12 de abril de 2017

Nunca mais eu vou dormir: entenda a febre do MDMA no Brasil

Explosão no consumo de MD no Brasil é fato, mas ainda existem muitas dúvidas acerca dos efeitos da droga


Por Patricia Iglecio
Foto em destaque: Getty Images
Fotos na reportagem: Reprodução


Hit de João Brasil faz paródia com o MD e já tem mais de 1 milhão de visualizações no Youtube

Alegria, bem estar, disposição e empatia são algumas das sensações que usuários de MD relatam sentir ao utilizarem a droga. Conhecida também como Michael Douglas, a substância vem se popularizando no Brasil nos últimos anos e tem como princípio ativo a metilenodioximetanfetamina (MDMA), que também está presente na composição do ecstasy.

Sintetizado, o MD chegou ao país através do consumo das classes mais altas e hoje levanta questões acerca da sua composição, efeitos, saúde pública, ilegalidade e tráfico de drogas.

A Vaidapé investigou o tema e conversou com uma psicóloga especialista e usuários da droga. A identidade das fontes foi preservada e nenhum dos personagens da matéria tem relação entre si, todas as informações foram apuradas e os nomes são fictícios.


SOBRE O USO



“Quando usei fiquei tão empolgada que cai no chão e rolei no asfalto. No dia seguinte parecia uma morte eterna”
– A., 22 anos

“Euforia, sensação de unidade, como se o mundo fizesse muito sentido. Facilidade de comunicação. Apenas tudo que é bom sentir. De ruim, já senti alucinação sonora, ressaca, desidratação, diarreia, ressaca moral e sentimento de deprê, só coisa ruim”
– M. 22 anos

“Quando tomo não consigo parar de me mexer, sinto muito sensibilidade no tato e euforia”
– K., 22 anos

“Quando eu tomo eu sinto tudo mais a flor da pele, então se eu to feliz eu fico muito mais feliz, se eu estou ansiosa eu fico mais ansiosa, etc… E fico mais sensível também, tanto no emocional quanto no toque. Depois de tomar eu costumo ficar uns dias mais cansada do que o normal”
– J., 21 anos

“Coisas boas: deixa elétrico, felicidade, não dá sono. Coisas ruins: dor no corpo, trava a coluna, deixa tenso, dura pouco o efeito e é caro”
– O., 22 anos

 

S. tem 23 anos, começou a frequentar a cena eletrônica em 2015 e já usou MD algumas vezes. Para ele, a sensação que a droga trás é de “esquecimento de tudo e felicidade”. “Você quer abraçar as pessoas e não liga se está passando vergonha”, conta.

O lado ruim, continua, é que se utilizado em excesso o MDMA pode travar os lábios e a fisionomia muda. “Tá na sua cara estampada que você tomou. E você fica acordado por muitas horas, começa a se morder. É meio bosta. Eu não uso com muita frequência, porque quando eu estou nas festas acabo preferindo usar outras drogas, como cocaína. O foda do MD é que você dá só uma dedadinha e acha que não dá nada. Aí acaba tomando em todas as festas e nem percebe, porque seu amigo te oferece. Quando você usa cocaína você tem que dar um tirão, é uma coisa mais marcante.”

Ele conta que os eventos custam caro para entrar, o que acaba restringindo o público a pessoas de alta renda. “São festas meio pesadonas. É a galera que curte o submundo, de sair no mínimo ao meio dia. Tem quem vai até às seis da tarde. São pessoas que já estão nesse contexto. Normalmente, circula um ou outro traficante nesses rolês. Tem também quem leva pra tomar e acaba levando um pouco mais pra vender”, conta.

A popularização do MD sofre o mesmo processo que acontece com outras drogas sintéticas, elas vêm da Europa e começam a ser utilizadas pelas classes mais alta. Quando chegam nas biqueiras, correm mais riscos de serem adulteradas.


O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS


Embora a maioria dos entrevistados tenha descrito sensações parecidas com o uso da substância, o MD é uma droga pouco testada em seres humanos. Em parte pela ilegalidade, em parte pelo uso generalizado ser mais recente.

