruturas, de banheiro e também pagamos as meninas do Samba da Elis. A gente quer empoderar e gerar renda, não explorar as pessoas”, completa.

“A gente quer empoderar e gerar renda, não explorar as pessoas”

A economia solidária se define pela existência de uma rede, que conta com a contribuição de diversos artistas de diferentes áreas.

O foco nas mulheres traz à tona a pauta da independência financeira feminina como um fator crucial para sua liberdade. “Essa independência ajuda para que sejam extintas as submissões históricas sofridas por nós”, comentou Clara.

A Feira também serve como vitrine para um projeto maior, o Espaço D’elas, que existe desde janeiro deste ano. Uma casa, ao lado do metrô Butantã, abriga todos as oficinas e dinâmicas que são oferecidos pelo coletivo. O espaço está a disposição de quem soma no projeto, com uma loja colaborativa permanente, uma sala de coworking, uma galeria de arte e atividades voltadas para o público feminino. Maria Clara citou o trabalho com o coletivo ‘Se Vira Mulher’ como exemplo: “Fizemos uma atividade de trabalhos de manutenção doméstica só para mulheres. Eu consertei o encanamento da minha casa depois dessa oficina, foi incrível”.

Fachada do Espaço D’elas, próximo ao Metrô Butantã (Foto: Reprodução/Facebook)

O empreendedorismo também é pauta. Segundo Flávia, “a maioria das mulheres foram empreender por necessidade, não por oportunidade. Muitas delas ficaram desempregadas, enfrentaram abuso ou situações que são insustentáveis. São pessoas que tem que empreender por força”.

Além disso, elas incentivam o debate sobre o consumo consciente, promovido a partir das feiras e atividades. “Comprar dessas mulheres é muito importante. Não dar o dinheiro para essas grandes empresas, que inclusive vendem carne apodrecida e sim para uma mulher pagar suas contas e de seus filhos”, explica Clara.

Apoie, participe e conheça o Espaço D’elas e a Feira D’elas.


|  O Vaidapé na Rua é transmitido ao vivo toda segunda-feira, às 20h, pela Rádio Cidadã FM. Na região do Butantã, o público pode acompanhar o programa sintonizando 87,5 FM e, no mundo inteiro, através do site da rádio. Acompanhe também a transmissão #aovivo pela página da Vaidapé no Facebook

Música, debate e Vaidapé!

A RUA GRITA

ENSAIO | A volta da caça às bruxas

Por: Felipe Malavasi A manhã de ontem (7) foi conturbada em frente ao Sesc Pompeia, … Continuar lendo ENSAIO | A volta da caça às bruxas