05 de abril de 2017

Tocou a sirene: o problema das enchentes no Butantã ainda não acabou


Conhecido em todo bairro por sua luta, “Djalma das enchentes” foi um dos principais articuladores para construção do Parque Chácara do Jockey. Entrevistado pela Vaidapé, ele diz que o perigo de inundações ainda é iminente.


Por Gil Reis
Fotos: Gil Reis

O resgate é uma ação fundamental para entender que toda história tem um início e toda conquista é fruto de um trabalho do passado. Em entrevista com Djalma Kutxfara, morador do Jardim Jussara há 48 anos, vamos entender como a luta contra as enchentes naquele bairro deu origem a um dos maiores parques municipais de São Paulo, o Chácara do Jockey.

Djalma tem hoje 77 anos e é popularmente conhecido no bairro como Djalma das Enchentes. Em cima de sua residência, está o principal motivo do apelido. Quando vem chuva forte, Djalma liga uma sirene que pode ser ouvida a uns 2km de distância: “quando a sirene começa a tocar, o pessoal já fica preparado”, diz ele, relembrando com naturalidade os difíceis momentos vividos em sua casa.

Conhecido por quase todos na região, inclusive dentro do parque Chácara do Jockey, ele foi fundamental para que houvesse união em torno do processo de conquista do terreno. Polêmico, ele nunca poupou esforços para defender os interesses dos moradores do Jardim Jussara, que historicamente sofrem com os alagamentos.

A luta contra as enchentes começou ali, em meados dos anos 80, e está viva até hoje. Em pouco mais de 30 anos de batalhas e reivindicações, Djalma alerta que “o problema ainda vive no bairro”. Nesta entrevista, vamos entender como essa reivindicação tão antiga ainda pode render desdobramentos importantes para região do Taboão e do Jardim Jussara.

Vaidapé: Como começou sua luta pelas enchentes?

Djalma das Enchentes: Eu comprei essa casa em 1969 e mudei em 70, quando aqui não tinha nenhuma rua asfaltada. Olhando para o outro lado já é Taboão da Serra, aonde tem um morro que há alguns anos atrás só tinha eucalipto. O tempo foi passando e hoje simplesmente asfaltaram tudo. O morro só tem casas, onde antes só havia árvores. Quando chovia, raramente enchia, pois era tudo de terra, tinha onde a água cair e infiltrar, e o Pirajussara era um córregozinho à toa.

Com o tempo e a ocupação dos lotes, foi impermeabilizando toda região e o córrego já não dava mais conta. Veio a Prefeitura e alargou mais ele. Fizeram isso umas duas vezes, aprofundaram e alargaram. Até o momento em que não deu mais e resolveram canalizar e tamponar, fazendo uma galeria para captação de água. Isso foi mais ou menos em 1986. O que foi feito deu origem a esse modelo de córrego que está ai, hoje, todo coberto.

Foi uma alegria na época, pois a galeria conseguia captar 96.000m³ de água por segundo. Mas o Taboão começou a expandir muito. Foram construindo casas e prédios e acabou impermeabilizando tudo. Começou a encher o Pirajussara e, a cada ano que passava, ele enchia mais. Mais ou menos em 1989, a água já tava entrando no meu portão. Aí que começaram alguns movimentos aqui pra gente se mobilizar.

VDP: Como se deu essa mobilização? O que foi feito e quais as consequências para o bairro?

Djalma: Você tem partido político? Não? Então eu posso falar. Nessa época, o PT tava muito presente aqui. O pessoal que morava para cá era fanático pelo PT. E, naquela época, por causa da enchentes, o pessoal começou a passar de casa em casa e falar: “Vamos parar a avenida, vamos fazer uma bagunça e parar a pista!”. A ideia era essa, mas eu não tinha noção de como protestar contra enchente.

“Era um baita fogo de palha. Você se desgastava, se expunha muito e não dava em nada. Depois de um tempo, o pessoal foi sumindo e aqui ficou um deserto.”

Na primeira vez, a gente foi no Largo do Taboão. Tinha um tal de João que tinha uma caminhonete, pegava todos os restos de sofá, cadeira de madeira, cama, colchão e jogava tudo na Régis Bittencourt, na divisa de São Paulo com Taboão, para fazer fogueira. A gente parava tudo. Como ainda não tinha Rodoanel, ninguém entrava e ninguém saia da cidade, travava mesmo, isso bem no sábado. Começava 7h30, 8h da manhã e ia até 17h30 da tarde. Ficava fila de caminhão até Itapecirica da Serra. Era uma guerra, vinha imprensa, Polícia Rodoviária, Civil, uma baita bagunça, ainda tinha os vereadores da região que queriam fazer oba-oba. No domingo, tinha matéria na Folha, Estadão, saía em tudo que é jornal e rádio. Mas, na segunda feira, cada um de nós ia trabalhar. Ficava por isso mesmo.