“Entre os anos 1995 e 2005, as substâncias aqui vinham do exterior, por isso elas eram mais puras. Quando esse consumo é disseminado, laboratórios clandestinos passam a produzir no Brasil e a qualidade pode diminuir”

Outras, como o LSD, vem sendo testadas desde 1960, quando a droga se popularizou. Isso fez com que elas passassem por estudos e dados mais precisos sobre sua composição e efeitos.

Maria Angélica Comis, psicóloga que compõe a diretoria da Associação Multidisciplinar de Estudos sobre Drogas (ABRAMD), também conversou com a Vaidapé para esclarecer dúvidas sobre a composição e uso do MD.

Em primeiro lugar, ela esclarece que hoje o risco do MD não ser puro é tão grande quanto o do LSD. Isso porque, nos últimos anos, houve um boom maior no consumo de ecstasy no Brasil.

“Entre os anos 1995 e 2005, as substâncias que a maioria das pessoas consumiam aqui eram provindas do exterior, por isso elas eram mais puras. Quando esse consumo é disseminado, o que acaba acontecendo? Laboratórios clandestinos passam a produzir no Brasil e a qualidade pode diminuir porque é muito caro. Alguns estudos indicam que as drogas produzidas no exterior são relativamente mais puras do que as drogas daqui”, explica.

Acredita-se que o MDMA em forma de cristal pode ser adulterado, muitas vezes os usuários acham que é puro, mas não é possível confirmar. Normalmente, são moléculas que são análogas ao MDMA, mas na sintetização muda-se alguns componentes, mas que ainda provoca um efeito parecido.

“É muito difícil você conseguir fazer um estudo com humanos sobre MDMA, porque, por conta do proibicionismo, dificilmente o conselho de ética aceita que seja testado”

No Brasil, os laboratórios clandestinos produzem substâncias utilizando precursores que são mais difíceis de serem pegos, análogos a substância, mas muitas vezes mais tóxicos.

“Por exemplo, a gente tem uma classe de substâncias que é vendida como LSD mais que são chamados N-bomes, que começam a chegar no Brasil por volta do ano de 2010, e eles são vendidos em selo como o LSD, só que tem um efeito muito mais ansiogênico e agudo. Não se sabe também a dosagem e existem pouquíssimos estudos sobre os N-bomes, principalmente a relação a longo prazo. É muito comum as pessoas terem mais crises de ansiedade ou episódios psicóticos por causa desse consumo”, diz Maria.

Com relação ao fato do MDMA ser uma droga considerada pouco estudada, a especialista explica que existem pesquisas sobre a prevalência do consumo e também a respeito das alterações fisiológicas que ela causa, mas é pouco estudada nos contextos em que ela é ingerida, por exemplo, como festas universitárias e raves. A substância vem sendo mais pesquisada no tratamento de stress pós traumático em veteranos de guerra.

“É muito difícil você conseguir fazer um estudo com humanos sobre MDMA, porque, por conta do proibicionismo, dificilmente o conselho de ética aceita que seja testado”, relata Maria. A maioria dos estudos, normalmente, são feitos com camundongos ou ratos. Nas pesquisas básicas, existe a preferência em testar com os machos, porque as fêmeas, por terem ciclo menstrual, sofrem alterações hormonais, o que dificulta o controle sobre a amostra de animais.


O QUE SE SABE ATÉ AGORA


Recentemente, uma matéria publicada na VICE trouxe uma pesquisa que revelou possíveis motivos pelos quais mais mulheres morrem pela ingestão de MDMA do que homens. O primeiro dado é que a letalidade da droga aparece mais em mulheres.

Embora a pesquisa tenha sido feita em uma rave em Amsterdã e observado um número pequeno de pessoas, suas conclusões parecem fazer sentido e devem ser levadas em consideração. Resumidamente, eles observaram 63 pessoas que usaram a substância, e constataram que 14,3% apresentaram hiponatremia, que é a baixa concentração de sódio no sangue e, dependendo do nível, pode fazer com que a pessoa se sinta desorientada, tenha convulsões, ou até mesmo morra.