Na terceira vez que a gente fez essa paralisação fiquei sabendo que uma ambulância travou na Régis e morreu uma pessoa dentro, a uns 6km daqui. Aconteceu isso e, ao mesmo tempo, a gente corria e não dava nada. Era um baita fogo de palha. Você se desgastava, se expunha muito e não dava em nada. Depois de um tempo, o pessoal foi sumindo e aqui ficou um deserto. Minha rua tinha seis casas vazias, de pessoas de poder aquisitivo melhor, que largaram as casas lacradas aqui, abandonadas. Alugaram outro lugar e deixaram aqui. No bairro todo tinha umas 40 casas assim, abandonadas por causa das enchentes. Um monte de gente queria morar de graça nessas casas, foi uma época muito difícil para o bairro, mas a gente começou a se movimentar. Era o que dava para fazer.

VDP: Quando perceberam que o movimento não estava andando, vocês mudaram o modo de manifestação?

Djalma: Sim. O Zé, o Alberto, o Valdir e o Wilson, uns 4 ou 5, vieram me chamar para fazer um grupo. As primeiras reuniões foram aqui, onde a gente está sentado. Eu falei: “pessoal, vou para briga, vou fazer isso pois fiquei 25 anos pagando essa casa e e não quero perder. Vou para briga, mas eu nunca mais vou fechar a avenida”. A gente tinha que brigar com Prefeitura de São Paulo, do Embu, do Taboão e puxar a orelha do prefeito. Só assim ia mudar alguma coisa.

Aí começamos. Minha parte era falar com o pessoal da Câmara de Vereadores de São Paulo e Assembleia Legislativa. O Valdir por exemplo, fazia a prefeitura do Embu, o Wilson fazia de Itapecirica e cada um fazia uma parte. A gente se reunia de 15 em 15 dias e foi muito difícil de acharmos um buraco. Quase sem perspectivas. Até que chegou em mim o Zarattini [Carlos Zarattini] e o Vicente Cândido, hoje os dois são deputados federais. Eles eram do PT. O Zarattini tinha pretensões e o Vicente já era vereador. Eram empolgados, falavam que ia acontecer, que a gente ia fazer. Mas, passava 2 dias, murchava. Ligava para eles, diziam que iam ver e nada.

Até que a gente pensou em ir na imprensa. As duas primeiras que nós conseguimos foram a Record e Rádio Jovem Pan. Fizeram matéria e a coisa atiçou um pouco mais. A Prefeitura começou a ligar para gente, tinha vereador batendo na minha porta. Mas a coisa não anda como o pessoal quer. As pessoas foram se afastando e eu fiquei sozinho, isso há muitos anos. De um tempo para cá, sou eu e eu.

“A gente tinha que brigar com a Prefeitura de São Paulo, do Embu, do Taboão e puxar a orelha do prefeito. Só assim ia mudar alguma coisa.”

VDP: Como o grupo contra as enchentes realmente se institucionalizou?

Djalma: No dia 3 de março de 1993 eu já tinha todo equipamento que tenho aqui: válvula de retenção, comporta, sirene e tudo. A sirene eu tocava assim que ia dar a enchente, ela funciona até hoje. E nesse dia que nasceu esse desenho, que tem uma pessoa no telhado de uma casa. Foi verdadeiro, aconteceu com a minha irmã. Ela morava nessa mesma rua, com a minha mãe e o marido dela. Nesse dia, que inclusive caiu o muro da minha casa, elas tiveram que se abrigar no fundo do sobrado delas, no lugar onde ficava a churrasqueira e a água subindo. Eles quebraram uma telha e subiu todo mundo em cima do telhado. Ficaram os três em cima do telhado das 23h30 da noite até às 5h da manhã. Depois que os bombeiros chegaram e tiraram eles de lá. Por isso esse símbolo, é verídico, aconteceu com a minha família. Foi aí que nasceu o grupo, com esse nome e desenho. Isso certamente deu força na nossa luta.

VDP: Qual foi a importância da área do Jockey na luta das enchentes?