O sódio é crucial para o funcionamento do sistema nervoso. A pesquisa mostrou que das 63 pessoas (33 homens e 30 mulheres) que usaram MDMA, nove apresentaram o quadro de hiponatremia. Destes nove, oito eram mulheres.

“Dificilmente há overdose de MDMA, mas a resposta do organismo pode variar muito, do contexto em que a substância é ingerida e se ela é adulterada ou não”

Além disso, a maioria das mulheres que apresentam esse quadro estavam durante o período menstrual, o que levou os cientistas a indicar que neste período, o estrogênio induz a produção de hormônio antidiurético no corpo da mulher, o que pode levar a circulação sanguínea mais lenta.

Maria Angélica explica que a hiponatremia é uma diminuição anormal do sódio no organismo, o desregulamento desse eletrólito pode ocasionar instabilidade na pressão sanguínea e outros problemas mais graves. “Por isso que, quando a pessoa vai ingerir MD, é importante que ela se hidrate, mas não excessivamente, se ela tomar 3L de água de uma vez, também corre o risco de ter hiponatremia”, diz.

Embora existam relatos de mortes ligadas a hiponatremia na Inglaterra, não existem dados que precisem os indícios da relação com o ciclo menstrual da mulher. “Dificilmente há overdose de MDMA, mas a resposta do organismo pode variar muito de indivíduo para indivíduo, do contexto em que a substância é ingerida e se ela é adulterada ou não”, pontua a psicóloga.


EFEITOS E DEPENDÊNCIA


Para a especialista, é difícil um usuário se tornar dependente, uma vez que a alteração corporal que a droga provoca é acentuada e incompatível com as responsabilidades do dia a dia, como trabalho e estudo. Assim, o uso é mais associado ao contexto de festas e a ressaca pode durar até dois dias, o que debilita mais do que outras substâncias, como a maconha ou a cocaína.

“O MDMA produz muita serotonina. A pessoa tem um desgaste serotonínico muito grande. No dia seguinte, o organismo não produz a mesma quantidade, então ela fica mais depressiva.”

Sobre os possíveis danos psíquicos, Maria Angélica esclarece que para um usuário que já tem algum histórico de transtorno de ansiedade, o uso do MDMA pode elevar o nível. Assim, o indivíduo pode ter crises de ansiedade durante o uso ou agravar o quadro de depressão.

“Sobre esse quadro psicótico, a droga pode deixar a pessoa um pouco mais vulnerável se ela já tiver algum histórico familiar de psicose. Pode, por exemplo, precipitar algum episódio psicótico, principalmente se ela fizer o uso com outras substâncias.”

A ilegalidade faz com que não se tenha um controle de qualidade do que se está ingerindo, a droga sintetizada pode estar adulterada com uma grande quantidade de anfetamina, por exemplo, que é um estimulante forte.


HISTÓRICO


O MDMA foi inicialmente sintetizado em 1912 e patenteado na Alemanha pela companhia Merck em 1914. Nessa altura não estava sujeito a pesquisas para o uso humano. A Merck “tropeçou” no MDMA ao tentar sintetizar Hydrastinin, um medicamento vasoconstritor e estíptico. O MDMA surgiu como produto secundário não planeado desta síntese.

Nos anos 50 foi brevemente estudado pelo governo dos Estados Unidos como parte das investigações químicas da CIA e do exército, numa pesquisa comissionada em 1953/54 sobre o uso de MDA, MDMA e outras substâncias como “soro da verdade”. Estas provaram ser impróprias para este propósito. Os resultados desta pesquisa não foram publicados até 1973. O primeiro uso recreativo reportado deu-se nos anos 60.

Em meados da década de 70, foi redescoberto pela comunidade de terapia psicodélica e começou a ser utilizado como auxiliar da psicoterapia por psiquiatras e terapeutas familiares com o campo da terapia psicadélica. Em princípios dos anos 80, a droga começou a ser usada sem supervisão médica, com o nome de “ecstasy”. A sua popularidade crescente levou à sua proibição nos Estados Unidos em 1985 (e nos anos seguintes na maioria dos países) e a sua popularidade tem continuado a aumentar desde então.

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