Djalma: A história do Jockey foi mais ou menos assim: tinha o projeto da Ponte Estaiada, no Rio Pinheiros. De um lado tinha a TV Globo e do outro a Favela do Real Parque. A dona Marta Suplicy, prefeita na época, queria tirar a favela de lá – tenho a impressão que o pessoal da Globo fez uma pressão enorme também para isso acontecer. O Jockey devia mais de 200 milhões de impostos para Prefeitura: dessa área aqui da várzea, do Hipódromo e de um prédio deles na João Brito. Eles queriam passar a área daqui (várzea) para Prefeitura, para diminuir o valor da dívida. Quando a Prefeitura aceitou a proposta, as empreiteiras começaram a cair matando em cima para construir prédios aqui. Já a Marta, queria pegar o pessoal do Real Parque e jogar aqui. Eu falei: “Não vai fazer aqui nem que a vaca tussa. Vai ter que passar por cima de mim”.

Eu tinha que lutar, a gente tava fodido. Não tinha quase área permeável num raio de 5km daqui. Quando saiu publicado no Diário Oficial a troca, o pessoal veio aqui se explicar. Falei com o Zarattini, ele defendendo os prédios populares e eu sabendo que a gente ia tomar água na bunda. Tivemos uma enchente que foi até maneira. No dia seguinte eles limparam e a Marta veio aqui na minha rua. Eu falei: “Taí dona Marta, a desgraça toda feita. É assim que a gente vive aqui, de enchente em enchente”. Aqui tinha até vizinho que fazia estrutura com corda, porque quando chovia suspendia o fogão, a cama, tudo. A Marta falou que ia construir as moradias populares, pois o pessoal estava mal acomodado na favela, que tinha acabado de dar um incêndio. Ela estava toda entusiasmada e eu disse: “Você vai pegar uma área boa dessa, toda arborizada, com lago e toda cobertura vegetal para construir prédio? E a gente aqui tomando água? Eu não acho justo prefeita!”. Eu achei até que o assessor dela ia me dar uma porrada, mas eu tinha que falar mesmo.

“Eu tinha que lutar, a gente tava fodido. Não tinha quase área permeável num raio de 5km daqui.”

Nesse dia, tinha televisão, rádio, tudo de novo. Depois dessa, eu vi que a coisa ia começar a andar. Não tinha nada de parque ainda, mas entrei na luta para não construírem um bairro residencial ali. Entrou no jogo o Ministério Público, que barrou de vez a ideia de fazer moradias aqui. O passo da chácara foi esse, entrei na briga do Jockey por esse motivo. Depois que ficou na nossa mão, decidimos fazer um parque. Eu fazia a coisa meio paralela, entre o parque e a luta das enchentes. Me convidaram para ser do Conselho Gestor, mas eu não quis. Minha briga foi essa, transformar a chácara em parque público. Não preciso do meu nome em cartaz nem nada, minha luta eu já fiz.

VDP: Qual importância da área do Jockey para conter essas enchentes? Essa área contribuiu para estancar as enchentes no bairro?

Djalma: Tenha certeza que sim, a área do parque ajudou com as enchentes. Se você ver a região aqui, indo para o Embu das Artes, é só prédio que estão construindo. É muita coisa. De acordo com os cálculos que o Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) me deu, em 500m² de área de mato, seja eucalipto ou outro tipo de vegetação, consegue-se absorver 30m³ de água, para ela ficar toda na terra. Se você pega essa mesma área e cimenta ou constrói um prédio, a água corre e vem para toda pro rio. A impermeabilização aumentou muito rápido. A construção do parque ajudou exatamente a preservar uma área que era muito importante aqui para região. Quando quiseram impermeabilizar o Jockey, nós fomos os primeiros a ser contra. Dessa maneira a gente se uniu com o pessoal do Movimento Chácara do Jockey, mas tudo por conta das enchentes. Percebi que essa luta também ajudava no que a gente estava buscando aqui, resolver esse problema de enchentes. Esse foi o principal argumento para virar parque e hoje ele se consolidou.

“Percebi que essa luta também ajudava no que a gente estava buscando aqui, resolver esse problema de enchentes. Esse foi o principal argumento para virar parque e hoje ele se consolidou.”

VDP: Como o problema das enchentes foi solucionado realmente?

Djalma: Foi com a construção dos piscinões. As coisas mudaram realmente depois que entrei em contato com o Governo do Estado, em um encontro com a deputada estadual, Beatriz Pardi. Expliquei a história das enchentes, mostrei essa camiseta aqui, falei que a imagem remetia a história da minha irmã, que passou a madrugada no telhado por conta de uma enchente. Perguntei para ela se não dava para falar com o governador. Ela arrumou uma reunião com o Walter Feldman e nós encontramos com ele no Palácio do Governo. Explicamos novamente a situação e ele falou: “Pode deixar que eu vou falar com o governador”, que era o Mário Covas na época. Conversamos com ele e, naquele tempo, o Alckmin era vice. O Covas deixou o Alckmin com a gente e disse: ‘O que ele falar, tá falado’. Foi firmado um compromisso para análise da área e foi tudo muito rápido.

Passado uns 15 dias, a gente voltou para lá, logo depois de uma enchente. Umas 12 ou 14 pessoas, tudo molhado e fedido. Chegamos lá e só tinha gente de terno e gravata, achei que a gente tava no lugar errado. Até que chamaram: “Djalma das enchentes! Vem aqui, pode entrar”. Entramos, e explicamos grosseiramente, pois todo mundo já sabia o que estava acontecendo. Passado mais uns 15 dias, uma reunião com todo mundo. Estava o DAEE, secretaria de Recursos Hídricos, prefeitos do Taboão, Embu, Itapecirica e o Secretário de Obras de São Paulo. Foi feito um acordo e, depois de um estudo na bacia do Pirajussara, eles prometeram resolver os problemas. Encontraram cinco áreas para fazer piscinões em Taboão da Serra. O acordo feito deu origem aos piscinões aqui da bacia do Pirajussara, o que já melhorou bastante as enchentes. Hoje nós temos 6 piscinões com quase um milhão de metros cúbicos d’água armazenados. E tudo isso viria para cá. Eu estou nessa batalha há muitos anos, eu ia visitar quase todo dia as obras. Foi uma vitória também, mas ainda não acabou.

“O acordo feito deu origem aos piscinões aqui da bacia do Pirajussara, o que já melhorou bastante as enchentes. Hoje nós temos 6 piscinões com quase um milhão de metros cúbicos d’água armazenados.”

VDP: Qual é a situação agora? Você está se movimentando para mais reivindicações?

Djalma: Eu não tenho sossego. Agora eu estou preocupado com a situação de Taboão da Serra, ali do córrego Poá, que fica aqui em cima. Vou até mandar uma carta para o Doria. Esse córrego deságua no Pirajussara. No centrão do Taboão, quando dava chuva, era um metro de enchente. O DAEE fez um canal lá. Agora eles não tem problema mais de enchente e, como não inunda mais lá, por que tem vazão, cai tudo aqui na cara da gente. Esse ano já tivemos dois transbordamentos e encheu o Pirajussara. Resolveu um problema e criou outro. Eles livraram a cara deles. Fizeram essa variante e impuseram o problema para nós. Eu não sou engenheiro nem nada, mas porra… Até fiz uma carta para o Doria, vamos ver se ajuda com essa situação. Agora o nosso pedido é para existir mais um terreno para construção de um novo piscinão aqui para bacia do Pirajussara.

VDP: Os seis piscinões da bacia do Pirajussara não são capazes de resolver o problema?

Djalma: Tem o Portuguesinha, construído em outubro de 2003, que capta 110.000m³. O Maria Sampaio, feito em Junho de 2004, pega 120.000m³. Cedrolândia, aqui pertinho,feito em outubro de 2004, também 110.000m³. O Charpe, feito em janeiro de 2010, 500.000m³ e o Olaria que eu não tenho a data exata de construção, armazena 120.000m³. Esses são os 5 principais da bacia e eles não estão segurando, ainda mais aqui em baixo no Pirajussara. Nós temos que guerrear com a Prefeitura de qualquer um dos três municípios (Taboão, São Paulo e Embu), para achar terreno. Isso porque, de acordo com a Constituição paulista de 88, tem uma emenda que diz que todo córrego que faz divisa de município, é responsabilidade das prefeituras envolvidas e do estado. É responsabilidade então dessas três prefeituras e do Governo do Estado.

“Esse ano já tivemos dois transbordamentos e encheu o Pirajussara. Resolveu um problema e criou outro. Eles livraram a cara deles.”

Para nós, é interessante que seja construído no Taboão, que é mais perto e mais para cima, assim a água não precisa chegar até aqui. A impermeabilização tá muito rápida, é uma loucura. Eu quero intervenção do Doria como prefeito de SP para entrar em contato com o Fernando Fernandes (PSDB), prefeito de Taboão. Porque o prefeito daqui, não adianta. Eu entreguei uma carta bem redigida na mão dele, pedindo uma reunião para conversar sobre isso, mas ele não atende. Não adianta. Ouviu falar Djalma das enchentes, ele não atende. Eu tô querendo mostrar que, já no ano que vem, vamos ter enchentes maiores. A galeria não vai aguentar e a reivindicação agora é de um novo piscinão, porque sabemos que área para fazer existe.

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Crônica por: Luis Cosme* Fotos: André Zuccolo, Julia Mente e Gil Silva João Doria não anda … Continuar lendo Um Passinho à Frente, por favor.